Poluentes e caras, usinas termelétricas devem ficar ligadas o ano todo para armazenar energia para a Copa

Poluentes e caras, usinas termelétricas devem ficar ligadas o ano todo para armazenar energia para a Copa

22 de fevereiro de 2013
09:00
Este texto foi publicado há mais de 8 anos.
Especial: Copa Pública

Há poucos dias, o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, declarou ao jornal “Valor” que as usinas termelétricas devem ficar ligadas durante todo o ano de 2013 para evitar problemas de abastecimento de energia durante a Copa do Mundo de 2014. “As térmicas a gás e carvão ficam durante todo o período seco, para atingir o nível-meta em novembro e garantir o abastecimento em 2014, que é um ano especial por causa da Copa”, disse Chipp, acrescentando que não existe previsão nem para o desligamento das usinas térmicas a óleo, que custam ainda mais. “Se as chuvas forem boas, pode-se paralisar as térmicas a óleo a partir de maio, mas as outras ficam”, disse ao jornal. Hoje, cerca de 25 térmicas a óleo e diesel estão em operação no país.

O aumento do uso da energia com fontes térmicas – caras e poluentes – tem crescido no país nos últimos anos. Segundo o Greenpeace, o prejuízo trazido pelas termelétricas vem do uso adicional de combustíveis fósseis – óleo combustível, diesel e gás natural – , das elevadas emissões de gases estufa e do uso intensivo de água.

A assessoria de imprensa da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) diz que o uso intensivo das termelétricas já vem provocando custos crescentes: “Em novembro o custo foi de R$ 600 milhões, em outubro R$ 800 milhões e em dezembro R$ 1,3 bilhão. A previsão é de que em janeiro chegue a R$ 1,5 bilhão” respondeu por e-mail à Pública. A Abradee diz não é possível fazer uma estimativa do custo do funcionamento direto das usinas durante o ano de 2013, mas com certeza vai agravar o cenário atual, que já é crítico: “O acionamento das usinas térmicas a plena carga no ano passado, para economizar água dos reservatórios, abriu um rombo no caixa das distribuidoras de energia. Em dezembro, a conta atingiu um valor recorde de R$ 1,389 bilhão e deixou pelo menos 13 empresas do segmento com fluxo de caixa negativo”.

Os principais impactos ambientais gerados pelas térmicas são as altas emissões de material particulado, óxidos de enxofre e dióxido de carbono no ar, que causam problemas cardiorespiratórios na população e interferência na fauna e flora, além de chuvas ácidas, contaminação de lençois freáticos e contribuem para o aquecimento do planeta.

Mas para a Copa pode.

“Hoje existe muita tecnologia para minimizar e atenuar ou mesmo reduzir bastante os impactos ambientais. A questão é saber se as usinas brasileiras estão recebendo estes aportes financeiros para possibilitar adaptações tecnológicas relevantes” diz o professor Roberto Naime, do Programa de Pós-Graduação em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Procurada pela Pública, a assessoria de imprensa da ONS não quis se pronunciar sobre a declaração de Hermes Chipp. Por telefone, o assessor disse que o diretor “não confirma nem desmente a informação” e que “não tem mais nada a declarar sobre isso”.

É para a Copa? Pode poluir e cobrar mais caro. Só não pode deixar os gringos no escuro.

Pode invadir, pode derrubar, só não pode atrasar

O blog Copa Pública é uma experiência de jornalismo cidadão que mostra como a população brasileira tem sido afetada pelos preparativos para a Copa de 2014 – e como está se organizando para não ficar de fora.

Seja aliada da Pública

Todos precisam conhecer as injustiças que a Pública revela. Ajude nosso jornalismo a pautar o debate público.

Mais recentes

Imagem mostra área alagada e com risco de desabamento, graças às chuvas intensas

2022 e clima: “Não precisamos esperar o futuro, o clima já está mudando”, diz pesquisador

21 de janeiro de 2022 | por

Eventos climáticos extremos serão cada vez mais extremos — e rotina —, diz José Marengo, climatologista classificado pela Reuters como um dos cientistas mais influentes do mundo

Em uma sala de uma unidade de saúde, enfermeiras aplicam teste de coronavírus em pacientes

2022 e a pandemia: Ômicron, vacinas e o futuro da covid-19 no Brasil segundo pesquisadores

20 de janeiro de 2022 | por e

Entrevistamos três cientistas para saber se estamos no início do fim da pandemia ou não, quais as perspectivas para os próximos meses e os riscos que a covid-19 ainda reserva

De modelo internacional à extinção: como morre uma política pública

19 de janeiro de 2022 | por , e

Programa de diversificação do cultivo de tabaco que beneficia agricultores do setor foi alterado no governo Bolsonaro. Detalhe: o programa era referência internacional