Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Da Redação

No México, a impunidade como política de Estado

A Pública se junta à imprensa mexicana na homenagem ao repórter Javier Valdez, assasinado em maio, e engrossa o coro por justiça: desde 2000, 126 jornalistas foram assassinados no país e mais de 20 estão desaparecidos

Da Redação
15 de junho de 2017
12:02
Este artigo tem mais de 9 anos

Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Enquanto vários jornalistas estavam discutindo como poderiam apoiar os sete colegas que tinham acabado de ser emboscados no México, no estado de Guerrero, por cem homens armados, que apontaram suas armas, ameaçaram queimá-los vivos e confiscaram seus equipamentos e seu veículo, recebemos a notícia de que Javier Valdez tinha sido assassinado.

O choro foi seguido pelo pânico. Javier era um dos mais famosos e internacionalmente premiados jornalistas mexicanos. Ele foi muito querido. Era como nosso irmão mais velho, que ensinou muitos de nós a cobrir o narcotráfico. Foi um generoso e responsável guia para todos os enviados nacionais e internacionais que vieram fazer investigações em Sinaloa, seu estado nativo e também a perigosa terra de El Chapo e seu cartel. Pensamos que ele era intocável, mas nos equivocamos. Sua morte traz uma mensagem de terror para o resto da guilda. Nesse mesmo dia, a vice-diretora de um jornal em Jalisco foi atacada; seu filho morreu.

Javier foi morto em maio. Em março, outros três jornalistas haviam sido assassinados, entre eles Miroslava Breach, correspondente em Chihuahua do jornal La Jornada, o mesmo diário nacional para o qual Javier trabalhava. Quando ficou sabendo da morte de sua companheira de trabalho, Javier postou um tuíte que ficaria famoso na hora de sua própria morte: “Que nos matem todos, se esta é a condenação de morte por reportar este inferno. Não ao silêncio”.

Em Sinaloa, o crime fez com que jornalistas conscientes dos riscos pedissem ajuda para que fossem retirados da região; agora, estão desabrigados. Enquanto nós, jornalistas mexicanos, exigíamos que as autoridades investigassem o crime de Javier, em Michoacán o jornalista Salvador Adame era colocado à força em uma caminhonete, por uma pessoa com o rosto coberto, e desde então encontra-se desaparecido. A notícia ficou invisível. As mobilizações dos jornalistas e os pedidos de justiça só funcionaram para Javier, o jornalista mais conhecido entre todos os assassinados desde 2006, quando o governo declarou a chamada “guerra ao narcotráfico” e desatou a violência.

O jornalista Javier Valdez foi um dos que mais e melhor reportou a história do tráfico em Sinaloa, no México (Foto: Reprodução/Facebook)

Isto ocorre com frequência. Os assassinatos e sequestros de jornalistas no México são tão comuns que se tornaram costume, às vezes nem chegam a ser publicados.

Na semana seguinte soubemos que a orelha de Carlos Barrio, um jornalista de Quintana Roo, fora cortada e enviada como advertência a seu chefe. Quatro dias atrás foi baleada a indígena Marcela de Jesús Natalia quando saía da rádio onde trabalha. Outros casos de ameaças e censuras ocorreram, mas esses foram os mais graves dos últimos três meses.

O pedido dos jornalistas mexicanos, o mesmo há mais de 10 anos, é que o governo faça justiça. Mas, no México, a impunidade é uma política de Estado: 99,8% dos crimes contra jornalistas seguem sem punição. A impunidade é como uma pistola sem seguro, é um convite para que sigam silenciando os jornalistas, algo que está se convertendo praticamente em um esporte nacional.

No México há tantas agressões contra a imprensa que nós jornalistas saltamos de emergência em emergência. Não terminamos de atender uma crise quando temos outra já batendo à porta. Não conseguimos protestar pelo caso mais recentes quando já temos outro em cima.

“Estão no matando”, escreveu um grupo de jornalistas na Cidade do México na base do famoso monumento ao Anjo de Independência. “Estão nos matando” é o novo grito dos jornalistas mexicanos, que não estão exagerando: de acordo com dados oficiais, mais de 126 jornalistas foram assassinados desde o ano 2000, mais de 20 estão desaparecidos e ocorreram 51 atentados contra os meios de comunicação. Isso é um pedido de socorro para a comunidade internacional. Precisamos de ajuda.

*Marcela Turati é jornalista. Participante do programa Nieman Fellow 2017. Co-fundadora da associação “Periodistas de a Pie” e do Quinto Elemento Lab.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

Dez perguntas e respostas sobre o muro de Trump no México

|

O presidente dos Estados Unidos decretou a construção de um muro, mas não é assim tão fácil. Nesta reportagem, o site mexicano Animal Político explica tudo o que você quer saber sobre as implicações da obra, seus custos e possíveis entraves

O senhor das batatas

|

Ao longo dos séculos, os camponeses dos Andes aprenderam a cultivar mais de 3 mil variedades de batatas. Elas são mais gostosas e mais saudáveis e podem nos salvar da fome em climas extremos. Por que então só falamos em batatas fritas?

Notas mais recentes

Mulheres são maioria das vítimas de violência política, mesmo sendo minoria das candidatas


Senado deve avaliar PEC do fim da escala 6×1 no Plenário após primeiro turno das eleições


Aposta online: 12 dos 17 parlamentares da Bancada das Bets seguem mais 4 anos no Congresso


Recordar é votar: 7 dos 13 investigados pela CPI da Covid saem eleitos das urnas


Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011


Leia também

Dez perguntas e respostas sobre o muro de Trump no México


O senhor das batatas


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Assine nossas newsletters
Fique por dentro

Artigos mais recentes

Deputados federais mais votados da direita gastam o dobro com anúncios que os da esquerda

|

Os dez candidatos mais votados da direita gastaram R$ 5,3 milhões com anúncios na Meta; os da esquerda, R$ 2,6 milhões

Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista em 2026. Manifestante segura poster contra o ministro do STF Alexandre de Moraes

STF pode ser enfraquecido por interesses políticos se Flávio for eleito, avaliam juristas

|

Para especialistas, Tribunal abusa de decisões monocráticas, mas usar crise como arma política prejudica democracia

Da sua mão para o crime organizado: o que acontece quando seu celular é roubado?

|

Quase cem celulares são subtraídos por hora no Brasil e então eles podem tomam 4 caminhos, inclusive sites de compras

Gestão Tarcísio exonera professoras com regra da ditadura

|

Três docentes contestam exonerações na justiça e uma delas morreu antes de reaver cargo

Processo da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI

|

Ação pede R$ 1 bilhão por danos coletivos; parte das empresas estava nos documentos da CPI, que “terminou em pizza”

Plataformas mantêm anúncios e recomendações políticas irregulares no dia da votação

|

Monitoramento encontrou golpes que imitavam o TSE e diziam que eleitor poderia votar pela internet

Pela 1ª vez desde redemocratização, Brasil terá 10 militares no Congresso e nos governos

|

Ex-Forças Armadas governarão dois estados e ocuparão oito cadeiras no Congresso, sendo quatro no Senado

Vânia Borges do Amaral e presidente Lula

O tempo das bets e a hora da luta: a perda familiar que não está em jogo no STF

|

Mãe que perdeu filho para bets fala de emoção por MP que proíbe apostas no Brasil na véspera da suspensão de plataformas

Brasília (DF), 04/10/2026 - Pessoas chegam para votação das Eleições 2026 na Unieuro

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

|

O 1º turno puniu apenas parte dos políticos ligados a Vorcaro, poupou outros e deixou Flávio Bolsonaro para o 2º turno

Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.

Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

|

Para especialistas, campanha nas redes, voto útil e governo Lula sem apelo renovado também colaboraram para resultado

Quando o trabalho impede o voto

|

De longas jornadas a quem decide fazer hora extra, trabalhadores estão entre os milhões que ficam sem votar