Buscar
Nota

PT quer ‘suavizar’ PL que equipara aborto a homicídio, mas texto ainda punirá mulheres

13 de junho de 2024
18:07
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Após a Câmara Federal aprovar a urgência para o Projeto de Lei 1.904/2024, que equipara o aborto de fetos com mais de 22 semanas ao crime de homicídio, o PT encabeça uma negociação para que o texto seja “suavizado” antes de ser votado em plenário, segundo apurou a Agência Pública. 

A ideia é que o projeto passe a proibir especificamente os casos de assistolia, uma técnica que interrompe os batimentos cardíacos do feto em gestações avançadas e que é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um procedimento seguro e eficaz. A mudança foi discutida em acordo de líderes do partido antes de a urgência ser aprovada.

A estratégia do PT é contestada por especialistas consultados pela Agência Pública. Para a médica Helena Paro, ginecologista criadora do primeiro serviço de aborto legal por telemedicina do país e professora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), “proibir a assistolia seria proibir, na prática, o aborto acima de 22 semanas”.

“Não existe outro curso terapêutico possível que não envolva a assistolia nestes casos”, explica. “É uma tentativa de minimizar o que estão fazendo, que é um ato de crueldade com meninas e mulheres. A assistolia faz parte do procedimento, então é um eufemismo para tentar dizer que não são tão maus assim”, diz Paro.

“Penso que proibir assistolia fetal é antiético, pois restaria um aborto induzido com possível expulsão de feto iatrogênica [causada por profissional de saúde] prematuridade”, afirma o médico Cristião Rosas, representante no Brasil da Rede Médica pelo Direito de Decidir. Para ele, os políticos precisam ouvir a população. “Precisa combinar com as mulheres se elas querem isso mesmo.”

Segundo fontes do partido ouvidas pela Pública em condição de confidencialidade, o líder do PT na Câmara, Odair Cunha (MG), negocia para que a mudança conste no projeto de lei quando ele for analisado no plenário. Com a aprovação da urgência, o texto não terá que ser debatido em comissões da Câmara e pode ser colocado em pauta a qualquer momento.

Cunha é militante católico e foi autor de projetos de lei que dificultam o aborto legal. Um deles trata do “estatuto do nascituro”, um conjunto de direitos para o feto desde a concepção. O Código Civil brasileiro atualmente prevê que o feto só possui direitos após o nascimento com vida. O deputado já integrou também frentes parlamentares contra o aborto.

Ele encontra resistência para a versão considerada “suavizada” de seus colegas de partido. “A maioria da bancada é contra, mas ninguém tem coragem de assumir. Virou uma guerra santa”, disse um deputado do PT. O PSOL também se recusa a endossar a nova proposta.

O autor do projeto, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), ouviu a proposta do PT, mas reluta em referendar a sugestão. Ele consultou outros deputados que assinam o texto, mas a maioria se mostrou contrária a abrir concessões. A decisão final sobre o que será colocado em votação cabe ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).

Por eleições, governo Lula decidiu não interferir 

Ainda de acordo com as fontes do PT ouvidas pela reportagem, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu não interferir diretamente na votação desta quarta-feira (12), com medo de que adotar uma posição contrária ao projeto de lei prejudicasse candidatos do partido nas eleições deste ano, principalmente entre o eleitorado evangélico. 

A votação foi simbólica, sem registro de voto individual. Somente depois que a urgência já havia sido aprovada, Cunha pediu para registrar a posição contrária do PT.

Antes da sessão, os ministros Silvio Almeida (Direitos Humanos) e Cida Gonçalves (Mulheres) haviam divulgado notas contra o projeto. Ambos consideram que a eventual aprovação da lei seria um retrocesso. 

Como está hoje, o projeto de lei penaliza mais as vítimas de violência do que os estupradores. Ele impõe que a gestante que interromper a gravidez com mais de 22 semanas cumpra pena de até 20 anos, mesmo nos casos previstos na lei. Presos por estupro têm pena máxima de seis anos.

O projeto foi protocolado no mesmo dia em que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes mandou suspender uma resolução do Conselho Federal de Medicina que proibia a assistolia fetal – justamente o que, agora, o PT quer incluir no projeto de lei.

Edição:

Notas mais recentes

Deputadas de Minas pedem suspensão de decreto de Zema que beneficiou mineradora Cedro


Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts

|

Rede tem 58 milhões de visualizações e amplia alcance de posts pró-família Bolsonaro e ataques ao STF
Colagem com as fotos do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias e do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues

Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

|

Documentos indicam que o diretor-geral da PF acionou AGU contra uma ordem do então relator do caso Master
Presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante abertura da assembleia geral da ONU em Nova York em 2025

Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

|

O Cartel de Los Soles foi inventado pelo Departamento de Justiça de Trump, que depois voltou atrás

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras
Inauguração da ‘sala Google’ em Teresina, Piauí

“Usem muito Gemini”: Educação vira porta de entrada das Big Techs no Piauí

|

Com investimento de mais de R$ 90 mi, governo de Rafael Fonteles (PT) acelera dependência do ensino às multinacionais

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder
Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições
Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal