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Na véspera dos 60 anos do golpe, Lula congratula almirante da ditadura

29 de março de 2024
10:18
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No próximo domingo (31), completam-se 60 anos do golpe militar, data que o governo federal vai deixar no esquecimento, segundo informações divulgadas na imprensa nas últimas semanas. O próprio Lula declarou em entrevista que o golpe de 1964 é uma história que ele não quer remoer. 

Na terça-feira (27), durante o seu discurso na cerimônia de batismo e lançamento ao mar do submarino Tonelero (S42), em Itaguaí, no Rio de Janeiro, com a presença do presidente francês, Emmanuel Macron, Lula disse ter “carinho” pelas Forças Armadas do Brasil, que são “altamente qualificadas” para garantir a paz. Mas a menção no evento a um militar, em especial, chamou atenção. 

No início de sua fala, o presidente da República cumprimentou o almirante da reserva Alfredo Karam. A 1h15min do vídeo divulgado pelo CanalGov, Lula se refere ao militar da ditadura durante a leitura da nominata das autoridades presentes: “[…] e cumprimentar o ex-ministro Karam. Não é só que ele foi ex-ministro, é que amanhã ele estará completando 100 anos de idade [aplausos]. Eu disse pra ele que ele tá com cara de quem vai viver até 120, que é a idade que eu pedi pra Deus permitir que eu viva […]”.

Alfredo Karam é um dos 377 nomes no relatório da Comissão Nacional da Verdade

Diferentemente do habitual, Karam estava na tribuna de honra, e não entre os demais almirantes de esquadra da reserva, que ficam de frente para o palco, e não em cima dele, junto com os demais convidados.

O galpão principal, onde estavam Lula e os convidados, foi destinado aos trabalhadores do estaleiro, enquanto outros oficiais (tenentes-coronéis, coronéis e afins) ficaram num galpão secundário, onde a solenidade era acompanhada em um telão.

O almirante Karam, pai do falecido ator Guilherme Karam, foi o último comandante da Marinha da ditadura militar de 1964, sendo ministro da Marinha entre 1984 e 1985, no governo de exceção de João Baptista Figueiredo.

Para Orlando Calheiros, antropólogo que coordenou o Grupo de Trabalho Araguaia na Comissão Nacional da Verdade (CNV), “é assustador e vergonhoso ver que figuras apontadas pelo relatório da Comissão Nacional da Verdade como diretamente envolvidas nas cadeias de comando da ditadura militar, figuras que foram apontadas como responsáveis pela manutenção do seu aparelho repressor, ainda frequentem os eventos da alta cúpula do poder nacional”. 

O nome do almirante está presente no primeiro volume do relatório final da CNV, no trecho que põe em ordem cronológica de ocupação dos cargos e que, segundo o documento, “identifica os autores de graves violações de direitos humanos vinculados a esse plano de responsabilidade político-institucional […]”. Ou seja, Karam é o 21º de uma lista que teve responsabilidade político-institucional pelas estruturas da repressão, que torturou, matou e desapareceu com cidadãos brasileiros.

Karam também foi chefe do Estado-Maior do Comando de Operações Navais em 1977, cinco anos depois da Operação Papagaio, que foi uma política deliberada de assassinatos que visava exterminar militantes de esquerda na região do rio Araguaia. Essa ação foi planejada e executada justamente pelo comando que o almirante viria a chefiar anos mais tarde.

Um ano antes, ele recebeu do Exército a Medalha do Pacificador, a mesma que em 2018 foi dada ao suspeito de ser o mentor do assassinato de Marielle Franco, Rivaldo Barbosa. No entanto, na época em que recebeu a honraria, a comenda era destinada apenas a militares que atuavam diretamente no “combate à subversão”.

Para o historiador e sociólogo Lucas Pedretti, editor do site História da Ditadura e autor do livro recém-lançado A transição inacabada, uma coletânea de documentos que retratam a violência de Estado e direitos humanos na redemocratização, a atitude de Lula é “péssima”, mas não sem contexto. “Essa homenagem precisa ser pensada no quadro desse conjunto de iniciativas das quais se destacam a suspensão da realização de atividades oficiais sobre 60 anos do golpe, o bloqueio à reinstalação da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, o esvaziamento da PEC que busca alterar os termos do artigo 142. Tudo isso faz parte dessa estratégia de acomodação do Lula com os militares”, avalia. 

Em 1981, Karam ganhou notoriedade por um fervoroso discurso em que disse: “Sigam vigilantes contra as ações terroristas, vindas de quaisquer direções. Lembrem-se que os inimigos ainda permanecem de tocaia para agirem nos momentos que lhes forem oportunos”.

Sua ascensão para o comando da Marinha em 1984, no final da ditadura militar, vem na esteira da exoneração do comandante da Marinha anterior, Maximiliano da Fonseca, que defendeu a volta à democracia através das “Diretas Já“, movimento político de cunho popular que teve como objetivo a retomada das eleições diretas ao cargo de presidente.

“Acho que ninguém é ingênuo de achar que às vésperas dos 60 anos do golpe o Lula faz essa homenagem a alguém que é indicado no relatório da CNV sem saber o que estava fazendo. Pelo contrário, acho que talvez esse tenha sido um dos sinais mais claros do presidente em relação a qual é a política dele com os militares. É a política de acomodação, de pactuação e de tentativa, uma tentativa de aproximação”, conclui Pedretti. 

A Agência Pública procurou a Secretaria de Comunicação da Presidência para esclarecimentos, mas não houve retorno até a publicação.

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