Buscar
Nota

Em oposição a ruralistas, deputada propõe criação de marco temporal do genocídio indígena

19 de outubro de 2023
13:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Em contraposição à pressão ruralista que conseguiu aprovar no Congresso o marco temporal para a demarcação de terras indígenas, a deputada Célia Xakriabá (PSOL/MG) apresentou um projeto de lei que propõe uma nova aplicação do conceito. O PL 4566/23 pretende fixar o ano de 1500 –quando, de acordo com o texto, se iniciou “a invasão do Brasil” pelos portugueses – como marco temporal do genocídio indígena. 

A proposta também reforça o artigo 231 da Constituição, que estabelece como terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas aquelas necessárias “à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições” e reconhece seus “direitos originários” sobre elas. Proíbe, ainda, “a imposição administrativa, legislativa ou judicial de qualquer marco temporal para fins de demarcação de terras indígenas”. 

Xakriabá tenta, com o PL, marcar terreno diante de uma pauta ferrenhamente defendida pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a chamada bancada ruralista, que articulou para aprovar a toque de caixa no Senado o projeto de lei sobre o tema (PL 2903/23) em 27 de setembro. A rapidez na votação se deu após a rejeição do marco temporal pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na semana anterior, depois de sete anos de julgamento. 

Segundo a tese jurídica, considerada inconstitucional pela Corte, só devem ser demarcadas áreas ocupadas pelos indígenas na data de promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988.

“Tínhamos que ter feito isso antes que eles [ruralistas]”, disse Xakriabá à Agência Pública. “Se existe algum marco temporal, teria que ser estabelecido no ano de 1500. É um absurdo que o Brasil, que começa por nós, sequer reconheça o direito originário [dos povos indígenas sobre seus territórios tradicionais], que inclusive antecede a Constituição Federal brasileira.”

O projeto da deputada foi aprovado na Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados na última terça-feira (17), após votação do parecer favorável do relator, deputado Chico Alencar (PSOL/RJ). Agora, deve passar pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Casa. 

Toda essa movimentação se dá na semana em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anuncia a sua análise sobre o PL 2903/23. Ele tem até esta sexta-feira (20) para decidir se sanciona, veta total ou parcialmente a matéria. 

Além do marco temporal, o texto carrega uma série de outros pontos considerados prejudiciais aos direitos indígenas, na avaliação de lideranças do movimento e especialistas. Entre eles, flexibiliza a proteção a povos isolados e facilita a exploração econômica das terras indígenas.

A pressão dos indígenas e de defensores da causa é para que Lula vete todo o projeto. Os eventuais vetos, no entanto, ainda terão de ser apreciados pelo Congresso Nacional. O presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (PP/PR), anunciou nesta semana que articula para derrubá-los, o que seria uma derrota para o governo federal. Caso o PL 2903/23 seja transformado em lei, o movimento indígena pretende questionar sua constitucionalidade no STF.

Xakriabá argumenta que buscou, com seu projeto, se posicionar contra a falta de ação do Congresso para assegurar o avanço nas demarcações – o movimento indígena vê no marco temporal a maior ameaça à garantia de seus direitos territoriais. “Esse projeto de lei se faz de extrema necessidade porque, enquanto esperávamos um gesto da Câmara dos Deputados para pensar a reparação histórica aos povos indígenas, se votou o marco temporal nesta Casa pelo PL 490 [número com o qual o projeto tramitou na Câmara], e depois, de maneira muito acelerada no Senado, por meio do PL 2903”, pontua.

No entanto, a iniciativa da deputada pode esbarrar no poder político da FPA, que reúne 50 dos 81 senadores e 324 dos 513 deputados federais. Logo após o STF afastar a validade do marco temporal, a bancada apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição, a PEC 48/2023, que propõe incluir a tese jurídica no artigo 231. A articulação para aprovação da matéria pode emergir como nova estratégia do grupo a depender da análise de Lula sobre o PL 2903.

Edição:

Notas mais recentes

Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Semana tem presidenciáveis no 7 de setembro e STF na apuração sobre denúncias de ministros


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

|

Antigos adversários superam críticas, ideologias e até acusações de crimes para disputar voto do eleitor em outubro

Espionado por Mendonça em 2020, professor vê “natureza golpista” em atuação de ministro

|

Luiz Eduardo Soares conta como foi monitorado por ordem do atual ministro do STF e critica instrumentalização da Corte
Deputado federal Mário Frias durante sessão na Câmara dos Deputados

Como Mário Frias chegou ao centro da máquina de propaganda da família Bolsonaro

|

Ex-ator foi colocado na política por Jair para juntar cultura e armas em estratégia olavista de guerra ideológica
Foto mostra modelo atual de urna eletrônica usada nas eleições brasileiras

Ministério Público Eleitoral impugna 15 candidatos em SP ligados a crimes, dois ao PCC

|

Órgão contesta 557 registros e utiliza nova regra do TSE para afastar crime organizado da política