Buscar
Ensaio

Indígenas de todo o Brasil ocupam Brasília em defesa de seus direitos e territórios

Com cerca de 7 mil indígenas de 200 povos, o 18º Acampamento Terra Livre busca “retomar o Brasil”, “demarcar territórios e aldear a política”

Ensaio
8 de abril de 2022
12:00
Este artigo tem mais de 4 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Homem indígena observa o céu com duas torres do complexo de prédios do governo em Brasília de fundo; ele usa adereço tradicional na cabeça
Andressa Anholete/Agência Pública

Na quarta-feira (6) à tarde, indígenas de todas as regiões do país marcharam até o Congresso Nacional. Eles fazem parte do 18º Acampamento Terra Livre (ATL), que desde segunda (4) muda o tom do planalto central reunindo na Esplanada mais de 7 mil indígenas de 200 povos. Na pauta do acampamento, está a defesa da demarcação das terras indígenas e a oposição ao PL 191/2020, que libera a mineração e a geração de energia em terras indígenas; e o PL 490/07, do Marco Temporal, que limita o reconhecimento de novas terras tradicionalmente habitadas por povos nativos e pode levá-los a perder os meios para sua sobrevivência.

No dia anterior à marcha, o ATL 2022 lançou uma carta aberta contra o projeto que libera a mineração sem permitir aos povos a decisão final sobre o destino de suas próprias terras. As lideranças argumentam que “o governo atual quer promover a especulação imobiliária sobre os territórios indígenas e incentivar a invasão do agronegócio” e conclamam os parlamentares a barrar o projeto.

O evento discute os retrocessos e ameaças do governo Bolsonaro aos povos indígenas

Para a deputada Joênia Wapichana, os PLs são “totalmente contrários ao interesse público, só afetam a vida dos mais fracos, dos mais vulneráveis, dos povos indígenas e de quem defende o meio ambiente”. Ela considera que o governo Bolsonaro prioriza projetos que “não condizem com a realidade da sociedade brasileira”.

Outras lideranças concordam, como o líder Kayapó, Doto Takak Ire, da terra indígena Menkragnoti, nos estados do Mato Grosso e Pará. “É um processo criminoso, e, se for o caso do Congresso aprovar [o PL 191], a gente vai ter que ir ao Supremo, pedir pro Supremo barrar esse papel que quer destruir o nosso futuro, o nosso sonho”.

Para liderança Kayapó, o futuro dos povos está ameaçado

Doto Takak Ire defende a importância da mobilização: “A gente está junto aqui para ajudar os parentes que estão necessitando de uma terra e de uma floresta para sobreviver”. “Peço para os parentes indígenas e não-indígenas ajudar a fortalecer o nosso acampamento Terra Livre”, finaliza em entrevista à Agência Pública.

Os povos tradicionais estão acampados na área externa do Complexo Cultural Funarte, no Eixo Monumental, em Brasília, desde a segunda-feira (4). Cada povo selecionou um espaço para montar suas barracas, onde se pintam e se arrumam para as atividades do dia. Antes do início das plenárias, povos de diferentes estados brasileiros são convidados a performar suas danças típicas e trazer suas principais demandas. Entre os corredores de barracas se falam várias línguas — no Brasil existem 274 línguas indígenas — , e mesmo o chamado para iniciar a marcha e outras atividades é traduzido para que ninguém seja deixado de fora. Espalhadas pelo acampamento também estão lojas onde os indígenas vendem artesanato e convidam o público a fazer as pinturas de suas etnias.

A programação vai até o dia 14 de abril e propõe atividades de debate sobre diversos temas ligados à causa, como a necessidade de ocupar a política — os candidatos indígenas serão divulgados no próximo dia 12 —, a emergência climática, a defesa das vidas dos povos isolados e de recente contato, a atuação da juventude, a inclusão no sistema educacional e a diversidade dentro do movimento.

Lideranças querem aproximar a juventude da luta indígena

O ATL ocorre desde 2004, mas esta é a primeira edição presencial depois da pandemia de covid-19, na qual o evento aconteceu virtualmente. O último ATL teve como foco a defesa da vida e o combate à pandemia de covid-19. “Vimos mais de 1.000 dos nossos caírem para a pandemia e sentimos a dor da perda de nossos velhos”, escreveu no site oficial a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), organizadora do evento.

Acompanho o acampamento pela Agência Pública desde o primeiro dia e segui a marcha até o Congresso junto à fotojornalista Andressa Anholete.

Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública
Andressa Anholete/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Ensaios

O copyright das imagens publicadas nesta seção é dos fotógrafos aqui creditados. Os ensaios não estão disponíveis para republicação. Para entrar em contato com os autores das imagens envie um e-mail para contato@apublica.org.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas
Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas