Apoie!

Seja aliada da Pública

Seja aliada

Agência de Jornalismo Investigativo

Depoimento de M.P, produtora de moda

17 de janeiro de 2012

“Era dia das mães. Isso me marcou porque eu estava longe do meu filho e da minha mãe. Morava na praia, em um lugar cheio de gente saudável e bonita. Um casal de amigos vivia me convidando para ir a festas na casa deles. Neste dia eu resolvi ir. Era uma noite muito quente e me lembro da roupa que estava usando: uma saia florida de transpassar e uma regata rosa.

Na festa tinha um homem muito bonito, dono de uma academia de jiu jitsu que era amigo dos donos da casa. Todas as meninas estavam de olho nele e, não sei porque, ele encanou em mim. No fim da noite, meus amigos perguntaram se ele me acompanharia até a minha casa, porque lá as ruas são muito longas e escuras e o trajeto dava uns 30 minutos andando. Ele se prontificou e eu aceitei a companhia. Na época eu não bebia nada.

Estávamos caminhando quando ele disse: ‘vamos passar na minha casa? Eu preciso pegar um negócio rapidinho’. Eu perguntei se era longe, algo começou a ficar estranho. Todos os cachorros da rua latiam sem parar, senti o clima mudar. Disse que não estava a fim mas ele insistiu, dizendo que era na metade do nosso caminho, que seria rápido.

Quando entramos ele já mudou. Eu disse: ‘vamos?’ e ele ‘como vamos?’ e trancou a porta. Aí eu falei ‘ah não…’ e ele ‘O que você quer? Namorar? Então a gente é namoradinho! Agora vamos para a cama’. Eu disse que não. Ele foi até um canto, pegou umas borrachas de pneu e foi colocando na mesa. Comecei a ficar desesperada. Ele me bateu muito com aquelas borrachas. Muito, muito, muito. Eu tenho marcas até hoje no corpo todo.

Dentro do quarto tinha um espelho quebrado atrás da porta. Ali ele fez o que quis. Em determinado momento eu parei de reagir, porque pensei que o prazer dele era meu desespero, mas não adiantou. Quando acabou, ele levantou e disse: ‘tenho certeza que você gostou’. Ele abriu a porta e eu saí só de camiseta e calcinha. Nossa, que difícil…

Saí andando, era bem tarde. Eu estava na avenida principal da cidade e chorava muito. Meu corpo sangrava por causa das borrachas. Então uma viatura parou. Os policiais pareciam desesperados, é claro que perceberam o que tinha acontecido. Mas eu não quis denunciar, só queria ir para casa. Estava cansada. O policial ainda me cobriu com a camisa dele.

Não sei porque não denunciei. Acho que fiquei com medo de não acreditarem em mim, ou de dar em nada. Acabei contando para a amiga da festa e depois de uns dias ela veio me dizer que contou para o marido mas ele disse que não podia fazer nada porque o cara era o dono da academia. Minha decepção foi tanta… Na hora me lembrei de quando estava voltando da escola, tinha uns onze anos, e um cara me chamou num carro pedindo informação e quando eu cheguei perto ele estava com as coisas de fora. Lembro que voltei para casa correndo desesperada e quando cheguei e contei para a minha mãe ela disse: ‘mas também, olha a roupa que você está usando”.

 

Seja aliada da Pública

Faça parte do nosso novo programa de apoio recorrente e promova jornalismo investigativo de qualidade. Doações a partir de R$ 10,00/mês.

Tags

Comentários de nossos aliados

 Ver comentários

Esta é a área de comentários dos nossos aliados, um espaço de debate para boas discussões sobre as reportagens da Pública. Veja nossa política de comentários.

Carregando…
Você precisa ser um aliado para comentar.
Fechar
Só aliados podem denunciar comentários.
Fechar

Explore também

Meu encontro com um dos homens mais procurados do mundo

16 de março de 2018 | por

A repórter investigativa Anabel Hernández entrevistou o mexicano acusado pela agência antidrogas americana de estar à frente da maior organização de tráfico de drogas no continente

Protegendo nossas fontes

19 de maio de 2014 | por

"Nem a mídia, nem tribunais, nem nosso sistema precário de educação cívica nunca atribuiu às fontes jornalísticas a importância e o respeito que merecem."

Por que a Vale foi eleita a pior empresa do mundo?

25 de novembro de 2012 | por

No mesmo ano em que celebrou seu 70º aniversário, a mineradora também recebeu um indesejado prêmio, proposto por movimentos sociais da Amazônia

Mais recentes

Manifestações podem definir futuro de Bolsonaro no Congresso

24 de maio de 2019 | por

A Pública conversou com parlamentares sobre a crise entre governo e Congresso; ceticismo predomina, mas o resultado das ruas no dia 26 terá peso decisivo no futuro dessas relações

Dois anos do massacre de Pau D’Arco: mandantes ainda impunes e ameaça de despejo

24 de maio de 2019 | por

Em entrevista à Pública, a advogada Andréia Silvério, da CPT de Marabá, conta que os sobreviventes da chacina que vitimou dez trabalhadores ocupantes da fazenda Santa Lúcia em Pau D’Arco (PA) não receberam nenhum apoio do Estado, e que novos conflitos são iminentes

Influenciadores da direita relatam linchamentos virtuais de bolsonaristas

24 de maio de 2019 | por e

Ataques organizados partem de grupos de WhatsApp: “Vamos dar uma oprimida” é a palavra de ordem para as “hienas”

Login para aliados

Participe e seja aliado.

Fechar