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Reportagem

Traficante mexicano é mantido em isolamento nos EUA

Vicente Zambada Niebla, filho do chefe do cartel de Sinaloa, vai defender diante de tribunal americano que houve proteção norte-americana a narcotraficantes mexicanos.

Reportagem
18 de julho de 2011
10:36
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A defesa de Vicente Zambada Niebla acusou a promotoria de ter “isolado” por mais de um ano o seu cliente no Centro Metropolitano de Detenção de Chicago (MMC, siglas em inglês).

Também ressaltou que ele recebe tratamento desumano.

Com exclusividade, Repórter Índigo revela uma carta enviada no dia 14 de abril passado ao juiz Rubén Castillo, responsável pelo caso. Nela, os advogados do filho do narcotraficante Ismael “El Mayo” Zambada asseguram que seu cliente é o único preso da Unidade de Alojamento Especial (SHU, em inglês).
Segundo a carta, ele não pode falar com seus familiares, com os presos de outras unidades ou com os agentes penitenciários.

Vicente também foi proibido de enviar e receber cartas e tem enfrentado dificuldades em fazer chamadas telefônicas – diferentemente dos outros presos, que, como ele, são considerados de alta periculosidade.

“Em todo seu período de detenção (um ano e quatro meses), ele não viu a luz do sol nem respirou ar fresco”, afirmam seus advogados na carta.

Tratamento “sem precedentes”

Segundo os advogados escreveram ao juiz, a promotoria não dei explicações sobre qual é o propósito de mantê-lo nessas condições “extraordinárias” de reclusão.

“Somos advogados que temos representado homens que foram acusados de ser membros do alto escalão de famílias do crime organizado e traficantes de drogas. Em nossa experiência, o tratamento dado a Vicente não tem precedentes”, assinalam os advogados da missiva.

Fontes próximas ao caso afirmam que, suspostamente, o objetivo é impedir que Zambada Niebla revele as informações que tem sobre a suposta proteção que as autoridades dos Estados Unidos dão ao cartel de Sinaloa.

Em meados de junho, publicamos o conteúdo de um documento apresentado pela defesa do filho de “El Mayo”.
Nele, os advogados afirmam que as atividades do narcotráfico do Cartel de Sinaloa foram apoiadas pelo FBI (Federal Bureau of Investigation), a DEA (drug enforcement Agency) e o ICE (Immigration and Customs Enforcement) do governo americano durante os últimos seis anos, pelo menos.

Este é mais um capítulo do histórico processo cujo desenlace poderá ocorrer durante a campanha presidencial do México.

Na corte

Na chuvosa tarde de 15 de junho passado, na sala 1419 do edifício do Distrito Norte da Corte de Illinois, o juiz Rubén Castillo, vestido de toga negra, presidia a audiência do caso 9cr-383.

De repente ingressa no elegante recinto um sujeito que mais parecia uma sombra do que um homem.

Com as mãos e pés algemados, presos, vestido com o uniforme laranja de prisioneiro sobre seu corpo magérrimo apareceu Vicente Zambada Niebla, filho de um dos capos do Cártel de Sinaloa.

Ele é acusado de traficar drogas do México aos Estados Unidos de maio de 2005 a novembro de 2008, no valor de cerca de 500 milhões de dólares.

Mas nem a sua aparência nem a atitude correspondiam com a imagem do narco júnior apresentada há pouco mais de dois anos pelo Exército Mexicano, após sua captura na Cidade do México.

Com 10 quilos a menos, “Vicentillo” apenas esboçou um sorriso quando um dos guardas tirou suas algemas e ele percebeu a presença de uma prima sua na sala.

A jovem de não mais de 25 anos, de pele branca, olhos cor de mel e cabelo castanho claro, e vestia um casaco preto e sapatos Chanel – no seu dedo reluzia um anel com uma serpente que parecia ser de brilhantes.

“Te amo”, ela murmurou de longe.

Vicente Zambada Niebla se seus advogados ficaram no lado esquerdo da sala. Do lado direito estavam os dois promotores do governo dos Estados Unidos. Ao centro, o juiz Castillo.

Depois de meses de adiamentos, o juiz Castillo fixou como data de início 13 de fevereiro 2012. E dada a complexidade do caso, prevê que ele durará pelo menos quatro meses.

O procedimento da corte parecia rotineiro, mas conforme a audiência foi avançando, a sessão tomou outro rumo.

A defesa de Vicente Zambada acusou a promotoria de dar um tratamento desumano a seu cliente na prisão, o que viola a Consituição dos Estados Unidos.

Para a surpresa de muitos, o juiz Castillo manifestou publicamente sua preocupação à promotoria e assinalou que seria muito delicado que a situação de reclusão particular de Vicente Zambada fosse mal interpretada “para além das nossas fronteiras”.

Assim vive ‘Vicentillo’ na prisão

Na sessão pública, o juiz Castillo referiu-se a uma carta de queixa apresentada pela defesa de Zambada Niebla.

Anabel Hernandez obteve a carta, que detalha com minúcias como vive Zambada Niebla na prisão.

Ele está recluso em uma seção do Centro Metropolitano de Detenção, chamado Unidade de Alojamento Especial, em uma área de quatro celas que o mantém distante do resto dos presos.

Sue cela tem três metros de comprimento por pouco mais de um metro e meio de largura. Nela há um um colchão fino, um travesseiro, uma mesa com um banquinho, um vaso sanitário e uma pia.

Não lhe permitem falar com ninguém, exceto com funcionários da prisão que tenham pelo menos o cargo de tenente. Se ele tenta interagir com os carcereiros, estes não lhe respondem.

Durante todo esse tempo, não teve direito a visita conjugal, tampouco lhe permitiram ver seus familiares. Sua única companhia é um pequeno rádio que escuta com fones de ouvido.

Os demais presos do SHU recebem seus alimentos pontualmente, mas o filho de ‘El Mayo” não; dua comida é entregue entre uma e quatro horas depois dos horários habituais, já fria.

Todos os internos têm permissão de fazer o equivalente a 300 minutos por mês em chamadas telefônicas. Mas Vicente Zambada não. Está limitado a falar uma vez por semana sob supervisão de seu conselheiro ou um oficial. Se não consegue comunicar-se tem que esperar até a semana seguinte.

O único exercício que pode fazer é caminhar em uma cela ainda menor, que usa para dormir.
A defesa afirma que ele não viu o sol e nem respirou ar fresco durante todo o período de um ano e quatro meses em que está preso.

Ao ouvir isso, o juiz Castillo comentou que tal situação era muito peculiar, já que havia presos com a mesma periculosidade que não estavam sujeitos a essas condições.

A defesa de Vicente Zambada Niebla assegura que seu cliente cumpriu com todas as regras da instituição.

Dentro da prisão há uma loja de convivência onde os presos de todas as áreas podem comprar uma lista grande de coisas. Mas isto não se aplica para o filho de um dos chefes do “Cartel de Sinaloa”.

“Coisas simples como refrigerantes ou lápis de cor, por exemplo, estão proibidos para ele”, afirmam na carta enviada ao juiz

No documento, os advogados advertem que o tratamento de castigo “sem precedentes” que se aplica ao seu cliente começou a ter efeitos em sua pessoa.

“Ele parece mais ansioso e depressivo cada vez que o vemos. Solicitamos muitas vezes,sem êxito, que essas condições mudem. Oficiais do MMC se negaram a nos dizer as razões de tais imposições”.

A defesa: crime com “anuência” do governo americano

Desde 15 de março passado, o caso de Vicente Zambada Niebla virou um barril de pólvora por causa da sua estratégia de defesa.

Os advogados apresentaram à Corte uma notificação na qual anunciaram que a defesa se basearia no argumento jurídico de “autoridade pública”.

Eles afirmam que os delitos de que são acusados Vicente Zambada Niebla, seu pai e o próprio Joaquim “El Chapo” Guzmán Loera haviam sido cometidos com a anuência de autoridades federais dos Estados Unidos pelo menos durante os últimos seis anos.

Sem especificar nomes, o documento afirma que os funcionários que supostamente incorreram nessas ações são o assistente regional da DEA para a América do Sul, o diretor geral da DEA para o México, assim como os agentes da DEA baseados em Monterrey, Hermosillo e Cidade do México.

“(….) incluido mas não limitando os chamados Eduardo Martínez, ‘Manny’, LNU, ‘David’, LNU e Esteban Monk e ou Steven Monk e outros, incluindo agentes do FBI cujos nomes são desconhecidos pelo acusado mas são conhecidos pelas agências”, diz a peça da defesa.

“A  autoridade pública para os atos do acusado (Vicente Zambada Niebla) começa desde o dia primeiro de janeiro de 2004 até dia 19 de março de 2009”, assinala o documento.

Até a data, o governo dos Estados Unidos não emitiu nenhuma resposta sobre a acusação.

Nos próximos 15 dias, as autoridades federais deverão informar a Corte se os apontamentos da defesa são falsos ou não, pelo que se espera muito movimento em torno do caso.

Ao final da audiência, em uma breve declaração, o advogado de defesa, Edward Sam Panzer assinalou que esperava que houvesse uma mudança nas condições de reclusão de seu cliente sem necessidade de intervenção da Corte.

Leia mais: Mais veloz e mais furioso – a proteção americana a um cartel mexicano

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