Agência de Jornalismo Investigativo
8 de Março de 2018

Um ensaio sobre a rede de mulheres da periferia de São Paulo que “derrama sangue” para escancarar a opressão sofrida diariamente

Um balde com tinta vermelha vai deixando o rastro por onde o cortejo passa. O ato inédito nas ruas, becos e vielas do Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo arrasta uma centena de mulheres cis e trans de várias gerações e orientações sexuais.

Ao avançar, o batuque fica mais alto e a cantoria mais forte, potente. Nos postes, muros e portões, mulheres negras e periféricas colam os lambe-lambes com dados e frases de protesto contra o machismo e o patriarcado que as atinge todos os dias.

A batucada do maracatu dá o tom naquele 8 de março de 2015. Nas janelas e portões os curiosos espiam as mulheres que falam ao megafone sobre feminicídio, violência doméstica, abuso sexual e assédio.

Em 2018, o ato chamado “Periferia Segue Sangrando” vai para seu quarto encontro nas ruas na busca de um espaço de fala, acolhimento, escuta e cura.

Carolina Teixeira (Itzá), grafiteira, integrante da Coletiva Fala Guerreira

Periferia Segue Sangrando é uma rede formada por grupos de mulheres que já participavam de outros coletivos feministas. A gente tinha uma sintonia de ideias que hoje se encontra pelo menos duas vezes por ano. A brisa inicial era discutir que quando as mulheres fazem a reintegração de posse do próprio corpo, a gente consegue cuidar do espaço público e das nossas comunidades. Ao mesmo tempo que fazemos as nossas rodas de mulheres, que é um espaço muito íntimo, a gente marca a rua com tinta, como se fôssemos todas nós sangrando ao mesmo tempo.

Danielle Braga, psicóloga no Centro de Defesa e Convivência da Mulher, também integrante dos coletivos Mulheres Vivas, Katu, Psicólogas Periféricas, Fala Guerreira e T’araizes

Descer a quebrada “derramando sangue” escancara a opressão que passamos como mulheres e periféricas. A gente tem um encontro de mulheres que só nos fortalece. A gente faz um dia inteiro de uma imersão de cuidado, de fertilidade com relação ao que é ser mulher e ser mulher periférica. A gente pensa tanto em falar nas nossas dores, nos nossos sofrimentos. Dos nossos atravessamentos no território. Sofrimentos de estar ou não na academia, de ser mãe, de sangrar, de ser quem somos. Ao mesmo tempo a gente se sente fortalecida, por ter um lugar de escuta. O Periferia Segue Sangrando pra gente é uma reafirmação do quanto a gente ainda precisa lutar enquanto mulher, uma marcação do território, nosso sangue está ali, os nossos sofrimentos estão ali.

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