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Vaticano: poucos padres e pouco celibato na América Latina

Chefe da seção brasileira do Vaticano reclamou a diplomata americano sobre falta de padres e pouca disciplina – e chamou o Brasil de “terra de missão”

Pouco antes da visita de Bento XVI ao Brasil, que aconteceu em maio de 2007, a missão americana no Vaticano elaborou um detalhado documento sobre os interesses da Igreja Católica no Brasil.

O documento enviado a Washington em 6 de maio de 2007 e obtido pelo WikiLeaks relata conversas entre o ex-embaixador americano Francis Rooney com diversos membros do vaticano.

Para o monsenhor brasileiro Stefano Migliorelli, na época chefe da seção brasileira da Secretaria de Estado do Vaticano e quem comandava os preparativos para a visita, havia uma percepção geral de que a América Latina não era uma região prioritária para a Igreja Católica. Essa seria, diz o documento, a principal razão para a visita do Papa ao Brasil.

Para ele, o Brasil e a América Latina seriam como “território de missão” – terras que não foram expostas “de maneira consistente” à fé católica. “Temos que ver isso como uma evangelização – começando do zero”, disse Migliorelli.

O monsenhor ainda criticou a quantidade e a qualidade do clero latinoamericano. “A falta de padres em grande parte da América Latina é muito pior do que nos Estados Unidos”, disse. “Migliorelli lamenta também que o nível de educação dos padres é muito baixo e que muitas vezes eles não aderem aos padrões de disciplina clerical (celibato, ofertas de sacramentos etc)”, prossegue o texto.

Teologia da Libertação

Procurado pela reportagem para comentar o assunto, o Padre José Oscar Beozzo, estudioso da história da Igreja Católica na América Latina e Coordenador Geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular, disse que algumas vezes a visão do Vaticano não reflete a realidade.

“Tem gente em Roma que tem uma visão obtusa do que é o catolicismo latino-americano. Se nosso catolicismo não tivesse consistência, eles não brigariam há tantos anos contra nossa teologia da libertação, por exemplo”.

Em um tópico chamado de “A ameaça da teologia da libertação”, o diplomata americano comenta que o papa João Paulo II teria feito grandes esforços para acabar com “esta análise marxista da luta de classes” promovida “por um número significativo de clérigos e católicos leigos que, por vezes, em nome de um compromisso político sancionou a violência em nome do povo”.

Migliorelli comentou que o Vaticano não pretendia tocar no tema durante a visita do papa. “Todo mundo conhece a situação”, ele disse. O documento prossegue: “A chave é simplesmente que o clero seja treinado mais efetivamente para explicar a posição da Igreja para o povo, ele concluiu”.

Segundo o diplomata, João Paulo II combateu com a ajuda de Bento XVI a teologia da libertação mas, nos últimos anos, ela estaria ressurgindo em várias partes da América Latina.

O ex-embaixador Francis Rooney, que assina o documento, é um empresário republicano do ramo de construção e um dos maiores doadores de campanha de George W Bush.

Evangélicos

O documento trata ainda do crescimento da igreja evangélica no país. O diplomata Francis Rooney faz um comparativo entre a primeira viagem de João Paulo II ao Brasil em 1980, quando os católicos representavam 89% da população e o censo de 2000, quando o número de católicos era de 74%. “A cada ano, milhões de católicos latino-americanos deixam suas igrejas para se juntar a congregações evangélicas incentivados pelos pastores destes novos rebanhos”.

Ele diz ainda que, de acordo com uma análise, enquando a Igreja Católica concentra-se em “salvar almas”, muitas igrejas evangélicas fazem o possível apenas para matar a sede latino-americana para o misticismo.

Sem revelar fontes, o documento diz que o Papa João Paulo II descreveu as atividades evangélicas como “sinistras” e que uma das principais tarefas de Bento XVI seria despertar a comunidade católica e encorajar a resistência ao que João Paulo II teria chamado de “caçada por seitas”

A Pública procurou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que não quis comentar o documento.

Os documentos são parte de 2.500 relatórios diplomáticos referentes ao Brasil ainda inéditos, que foram analisados por 15 jornalistas independentes e estão sendo publicados nesta semana pela agência Pública.

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Comentários

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  • Rogério

    Lamentável essa visão preconceituosa e, na minha opinião errada da Santa Inquisição, digo Igreja Católica sobre a América Latina. Isso revela tudo o que nós já sabíamos, que a IC age como os EUA, defendendo seus próprios interesses. A fé, salvação e outros tema metafísicos, que deveriam ser os verdadeiros interesses de uma igreja, pouco importam. Só interesses..Somos vistos ainda como índios que precisam ser catequisados… Não admira estar perdendo fiéis ao longo dos anos. Basta ver as estatísticas. E o preconceito contra os irmãos evangélicos também é triste. Me parece que os fiéis são como clientes que precisam ser conquistados. Nunca um latino será papa, pois o “high clero” do Vaticano nos considera subdesenvolvidos. A propósito, não sou católico, nem evangélico. Apenas um livre pensador.

    • Lelouch

      @Rogério, o seu comentário é confuso , e sem mencionar os demais paises da A.L. , concentrando apenas no Brasil podemos notar que o catolicismo praticado aqui é uma piada.O “High Clero” não fez nada de errado ou contou alguma mentira em suas posições , o catolicismo americano por exemlo é muito mais atuante que o Brasileiro ,até as instituições educacionais católicas daqui são “fraquinhas” em termos doutrinais.Long Life Bento XVI srsrsr.
      Ps. Nem sou Católico sou agnóstico hahahah.

  • Paulo Machado

    Muitos católicos como eu fui deixaram a igreja católica porque tiveram um encontro com Deus e ao ler a bíblia entenderam que passaram a vida sendo enganados vivendo debaixo da condenação e do pecado.
    Mas tenho certeza que a missão do papa e seus embaixadores não é outra senão mentir e enganar como sempre fizeram.
    A bíblia atesta totalmente contra a sua prática religiosa, basta ler a bíblia e ver que tudo o que Deus condenou faz parte de seus cultos.
    Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará. Ninguém deixa de ser católico. É liberto pela Verdade que está na bíblia.

  • Eduardo

    Incrivel como ainda existem pessoas que ainda que acreditam em alguma religião. Todos esses dogmas e rituais pra mim nada mais são do que uma forma de alienação. Com certeza qualquer religião só está a defender seu própio interesse.

  • O que existe e a seguinte equaçao : ignorância+oportunismos = descaso social

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