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Agência de Jornalismo Investigativo

O traficante mexicano Vicente Zambada Niebla promete revelar diante de uma corte federal em Chicago que operava sob a proteção das autoridades norteamericanas.

15 de junho de 2011

O processo judicial contra Vicente Zambada Niebla, filho de “El Mayo” Zambada, na Corte Federal de Distrito para o Distrito Norte de Illinois, abrirá a caixa de Pandora sobre a história dos últimos seis anos do tráfico de drogas do México para os Estados Unidos.

O julgamento que ocorrerá em Chicago, outrora território do capo Al Capone, promete ser explosivo.

O processo judicial iria se iniciar em 30 de março. Porém, após uma moção apresentada pelos advogados de Vicente Zambada Niebla, o juiz responsável pelo caso, Rubén Castillo propôs a próxima audiência para dia 15, quando será fixada a data para o início do julgamento.  No entanto ainda não se sabe a data será marcada ou se o processo será novamente adiado. De acordo com fontes próximas ao caso, haveria negociações entre o governo dos Estados Unidos e os advogados de Niebla.

Esta reportagem traz à luz parte do polêmico expediente, trabalho que é resultado de uma investigação realizada em conjunto com o jornalista Vicente Serrano, do programa radiofônico “De 10 a 12”, que é transmitido em Chicago.

Em 15 de março, os advogados de Vicente Zambada Niebla, “El Vicentillo”, que se encontra preso em uma prisão federal de Chicago, ingressaram na Corte com uma moção na qual se anuncia que a defesa irá basear-se no argumento jurídico de “autoridade pública”, segundo o qual supostamente há um “impedimento de autoridade” para acusar ou julgar seu cliente por delitos de narcotráfico.

O argumento é demolidor e, de acordo com especialistas consultados, se traduz da seguinte maneira: se hoje forem presos quem traficou mais de dois mil armas amparadas pelo plano “Veloz e Furioso”, nem o governo dos Estados Unidos nem nenhum juiz desse país poderia atribuir-lhes acusação nenhuma e teriam que liberá-los, já que mesmo que tenham violado a lei, o fizeram com permissão das autoridades.

Se confirmar-se o argumento jurídico de “autoridade pública” que a defesa de Zambada Niebla apresentou, significaria que durante os últimos seis anos, nas gestões de Vicente Fox y Felipe Calderón, o Cartel de Sinaloa havia contado com a proteção ou anuência de autoridades do governo dos Estados Unidos para traficar drogas.

Esta é a história:

 

Estratégia de defesa

O juiz Rubén Castillo, da Corte Federal do Distrito para o Distrito Norte de Illinois, de 56 anos de idade, de pai mexicano e mãe portorriquenha, ainda não sabe, mas um de seus casos fará história.

Esse homem, que em 1994 se converteu no primeiro juiz latino de Illinois, fixará no próximo dia 15 de junho a data do início de um dos julgamentos mais importantes de sua carreira, mas também da história do tráfico de drogas.

É o caso 1:09-CR-00383, correspondente a Vicente Zambada Niebla, de 32 anos de idade, filho do legendário narcotraficante Ismael “El Mayo” Zambada, uma das cabeças do Cartel de Sinaloa.

Vicente Zambada Niebla foi detido pelo Exército Mexicano há dois anos, em 17 de março de 2009.

De acordo com a informação oferecida pelo governo federal, a prisão se deu em frente a uma residência da colônia Fuentes del Pedregal, quando o filho de “El Mayo” e sua escolta supostamente portavam armas de uso exclusivo do Exército.

No dia 18 de fevereiro de 2010, “El Vicentillo” foi extraditado pelo governo do México aos Estados Unidos devido ao processo que se abriu contra ele em Chicago após sua detenção. Atualmente, está preso em uma prisão federal nessa cidade.

Vicente Zambada Niebla é acusado pelo governo dos Estados Unidos de conspirar com outras pessoas, entre maio de 2005 e novembro de 2008, para introduzir no território estadunidense grandes quantidades de cocaína e heroína, o que haveria rendido a ele cerca de 500 milhões de dólares.

No processo, ele também é acusado de tentar obter armas com o objetivo de usar a força e a violência para defender sua organização criminosa.

No final de fevereiro do ano passado, quando Vicente Zambada Niebla compareceu ante o juiz Rubén Castillo a través de Edward Panzer, um de seus advogados, ele se declarou “inocente”.

Agora, durante seu processo judicial, os quatro despachos de advogados que integram a defesa, dois de Nova Iorque, um de Arizona e outro da Califórnia, tentarão demonstrar a suposta relação que existe entre o Cartel de Sinaloa e as principais agências de inteligência e antidrogas dos Estados Unidos, como a DEA, o FBI, o serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, em inglês) e o Departamento de Segurança Nacional.

 

O Cartel dos Flores


O caso contra Vicente Zambada começou no dia em que os irmãos gêmeos Pedro e Margarito Flores foram presos, no final de 2009.

Quase idênticos – o bigode era a única coisa que os diferenciava –, aos 28 anos de idade Pedro e Margarito já conformavam uma das organizações de distribuição de droga mais importantes da união americana.

De nacionalidade estadunidense, mas descendentes de pais mexicanos, Pedro e Margarito se dedicaram durante anos a comprar droga dos principais integrantes do Cartel de Sinaloa ou da chamada Federação, no México, para distribuí-la nos Estados Unidos.

Na terra onde o legendário capo da máfia italiana Al Capone ficou sem império, os gêmeos Flores construíram seu próprio reino, e com a mesma impunidade.

Os Flores dominavam a distribuição de drogas em Chicago, Illinois; Detroit, Michigan; Cincinnati, Ohio; Filadelfia, Pensilvania; Washington, D.C.; e Nova Iorque, N.Y. No Canadá, operavam em Vancouver, Colúmbia Britânica.

De acordo com a acusação formal contra eles, cujo processo também se leva a cabo na corte do Distrito Norte de Illionois, os irmãos Flores chegaram a traficar, mensalmente, de 1,5 a 2 toneladas de cocaína e “multiquilogramas” de heroína.

Quando os Flores foram presos, a suposta negociação com as autoridades era para que recebessem uma condenação menor se revelassem os nomes de seus principais cúmplices no tráfico de drogas.

Pedro e Margarito não demoraram a proporcionar uma lista de nomes de seus principais sócios no México, para quem faziam chegar periodicamente toneladas de droga da Colômbia, Panamá e México. Tratavam-se de integrantes do Cartel de Sinaloa e do Cartel dos Beltrán Levya.

Deram os nomes de Joaquin “El Chapo” Guzmán, Arturo Beltrán Levya, Ismael “El Mayo” Zambada, Ignacio “Nacho” Coronel, Héctor Beltrán Levya, Alfredo Guzmán Salazar e Vicente Zambada Niebla. Os dois são filhos de “El Chapo” e “El Mayo”, respectivamente.

De acordo com o processo aberto contra os Flores, os envios de drogas eram feitos em aviões comerciais Boeing 747, aviões privados, submarinos, navios, semisubmergiveis, lanchas rápidas, barcos de pesca, trens, tratores, trailers e automóveis.

Em 20 de agosto de 2009, em uma coletiva de imprensa conjunta, o procurador geral dos Estados Unidos, Eric Holder, e o então procurador geral do México, Eduardo Medina Mora, anunciaram a abertura de 15 processos judiciais contra 43 acusados mexicanos e estadunidenses. Um deles era Vicente Zambada Niebla, o filho de “El Mayo”.

“É o caso de conspiração para a importação de drogas mais importante que houve em Chicago”, assinalou em 20 de agosto Patrick J. Fitzgerald, procurador dos Estados Unidos para o Distrito Norte de Illinois.

Gary G. Olenkiewicz, agente especial da DEA a cargo da Divisão de Chicago, afirmou nesse mesmo anúncio que “desde as ruas de Chicago até o Cartel de Sinaloa, esta investigação cobriu todos os aspectos do tráfico ilegal de drogas”. Certamente, os Flores nunca pensaram que algum de seus sócios seria capturado.

Em dezembro de 2009, Arturo Beltrán Leyva foi assassinado em uma operação liderada pela Secretaria da Marinha em Cuernavaca, Morelos. Graças ao Wikileaks, hoje se sabe que esse operativo foi orquestrado pela agência Antidrogas dos Estados Unidos, a DEA, que obteve informação sobre o paradeiro do líder dos irmãos Beltrán Levya sem que se saiba até o momento onde e como a conseguiu.

 

O documento chave

Em várias ocasiões, o juiz Rubén Castillo adiou a audiência para determinar a data de início do julgamento contra Vicente Zambada Niebla.

Quando isso ocorrer, as partes, tanto a acusação quanto a defesa, deverão preparar sua melhor artilharia para ganhar o caso.

De acordo com o conteúdo da moção apresentada em 15 de março, a defesa conta com informação que gerará um grande escândalo no México e nos Estados Unidos.

O documento enviado à Corte Federal, do qual se obteve cópia nos escritórios da corte citada, revela que Vicente Zambada Niebla havia realizado as atividades das quais é acusado com a anuência do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a DEA, o FBI, o Departamento de Segurança Nacional e o ICE. Veja o documento original, em inglês.

A moção específica que os funcionários que supostamente incorreram nessa ação são o assistente regional da DEA para a América do Sul, o diretor geral da DEA para o México, assim como os agentes da DEA de Monterrey, Hermosillo e Cidade do México.

“(…..) incluindo, mas não limitando, aos chamados Eduardo Martínez, ‘Manny’ LNU, ‘David’ LNU e Esteban Monk e/ou Steven Monk e outros, incluindo agentes do FBI cujos nomes são desconhecidos pelo acusado, mas são conhecidos pelas agências”.

“A autoridade pública para os atos do defendido (Vicente Zambada Niebla) começa desde primeiro de janeiro de 2004 até 19 de março de 2009”, assinala o documento.

Essa última é a data da detenção do filho de “El Mayo” Zambada. Nesse assinalamento, há uma clara insinuação de que, até esse dia, o filho do narcotraficante atuava com a suposta permissão ou beneplácito das autoridades dos Estados Unidos.

Segundo a informação, o dia em que foi preso em Fontes de Pedregal, Vicente Zambada Niebla teria uma reunião com funcionários de alguma ou várias das dependências que hoje são apontadas na moção. E sabe-se que não havia sido o primeiro desses encontros.

Uma vez fixada a data do início do julgamento, o governo dos Estados Unidos poderia oferecer um acordo ao filho de “El Mayo” Zambada para cancelar o julgamento. Ou, se for levado a cabo, poderia fazer comparecer como testemunhas ante a Corte Federal alguns ou todos os funcionários assinalados na moção de defesa.

Se a acusação da defesa se confirmar, isso significa que no transcurso dos últimos seis anos, nos governos de Vicente Fox e Felipe Calderón, o Cartel de Sinaloa não havia contado apenas com a proteção das autoridades do México, mas também dos Estados Unidos.

Por Anabel Hernández, do Reporte Indigo

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