Agência de Jornalismo Investigativo

Em conferência de imprensa, grupos que lutam contra violência policial compartilham as suas histórias

29 de julho de 2016

Representantes do movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos marcaram um encontro com ativistas brasileiros na Casa Pública. O evento fez parte de uma semana intensiva de atividades que promoveram o intercâmbio de ideais, experiências, estratégias e histórias entre os dois grupos.

O evento começou com um café da manhã onde participantes que foram vitimas de violência policial ou que lutam contra estas violações tiveram a oportunidade de comparar as realidades vividas nos Estados Unidos e no Brasil.

A organizadora do evento, Patrícia de Oliveira, disse que a ideia surgiu de uma conversa que ela teve com Liz Martin da Brazil Police Watch. Martin vive em Boston ,nos Estados Unidos, mas seu sobrinho foi morto no Brasil.

“Queríamos fazer algo próximo das Olimpíadas. Existe violência policial no mundo todo, mas geralmente nos Estados Unidos estes casos são investigados mais a fundo. Aqui, a maioria dos casos nem são investigados”, diz.

Fórum Social de Manguinhos participa da Conferência de Imprensa com o Black Lives Matter na Casa Pública
Fórum Social de Manguinhos participa da Conferência de Imprensa com o Black Lives Matter na Casa Pública

Black Lives Matter, Don’t Kill For Me: Safe Games for All e Brazil Police Watch se juntaram a uma série de grupos militantes sediados no Rio de Janeiro. Entre eles estavam as Mães de Maio, rede de Comunidades e Movimentos Conta a Violência, Fórum de Juventudes Rio de Janeiro, Fórum Social de Manguinhos, Coletivo Papo Reto e a Campanha pela Liberdade de Rafael Braga.

O café da manhã informal foi seguido de uma conferência de imprensa sobre a vinda do Black Lives Matter ao Rio de Janeiro. A imprensa nacional e internacional foi convidada e jornalistas da Associated Press, CNN e TV Brasil compareceram ao evento.

O pastor John Selders, originalmente de Saint Louis, no sul nos Estados Unidos, agora trabalha em Connecticut onde fundou o grupo Moral Monday CT. Selders disse que o assassinato de Michael Brown Ferguson em Missouri incentivou muitos ativistas negros a entrarem na luta. Um menino de 18 anos, Michael Brown não estava armado quando o policial branco Darren Wilson disparou o tiro que levou a sua morte. O ocorrido, aconteceu em Agosto de 2014 e instigou uma onda de protestos nos Estados Unidos.

“Aquilo representou um apelo para entrarmos em ação,” Selders disse.

“Organizamos manifestações agora que os jovens chamam de “turn-ups”. Estes “turn-ups” criam um espaço politico para que a transformação possa ocorrer. Gera atenção e conscientização e pressiona as pessoas.”

“Será que não podemos simplesmente parar de fazer isso? Podemos simplesmente parar de matar pessoas negras?”

Vitimas de violência policial contaram as suas histórias. De braços dados, muitos se comoveram a ponto de chorar escutando estes relatos.

UNICEF estima que cerca de 10,500 crianças e adolescentes são mortas todo ano no Brasil, sendo que destas crianças as negras tem quatro vezes mais chance de morrerem que as brancas.

Em São Paulo, por exemplo, é tão grave que uma em cada quatro mortes é causada pela policia.

“Todo dia que sobrevivemos na favela já é em si um ato de resistência”, disse Cosme Felippsen do Morro da Providência no Rio, que é, também, a favela mais antiga do Brasil. Em 2010, o seu irmão morreu dentro de uma viatura policial com apenas 17 anos. A policia alegou que o menino fora resgatado de um conflito que havia ocorrido entre a policia e uma gangue de traficantes e que estavam o levando para o hospital. Cosme, porém, acredita que o irmão foi assassinado dentro do veiculo.

Durante a conferência de imprensa, muitos ativistas deram destaque ao dever que a mídia tem, tanto no Brasil quanto no exterior, em conscientizar as pessoas sobre a importância que a raça tem em ocorrências de violência policial. Ana Paula de Oliveira, cujo o filho Jonatha foi assassinado por policiais a dois anos atrás na favela de Manguinhos, criticou a mídia brasileira por dar mais luz a realidade norte americana que à brasileira.

A imprensa nacional e internacional vem a Casa Pública para participar da conferência de imprensa com o Black Lives Matter
Meios de comunicação participam da conferência de imprensa com o Black Lives Matter na Casa Pública

“Fui para uma reunião na ONO em Genebra porque é preciso ir para outro pais para dar visibilidade ao que está acontecendo aqui”, ela disse. “Parece que as mortes não tem importância aqui. Você tem que ir para outros lugares para poder denunciar o que acontece aqui. É importante para a gente mostrar o que realmente está acontecendo aqui.”

Segundo ela, a imprensa brasileira faz reportagens sobre mortes causadas por policiais nos Estados Unidos destacando que policiais brancos matam vitimas negras, porém, a raça não ganha a mesma importância quando se trata do Brasil.

Ativistas do Black Lives Matter disseram que nos Estados Unidos a percepção que se tem do Brasil é alegre. Se associa o pais às praias, carnaval e às Olimpíadas já que a questão da violência policial recebe pouca cobertura.

O intercâmbio entre os ativistas brasileiros e norte americanos seguiu até domingo (dia 24). Um dos maiores destaques da semana foi uma vigília feita em nome das vitimas do massacre da Candelária, onde policiais mataram oito crianças e adolescentes que dormiam na rua no centro da cidade há 23 anos atrás. Vários outros que conseguiram escapar saíram do local feridos incluindo o irmão de Patrícia de Oliveira.

Os grupos compararam as diferenças e semelhanças que existem entre os dois países incluindo as experiências distintas que tiveram com relação ao racismo.

“O racismo pode parecer diferente, mas os nossos ancestrais são os mesmos. Nossas vidas dependem da solidariedade. Nos não vamos ser exterminados. Nos não vamos morrer. Mas vamos sim declarar que parem de matar a gente”, disse B Gray de Ferguson nos Estados Unidos.

Mais recentes

Frei Betto: “Vejo paralelo entre o momento atual e a eleição de Hitler na Alemanha”

11 de outubro de 2018 | por

Em entrevista à Pública, o frade dominicano e escritor afirma que Bolsonaro é resultado da omissão do judiciário que permitiu a "lei esdrúxula da anistia recíproca" e que o PT "não cuidou de promover a alfabetização política do povo"

Apoiadores de Bolsonaro realizaram pelo menos 50 ataques em todo o país

10 de outubro de 2018 | por , , , , e

Levantamento inédito contabilizou relatos de agressões e ameaças contra pessoas em 18 estados e no DF nos últimos dez dias; 6 apoiadores do candidato do PSL também foram agredidos

Microbolsas: conheça os repórteres selecionados para investigar a volta da fome

10 de outubro de 2018 | por

Mais de 80 repórteres de 15 estados diferentes propuseram pautas sobre a volta da fome à realidade brasileira

Truco!

Desemprego no Brasil cresceu quando Armando era ministro, mas não foi o maior da história

5 de outubro de 2018

Candidato do PTB comandou a pasta da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, entre janeiro de 2015 e maio de 2016, durante o governo de Dilma Rousseff

Doria cita dado impossível de provar sobre empresas fechadas em governo do PT

5 de outubro de 2018

Candidato tucano fez referência às médias e grandes empresas, porém números disponíveis não usam essa classificação

Ops, Aílton: foram R$ 130 milhões para saneamento básico no Ceará

5 de outubro de 2018

Relatório Resumido da Execução Orçamentária (RREO) da Sefaz aponta um gasto de pouco mais de R$ 130 milhões em 2017

Explore também

Ouçam o alerta da Aldeia Maracanã

15 de janeiro de 2013 | por e

Esse prédio é testemunha da história do branco e do índio no Brasil. O governo do Rio quer derrubá-lo para abrir mais um acesso ao Maracanã. Os índios criaram um centro cultural e querem uma universidade indígena aqui

Samarco, Vale e BHP vão decidir quem e como indenizar por desastre

23 de fevereiro de 2016 | por , , e

Obtida pela Pública, minuta do acordo extrajudicial entre mineradoras e governo cria uma Fundação, gerida pelas empresas, com poder de decisão sobre atingidos

Ruralistas derrubam dois presidentes da Funai em menos de um ano

23 de abril de 2018 | por

Postos estratégicos foram ocupados por gestores conhecidos por favorecer teses ruralistas, paralisando processos de demarcação e colocando em risco a segurança de indígenas pela ausência de vigilância, sobretudo na Amazônia