Agência de Jornalismo Investigativo

Imagem atribui fonte dos dados ao IBGE, mas usa números de levantamentos diferentes e que não podem ser confrontados

20 de abril de 2018
16:37
Este texto foi publicado há mais de 4 anos.
Reprodução
Corrente erra ao confrontar dados de desocupação de governos FHC, Lula, Dilma e Temer
Corrente erra ao confrontar dados de desocupação de governos FHC, Lula, Dilma e Temer

“Desemprego:
2002 (FHC): 10,5%
2010 (Lula): 5,3%
2014 (Dilma): 4,3%
2016 (golpe): 10,2%
2017 (Temer): 13,7%
Dados do IBGE” – Texto de imagem que circula em posts no Facebook, de autoria desconhecida.

FalsoCom a aproximação da campanha eleitoral, passaram a circular pelas redes sociais números sobre as taxas de desemprego nos mandatos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB). Os valores são usados para tentar mostrar qual governo tinha mais pessoas desocupadas e, com isso, defender um determinado candidato ou partido. Uma dessas publicações é uma imagem que traz dados entre 2002 e 2017, apontando Temer como o presidente com maior taxa de desemprego. A foto atribui a fonte dos números ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas a comparação é falsa.

O problema das informações citadas pela corrente está no fato de uma parte delas não poder ser comparada. Os dados do final dos governos Fernando Henrique (10,5% em dezembro de 2002) e Lula (5,3% em dezembro de 2010) e do final do primeiro mandato de Dilma (4,3% em dezembro de 2014) estão corretos e foram extraídos da Pesquisa Mensal do Emprego, feita pelo IBGE. O levantamento verificava a desocupação em seis regiões metropolitanas – São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA), Recife (PE) e Porto Alegre (RS) – com visitas em 44 mil domicílios.

Esses números mostram que a taxa de desocupação caiu 59% entre dezembro de 2002 e dezembro de 2014. Ou seja, o desemprego foi bem menor tanto no final do segundo mandato de Lula como no do primeiro mandato de Dilma, quando comparado ao final do governo do tucano. Esses dados, no entanto, não podem ser confrontados com os de 2016 e 2017 que aparecem na imagem. Isso porque a Pesquisa Mensal do Emprego foi descontinuada em fevereiro de 2016 e a taxa de desocupação passou a ser calculada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, que adota uma metodologia diferente. Os outros dois números foram extraídos dela.

Feita a cada trimestre, a Pnad Contínua é produzida a partir de visitas a 210 mil domicílios em 3.500 municípios de todas as 27 unidades da Federação. É uma amostra muito maior e mais abrangente. Para verificar a taxa mensal nos períodos entre as pesquisas, o IBGE combina dados da coleta anterior com os da atual, mantendo sempre fixo o período de três meses para a análise. Um estudo feito por técnicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que o valor das taxas de desocupação tende a ficar em um patamar mais alto na Pnad Contínua em relação à Pesquisa Mensal do Emprego, embora a tendência se mantenha.

O porcentual de 10,2% de desocupação atribuído ao período do impeachment de Dilma é um número, na verdade, referente ao trimestre de dezembro-janeiro-fevereiro de 2016 – portanto, mais favorável à petista do que os posteriores. Na verdade, o afastamento da presidente ocorreu em maio daquele ano. De acordo com a Pnad Contínua, a taxa de desocupação em março-abril-maio foi maior e ficou em 11,2%. Já o índice de 13,7%, registrado no governo Temer em janeiro-fevereiro-março de 2017, foi o pior da série histórica e, por isso mesmo, o mais desfavorável até agora para o emedebista. A taxa caiu a 11,8% em outubro-novembro-dezembro de 2017 e voltou a subir em seguida, atingindo 12,6% em dezembro-janeiro-fevereiro de 2018.

Com base nos dados da Pnad Contínua, é possível dizer que a taxa de desocupação começou a aumentar no segundo mandato de Dilma e manteve-se alta no governo Temer. Mas é errado usar esses números misturados aos da Pesquisa Mensal do Emprego e, consequentemente, aos do final dos governos Lula e Fernando Henrique e ao final do primeiro mandato de Dilma. Esses dois conjuntos de índices adotam metodologias distintas e não podem ser comparados entre si.

Precisamos te contar uma coisa: Investigar uma reportagem como essa dá muito trabalho e custa caro. Temos que contratar repórteres, editores, fotógrafos, ilustradores, profissionais de redes sociais, advogados… e muitas vezes nossa equipe passa meses mergulhada em uma mesma história para documentar crimes ou abusos de poder e te informar sobre eles. 

Agora, pense bem: quanto vale saber as coisas que a Pública revela? Alguma reportagem nossa já te revoltou? É fundamental que a gente continue denunciando o que está errado em nosso país? 

Assim como você, milhares de leitores da Pública acreditam no valor do nosso trabalho e, por isso, doam mensalmente para fortalecer nossas investigações.

Apoie a Pública hoje e dê a sua contribuição para o jornalismo valente e independente que fazemos todos os dias!

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia também

Deputados discutem parecer sobre denúncia contra Michel Temer.

Checamos 8 frases da votação da denúncia contra Temer

2 de agosto de 2017 | por , , , e

Verificamos falas do relator do parecer, Paulo Abi-Ackel, do advogado de Temer, Antonio Mariz de Oliveira, e dos deputados de oposição Ivan Valente e Carlos Zarattini

Checamos os documentos que citam Temer divulgados pelo Anonymous

3 de março de 2017 | por

Grupo ativista publicou um post nas redes sociais com pacote de 600 páginas, que diz estabelecer relações entre o presidente e diversos políticos e empresários brasileiros

Secretária LGBTQIA+ quer transformar auxílio para pessoas trans em política federal

24 de janeiro de 2023 | por

Symmy Larrat coordenou o Transcidadania, que oferece bolsa para educação e profissionalização em SP

Mais recentes

Garimpo ilegal utilizou base da Funai que deveria proteger Yanomami, mostra ofício inédito

27 de janeiro de 2023 | por

Documento de 2021 cita helicópteros clandestinos, homens armados e garimpo utilizando estrutura do governo dentro da TI

Gravações colocam governador do MT sob suspeita de tramar contra jornalista

26 de janeiro de 2023 | por

Infiltrado no esquema, repórter denunciou intenção de atingir o colega, Alexandre Aprá, que desagradava governador

Primeiras imagens do STF mostram facilidade de bolsonaristas na invasão ao Tribunal

25 de janeiro de 2023 | por

Policiais não barraram acesso de grupos golpistas; Polícia Judicial deixou vulnerável prédio principal