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Entrevista

As campanhas de desinformação que marcaram a corrida presidencial dos EUA

Latinos foram alvos de falsas narrativas que associam o Partido Democrata a Nicolás Maduro, da Venezuela

Entrevista
2 de novembro de 2020
10:00
Este artigo tem mais de 6 anos

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Gage Skidmore/Flickr

Amanhã (3/11), os norte-americanos vão às urnas para decidir quem será seu novo presidente. De um lado, o democrata Joe Biden; de outro, Donald Trump, concorrendo à reeleição com as mesmas estratégias de desinformação que o elegeram em 2016.

Entre as falsas narrativas que a campanha de Trump utiliza está uma teoria conspiratória que associa o establishment político – em especial o partido democrata – a um suposto esquema de tráfico sexual de crianças, aborto e pedofilia. A narrativa foi criada por um usuário anônimo em fóruns da internet, o QAnon.

Segundo membros do First Draft, coalizão de jornalistas e pesquisadores de combate à desinformação, a teoria existe desde 2016, mas se tornou mais popular este ano, chegando a países como o Brasil. Eles atribuem parte dessa popularização à cobertura midiática sobre o assunto. “Algumas vezes o objetivo final da desinformação é justamente conseguir que jornalistas falem sobre aquilo para que seja amplificado”, explica Jaime Longoria.

Conversamos com Longoria e Daniel Acosta, que investigam a “desordem informacional” nas comunidades latinas nos EUA e como as notícias falsas e distorcidas estão sendo compartilhadas dentro desses grupos durante a campanha eleitoral americana.

Em comparação com o último pleito, infelizmente pouca coisa mudou – e as plataformas ajudaram muito pouco a combater a desinformação.

“As técnicas de desinformação que foram usadas naquela época ainda estão sendo usadas hoje”, avalia Acosta.

Daniel Acosta e Jaime Longoria são membros do First Draft, organização global de combate à desinformação

Leia a entrevista na íntegra:

As últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos foram marcadas por uma intensa campanha de desinformação. Alguma coisa mudou de lá para cá?

Acosta: As técnicas de desinformação que foram usadas naquela época ainda estão sendo usadas hoje. A desinformação ainda começa em grupos pequenos e fechados para depois se manifestar e se popularizar em redes sociais. O que podemos dizer é que em 2020 as redes de desinformação estão ainda maiores, justamente porque o uso de redes sociais é maior.

Longoria: Eu acho que a maior diferença entre 2016 e 2020 em termos de desinformação não é que ela aumentou ou piorou, mas o fato de que ela ainda existe e ainda é um problema. Hoje, as pessoas têm uma obsessão com “fake News”, mas nós, no First Draft, abominamos o uso desse termo – nós o chamamos de “F word”. A desordem informacional que vivemos é muito mais complexa que apenas sites de fake news. Tem mais a ver com mexer com as emoções e crenças das pessoas. Quando as pessoas compartilham desinformação, é geralmente porque elas acreditam naquilo e querem ajudar, não porque são atores maliciosos.

Desde a eleição de 2016, vimos crescer esforços de combate à desinformação, como agências de checagem de fatos (fact-checking). Isso não representa um avanço?

Acosta: Como pesquisador, eu posso dizer que, apesar de as iniciativas terem crescido imensamente em quase todos os países – especialmente na América Latina, e o Brasil é um desses casos –, seu impacto ainda não pode ser sentido, porque ainda há muita desinformação circulando em grupos de WhatsApp e redes fechadas.

Apesar de termos o fact-checking, não é suficiente. E não podemos culpar os jornalistas ou checadores, mas sim as plataformas e os usuários que compartilham desinformação.

Longoria: Eu não acho que as pessoas deveriam depender de outras para verificar e checar informação. Pensando em alfabetização midiática, nós queremos leitores que sejam checadores eles mesmos e entendam o que é uma fonte verdadeira e o que não é.

O fact-checking também é uma área que ainda está aprendendo. A desinformação é feita para ser espalhada amplamente. Enquanto uma checagem não é tão atrativa. Então, é difícil competir.

Além do fact-checking, muitas reportagens têm tratado do tema da desinformação, e um dilema recorrente é como tratar desse tema sem dar mais visibilidade às notícias falsas e teorias da conspiração. Vocês acreditam que a imprensa cometeu erros nesse sentido?

Acosta: A imprensa deveria ser a guardiã da informação. Mas com as plataformas [de redes sociais] esse processo de gatekeeping não está mais nas mãos de jornalistas e da mídia. Ainda assim, eles continuam tendo responsabilidade e às vezes, quando uma desinformação vai parar nos jornais, isso a ajuda a se espalhar.

Longoria: Um dos principais erros desse tipo foi a popularização do QAnon. Ele era bem desconhecido e hoje em dia faz parte do debate público. Temos hoje candidatos que são apoiadores do QAnon. Isso em 2016 era inimaginável. Então, algumas vezes o objetivo final da desinformação é justamente conseguir que jornalistas falem sobre aquilo para que seja amplificado.

Donald Trump e Joe Biden, candidatos à presidência dos Estados Unidos

O QAnon, teoria da conspiração que associa sem evidências o establishment político a um esquema de tráfico sexual, pedofilia e aborto, também foi muito comentado aqui no Brasil. As pessoas dizem que é a maior desinformação desta corrida presidencial nos EUA. Quão grande é essa teoria da conspiração por aí?

Longoria: Neste ano em especial, essas conspirações se espalharam para comunidades onde elas não eram esperadas e sem esse nome. Nós vemos muitas pessoas usando esse discurso com frases de ordem como “salvem nossos bebês”, “chega de tráfico sexual”.

Isso tem muito a ver com o fato de que essa teoria da conspiração é amorfa. Ela tem uma forte base de antissemitismo, islamofobia, homofobia, misoginia, mas ela também pode ser usada em quase qualquer situação, porque na verdade ela não é sobre nada.

Vocês dois monitoram a desinformação principalmente na comunidade latina nos EUA. Vocês podem falar um pouco mais sobre as narrativas falsas ou enganosas que têm como foco essas pessoas?

Longoria: Temos visto muitas acusações de que o Partido Democrata seria um marionete da esquerda radical. Vimos postagens que os chamam de “chavistas”, por exemplo. E isso não vem apenas de figuras anônimas online, mas da própria campanha de Donald Trump.

É uma isca frequentemente usada com a comunidade latina, e ela funciona muito bem porque muitos latinos têm aversão a esses governos de seus países de origem. E a campanha se aproveita disso.

Estão tentando pintar Joe Biden como simpático aos governos cubano, venezuelano e nicaraguense. Mas nós sabemos que Biden já chamou Maduro e Ortega de tiranos em entrevistas. Então, esse argumento não faz sentido. Não existem políticas no Partido Democrata relacionadas a isso.

Acosta: Outra estratégia que vemos bastante é a tentativa de criar tensão racial entre a comunidade hispânica e outros grupos, como negros. E isso é muito perigoso porque o único objetivo é separar, causar mais tensão.

Pode dar um exemplo?

Acosta: Um vídeo muito popular no Facebook mostrava uma dupla de adolescentes negros batendo em um hispânico. Isso realmente aconteceu, mas o vídeo era compartilhado com uma legenda que dizia: “Militantes do Black Lives Matter agridem um menino hispânico”, quando na verdade se tratava de uma briga entre vizinhos. Não tinha nada a ver com o movimento Black Lives Matter.

Já que estamos falando de tensões raciais, o Channel 4 recentemente revelou que a campanha de Donald Trump em 2016 fez postagens que desincentivaram pessoas negras de votar. Estratégias como essa estão sendo usadas na campanha atual?

Longoria: Eu não tenho tanta propriedade para falar sobre o que pessoas negras estão vendo nas suas redes sociais, mas entre a comunidade latina nós sabemos que existe um movimento chamado LExit, que é a saída dos latinos do Partido Democrata.

Vocês escreveram artigos sobre como comunidades cristãs nos EUA, em especial hispânicos, estão sendo alvos de notícias falsas. Podem falar sobre a influência de líderes e comunidades religiosas no compartilhamento de desinformação nos Estados Unidos?

Acosta: Esse fenômeno deve ser entendido como uma das bases que apoiam o presidente Trump: os brancos evangélicos. E pastores chamam seus fiéis para apoiar o presidente.

Longoria: Para mim, o maior exemplo é esse pastor no Facebook que se chama “evangelista Gary Lee”. Ele publica uma série de profecias e pregações em que ele diz que Donald Trump seria um líder enviado por Deus. Esse tipo de coisa é muito perigosa porque a mensagem que se passa é que as pessoas não podem questionar ou cobrar essas figuras políticas e devem acreditar em tudo que elas dizem, sob o pretexto de ser uma ação divina.

Como têm sido as medidas das plataformas de redes sociais para combater a desinformação nestas eleições?

Acosta: Eu acredito que elas não fizeram o suficiente. Comparado a 2016, alguns passos foram dados, mas isso basta? Eu acredito que não. Para mim, as plataformas precisam ter um compromisso maior em combater a desinformação que está sendo espalhada através delas.

Longoria: Em especial no trabalho que Daniel e eu fazemos, que é checagem, nós vemos muitos conteúdos sendo tirados do ar, mas a grande maioria deles – especialmente os que estão em espanhol – continua circulando nas plataformas. O YouTube, por exemplo, disse recentemente que tiraria do ar canais associados ao QAnon, mas os canais que nós monitoramos continuam lá e produzem vídeos diariamente.

E a transparência dessas plataformas? Melhorou alguma coisa?

Longoria: Elas não abriram nenhuma porta para nós. Nós ainda estamos espiando através de uma janela.

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