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Reportagem

No Brasil, contaminação da água é pior

Para Wilson Jardim, da Unicamp, único jeito de melhorar a qualidade da água é cobrar para que concessionárias usem novas tecnologias de tratamento

Reportagem
18 de março de 2014
11:07
Este artigo tem mais de 12 anos

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Um estudo recente feito em mananciais pelo Instituto Nacional de Ciências e Tecnologias Analíticas Avançadas (INCTAA), da Unicamp, concluiu que a água no Brasil ainda precisa melhorar muito. A cafeína foi usada como indicador da presença de contaminantes, pois sua concentração permite determinar quanto de esgoto foi jogado nos mananciais. Responsável pela pesquisa, concluída em setembro, Wilson Jardim, doutor em Ciências Ambientais pela Universidade de Liverpool, na Inglaterra, e professor do Instituto de Química da Unicamp, acredita que a população tem que pressionar as concessionárias responsáveis pelo tratamento para obter água de melhor qualidade. Na entrevista a seguir, ele explica por que a água engarrafada não é a solução.

Você aconselha a beber água envasada?

Não. Pelo contrário. Os vendedores de água envasada dizem que “a água da torneira é muito ruim”. Na verdade, o produto deles não é recomendável. Fizemos estudos com água envasada e a quantidade de ftalato que uma pessoa absorve ao bebê-la é muito grande. O ftalato é uma classe de substâncias químicas agregadas a uma série de produtos comuns no consumo, como, por exemplo, as embalagens, o filme transparente e as garrafas descartáveis. Como aumentou muito o uso de embalagens, estamos mais expostos ao ftalato, que também tem propriedades de interferentes endócrinos. Ao beber água envasada, talvez você esteja trocando seis por meia dúzia. A pessoa pode se sentir mais segura ao fazer isso, mas esse sentimento não tem base científica. Dependendo do tempo em que foi engarrafada e do tempo de prateleira, essa água libera muito ftalato. Também pode ter Bisfenol A (BPA), dependendo da resina [do recipiente]. Quando você faz um estudo de ciclo de vida, de sustentabilidade, analisando conteúdo energético e produção de CO2, a água da torneira ganha de dez a zero da envasada, que tem que ser produzida e transportada. É uma indústria que goza de uma falsa reputação: são produtos altamente impactantes que têm a fama de serem benéficos. É um mito. Não há grandes vantagens por causa da embalagem, que vai ficar tóxica com o tempo. Quando compro água envasada, só compro em vidro, nunca em plástico. Vários estudos no estado de São Paulo, no Aquífero Guarani, mas também na China ou Espanha comprovam que as águas subterrâneas também têm compostos, em concentração bem menor do que a das águas superficiais.

As pessoas podem melhorar a água em casa com algum tratamento?

É uma pergunta recorrente. Pode-se colocar um filtro, mas isso exige uma manutenção rigorosa e constante, senão pode se tornar algo pior ainda. A melhor coisa que um indivíduo pode fazer é pressionar a concessionária da sua cidade para fornecer uma água melhor. É preciso exercer a cidadania.

Para Wilson Jardim, da Unicamp, exigir a qualidade da água fornecida pela concessionária é um exercício de cidadania (Foto: Antoninho Perri – Ascom – Unicamp)
Para Wilson Jardim, da Unicamp, exigir a qualidade da água fornecida pela concessionária é um exercício de cidadania (Foto: Antoninho Perri – Ascom – Unicamp)

O que são os contaminantes emergentes e interferentes endócrinos?

Os contaminantes emergentes envolvem mais de mil substâncias novas a cada ano, e os interferentes endócrinos fazem parte desses compostos. Entre os contaminantes emergentes estão, por exemplo, nanomateriais, fragrâncias, antibióticos, agrotóxicos, protetores solares, remédios, drogas lícitas e ilícitas, hormônios sintéticos, pílulas anticoncepcionais e produtos de higiene pessoal. É um grupo muito grande de substâncias que, hoje, por uma série de razões – como pouco saneamento e alta densidade habitacional – virou motivo de grande preocupação. Nossa exposição a eles aumentou muito. Sabemos muito pouco sobre a toxicidade desses compostos e sobre o seu mecanismo de ação no corpo humano e nos organismos aquáticos. O sistema endócrino humano controla a reprodução sexual e o crescimento. Hoje temos cerca de 800 compostos que podem perturbar o nosso sistema, embora não tenham sido criados para esse fim. Acabam atuando desse modo por uma questão bioquímica, de similaridade de moléculas. Podem alterar a reprodução humana, antecipar a idade da primeira menstruação das meninas – o que foi observado em vários países – ou provocar doenças como câncer de tireoide, de testículo, de útero e de mama, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Esses contaminantes estão ausentes da portaria do Ministério da Saúde que controla a qualidade da água potável. Isso acontece no mundo todo? Por quê? 

Sim, acontece em todos os países. Aqui, a portaria é extremamente conservadora e existe uma inércia muito grande. Sabemos que as revisões da portaria são processos demorados. Há um lobby fortíssimo [contra isso], porque o processo implica custos adicionais. Mas atualmente todos os países estão repensando essas novas moléculas e, aos poucos, os novos conhecimentos são incorporados.

A presença desses contaminantes é maior no Brasil do que em outros países?

O Brasil tem problemas de primeiro e de terceiro mundo. O brasileiro consome como um país europeu e tem o saneamento de um país africano. Temos coliformes fecais como no Haiti e contaminantes emergentes como nos Estados Unidos. Temos pouco saneamento e nossos mananciais são muitos contaminados comparativamente com outros países. A cafeína é um excelente traçador de outros compostos. Sua concentração aqui é de dez a cem vezes maior do que a encontrada em outros países, e isso se reflete na água de abastecimento. Grande parte desses hormônios é removida com tratamento convencional. Mas, quando há muita quantidade e o tratamento elimina 95% disso, 5% ainda é muito? É muito.

A partir de que nível a água fica contaminada?

A substância que imita o hormônio funciona em uma quantidade muito baixa. Foi feito um experimento no Canadá em que uma pesquisadora colocou 2 nanogramas (bilionésimos de grama) de hormônios sintéticos por litro num lago. Isso devastou uma população de peixes e afetou duas outras espécies. “Pouco” é muito relativo. O que seria um nível seguro? Não sabemos hoje. É importante lembrar que a toxicologia não trabalha com mistura, trabalha com uma substância única. Quando alguém bebe água, não está bebendo um composto, mas mais de mil compostos. Os ensaios para avaliar o risco não são feitos a partir de uma mistura, e a vida real é mistura. A toxicologia está um pouco atrasada nessa questão. Temos que trabalhar com um novo paradigma e adaptar a metodologia.

Tecnicamente falando, os tratamentos de água podem remover essas substâncias?

Poluição escondida

Sim. Além do tratamento convencional, existem hoje sistemas adicionais. Pode ser um tratamento com filtragem fina, com a tecnologia de membrana, ou um tratamento mais destrutivo, à base de raios ultravioleta ou usando o ozônio. Existem jeitos de reduzir ou eliminar esses compostos, só que isso implica um custo adicional para a produtora de água. E nada disso ainda é feito aqui no Brasil.

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