Buscar
Reportagem

Bolsonaristas usam código “Festa da Selma” para coordenar invasão em Brasília

Termo alude a cumprimento militar; chamadas para invasão do Planalto, Congresso e STF correram em redes sociais

Reportagem
8 de janeiro de 2023
19:14
Este artigo tem mais de 3 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Imagem aérea do Palácio do Planalto, Congresso e STF
Reprodução

“Selma”, uma alusão à Selva — expressão usada por militares brasileiros — foi um dos códigos usados por bolsonaristas para combinar as últimas etapas de invasão da Praça dos Três Poderes. Segundo apuração exclusiva da Agência Pública, o código vinha sendo usado há dias pelos bolsonaristas livremente em redes sociais abertas, como o Twitter. A expressão “Festa da Selma” chegou a ser utilizada junto à hashtag #BrazilianSpring — Primavera Brasileira, em inglês. Reportagem da Pública revelou que a expressão foi lançada por Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump, logo após a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022. O termo é uma apropriação dos movimentos em países árabes pró-democracia, e foi compartilhado por Bannon para levantar dúvidas falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro.

A partir de 5 de janeiro, quinta-feira, o termo passou a ser mais utilizado no Twitter, junto a vídeos que traziam uma série de códigos bolsonaristas para combinar os ataques. 

Um dos primeiros a chamar bolsonaristas para “Festa da Selma” foi do perfil @Fernand58617686, que usa apenas o nome Brasil 🇧🇷💚💛💙 e se descreve como “Deus, Pátria, família e liberdade. Conservadora, Direita”.

Reprodução de postagem no Twitter de usuário convocando para a "Festa da Selma", código para a invasão do Congresso, STF e Palácio do Planalto

No vídeo, bolsonaristas já diziam que o sábado — dia anterior à invasão — seria a “pré-festa da Selma”. Na data, outros perfis postavam mapas da Praça dos Três Poderes, onde ocorreria a invasão.

Reprodução de postagem no Twitter de usuário convocando para a "Festa da Selma", código para a invasão do Congresso, STF e Palácio do Planalto
Reprodução de postagem no Twitter de usuário convocando para a "Festa da Selma", código para a invasão do Congresso, STF e Palácio do Planalto

De acordo com apuração da Pública, o perfil de Twitter mais ativo na divulgação da “Festa da Selma” foi o @Vanessasdireita, que fez ao menos 57 publicações e leva o termo em seu nome de usuário. Criado em novembro de 2022, o perfil já fez 14,3 mil tuítes e, de acordo com a ferramenta BotoMeter, apresenta indícios de automatização.

“A festa da Selma hoje vai está bombando. Não param de chegar convidados! Ela pediu para vocês viralizar esse convite! A entrada é liberada para todos os patriotas do Brasil, tirando crianças e idosos. Vai ser o maior Show de todos os tempos, ñ fique de fora🫡 Felicidades Selma🇧🇷”, publicou às 02:49 da madrugada. O conteúdo está fixado em seu perfil e teve mais de 8 mil visualizações, além de 119 retuítes e 434 curtidas. 

Ao contrário de outros atos bolsonaristas, nos quais a replicação de imagens de crianças e idosos nas manifestações era usada como uma forma de demonstrar um suposto caráter popular e pacífico, neste caso a presença dos mesmos foi desestimulada. 

O segundo perfil que mais publicou foi o @SianoAker, que fez 41 tuítes com o termo. Em um de seus posts, feito às 17:43, disse que “a festa da Selma não tem dia para terminar”. “Preparem-se para acampar, cozinhar e usar os banheiros daí. Não arredem o pé!”. O conteúdo chegou a 731 visualizações, 24 retuítes e 62 curtidas.

De acordo com repórter da Pública que está in loco acompanhando os atos, algumas pessoas já estavam indo embora da Esplanada no momento da publicação do tuíte. 

Reprodução do agrupamento de bolsonaristas na rede social Twitter, onde divulgaram a convocação para a invasão do STF, Congresso e Palácio do Planalto
Perfis no Twitter que fizeram várias publicações com o termo “Festa da Selma” criaram suas próprias bolhas e ajudaram a popularizar o ato

A presença de alguns perfis que tuitaram ostensivamente sobre o assunto ajudou a popularizar o termo no Twitter. A reportagem analisou a disseminação de “Festa da Selma” no Twitter nos últimos 7 dias por meio da ferramenta Hoaxy, criada pelo Observatório de Mídias Sociais da Universidade de Indiana.

Um dos perfis chegou a ironizar o atual ministro da Justiça do governo Lula, Flávio Dino, questionando um artigo do ministro que afirmava que grupos extremistas não iriam mandar no Brasil. Na noite anterior ao ataque, o perfil @Marcelo21704561 postou: “Eu conto ou bcs [sic] contam? Ou deixamos a surpresa para amanhã na festa da Selma?”.

Reprodução de postagem no Twitter de usuário convocando para a "Festa da Selma", código para a invasão do Congresso, STF e Palácio do Planalto

Entre os perfis que compartilharam o chamado para a invasão estavam até mesmo perfis verificados no Twitter com o Twitter Blue — a verificação acontece através do pagamento. Isac Ferreira é um deles, que tem mais de 75 mil seguidores e a conta com o selinho azul instituído pelo novo CEO da rede social Elon Musk. 

Na tarde deste domingo, durante a invasão em Brasília, ele postou um chamado para a Selma, convocando bolsonaristas a levarem Bíblias. O chamado de Isac compartilha uma postagem dele próprio de 3 de janeiro, com uma foto das manifestações de 2013 quando os manifestantes foram ao Congresso Nacional.

Reprodução de postagem no Twitter de usuário convocando para a "Festa da Selma", código para a invasão do Congresso, STF e Palácio do Planalto

Além da invasão em Brasília, perfis bolsonaristas também utilizaram o termo “Festa da Selma” para convocar manifestações em frente a refinarias da Petrobras pelo Brasil. Segundo apuração do UOL, na noite de sábado, 7 de janeiro, bolsonaristas se manifestaram em frente à refinaria Henrique Lage, da Petrobras, em São José dos Campos (SP).

Reprodução Twitter
Reprodução Twitter
Reprodução Twitter
Reprodução
Reprodução Twitter
Reprodução Twitter

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 74 Datacenters, IA e o tal do apocalipse

Se a IA pode até não nos matar, os datacenters podem nos fazer pagar mais caro na conta de energia

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas

Na urna com o ex: Rivais históricos se unem por espaço e poder nas eleições 2026

|

Antigos adversários superam críticas, ideologias e até acusações de crimes para disputar voto do eleitor em outubro