Buscar
Reportagem

Em Mirandópolis (SP), prefeito bolsonarista distribui “kit Covid” contra “vírus chinês”

Seguindo a cartilha de Bolsonaro, mandatário de Mirandópolis incentivou a população a descumprir medidas de distanciamento em meio à pandemia, tornando-se alvo da Promotoria da cidade

Reportagem
13 de outubro de 2020
12:09
Este artigo tem mais de 5 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Arte: Bruno Fonseca e Larissa Fernandes/Agência Pública

“Aqui estamos vencendo o vírus chinês”, diz o tweet fixado no perfil de Everton Sodário (PSL), prefeito da pequena Mirandópolis (SP), a quase 600km da capital. A receita milagrosa de Sodário para derrotar a pandemia de coronavírus? A distribuição de um “kit Covid”, que inclui hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina, vitaminas C e D, além de zinco — todos comprovadamente ineficazes para combater a Covid-19 e todos comprados pela prefeitura com dinheiro público.

Nenhum dos medicamentos que compõem o “coquetel” tem aval da Organização Mundial da Saúde (OMS) ou chancela da comunidade internacional, além de apresentarem possíveis efeitos adversos. Em informe de 17 de julho, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) afirmou ser urgente e necessário que a utilização da hidroxicloroquina “seja abandonada no tratamento de qualquer fase da Covid-19”.

Segundo o boletim divulgado pelo município em 8 de outubro, a cidade acumula 422 casos e oito mortes por coronavírus, metade delas após o início da utilização do “kit Covid”, que, de acordo com o mandatário, produziu “reduções significativas nos números de internações e óbitos”. Os números são diferentes dos disponíveis na plataforma do Ministério da Saúde, que fala em 383 casos e nove óbitos no pequeno município de cerca de 30 mil habitantes.

Taxa de casos confirmados e de mortos por 100 mil habitantes na cidade é aproximadamente metade da média brasileira

Autodeclarado “cristão, direitista, conservador, bolsonarista, capitalista e anticomunista”, Sodário foi alçado ao poder municipal em eleição suplementar realizada em setembro de 2019, após a cassação da chapa que governava a cidade devido à rejeição das contas do vice-prefeito. No ano anterior, Sodário tentara uma vaga como deputado estadual na Assembleia Legislativa de São Paulo. Não teve sucesso, mas conseguiu emprego no gabinete do deputado federal bolsonarista Coronel Tadeu (PSL-SP), de onde saiu para disputar a prefeitura de Mirandópolis. Em 2020, ele tenta a reeleição.

Em uma cidade onde parcela significativa da população se identifica com o bolsonarismo – 68,3% dos habitantes de Mirandópolis votaram em Bolsonaro no primeiro turno de 2018 –, Sodário foi eleito mimetizando pautas e o discurso do “capitão”, com quem jantou duas semanas antes do pleito suplementar, no ano passado. Em suas páginas nas redes sociais, Sodário compartilha fotos com armas e com a bandeira de Israel, exalta o presidente americano Donald Trump, critica João Doria pelos decretos de distanciamento social e posta vídeos em manifestações de apoio ao “mito”, se autointitulando como o “Bolsonaro caipira”.

Na pandemia, não foi diferente: o prefeito de Mirandópolis também vem seguindo à risca a narrativa bolsonarista. Em 25 de julho, anunciou que havia tomado uma dose preventiva de hidroxicloroquina contra o “vírus chinês” – apesar de diversos estudos que seguem as regras estabelecidas pela comunidade científica comprovarem a ineficácia da prática – e afirmou preferir “continuar com a Cloroquina do que tomar a vacina chinesa do DitaDória”. Nos comentários da publicação com doses de xenofobia, as teorias da conspiração contra a China se proliferam: “a vacina chinesa não tomaremos de jeito nenhum, deve estar infectada, como os testes que a China vendeu para a Espanha”, diz um; “essa vacina é um vírus chinês tipo um chip não é uma cura de jeito nenhum”, afirma outro.

“Kit Covid” quase mata moradora

Em sua defesa da hidroxicloroquina, Sodário não ficou somente nas palavras. Em 17 de maio, logo após o então ministro da saúde Nelson Teich pedir demissão por não concordar em recomendar os remédios que não têm eficácia comprovada, o prefeito de Mirandópolis anunciou que o município passaria a adotar os medicamentos contra o “vírus chinês”. No dia 22, dois dias depois do Ministério da Saúde autorizar o uso do medicamento para tratar casos leves e graves de Covid-19, Sodário fez um vídeo anunciando a autorização de compra de hidroxicloroquina pela prefeitura. No mês seguinte, anunciou a criação de kits com os medicamentos. A compra dos remédios ineficazes para combater a Covid-19 recebeu aplausos do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), filho do presidente, via Twitter.

Médico, o vereador de Mirandópolis Carlos Weverton Sanches (Podemos-SP) critica a aposta em remédios que são comprovadamente ineficazes, de acordo com a comunidade científica. “A minha opinião, tanto como médico quanto como político, é de que não funciona, mas infelizmente algumas pessoas fazem política com essa droga. Isso causa nas pessoas uma falsa impressão de segurança, que faz com que elas saiam para a rua, quando elas deveriam procurar se isolar o quanto mais pudessem, lavar as mãos, usarem máscara, que são as medidas que nós sabemos que realmente são eficazes”, pondera o político.

A distribuição do “kit Covid” é feita em postos de saúde do município para todos aqueles que apresentarem sintomas da Covid-19 e aceitarem utilizar os medicamentos, mesmo sem que a infecção pelo coronavírus esteja comprovada por testes. Foi assim que uma moradora de Mirandópolis “quase morreu”, após a utilização do coquetel de medicamentos.

No final de agosto, sofrendo com fortes dores de cabeça, Mara* buscou um hospital da cidade. Lá, sem realizar teste para a doença, foi diagnosticada com Covid-19 e recebeu um “kit Covid”. “Fiquei em isolamento, longe da minha família, longe dos meus vizinhos, longe do meu convívio, não podia nem ir na igreja cultuar”, conta a mulher em uma live publicada em seu perfil no Facebook. “Esperei uns dias e procurei o postinho aqui no meu bairro, porque os remédios que me passaram pareciam que estavam triturando meus órgãos por dentro. Eu comecei a sentir muita dor, muita ânsia de vômito, passei muito mal, inclusive fui socorrida pela ambulância do município. Chegando no hospital na ala do Covid, a médica que me atendeu suspendeu toda a medicação”, relata. A moradora de Mirandópolis preferiu não ser identificada e não quis dar entrevista à reportagem, mas autorizou que suas falas na transmissão ao vivo fossem utilizadas.

Na live, Mara diz que, após interromper a utilização do “kit Covid” no terceiro dia, os sintomas melhoraram. Dias depois, a moradora de Mirandópolis realizou teste de anticorpos para a doença e constatou que nunca havia sido infectada pelo novo coronavírus. “Se eu concluo os 5 dias de tratamento não estaria aqui falando com vocês [na live], porque eu passei muito mal. Não desejo pra ninguém”, diz.

Para o vereador e médico Carlos Weverton, ao levar para o “palco da política” uma questão tão séria quanto um vírus, as pessoas acabam divididas. “Tem pessoas que acreditam que funciona, porque hoje o chefe do maior poder na cidade, que é o prefeito, é a favor da cloroquina. Eu acho que se aproveita muito desse momento crítico – onde as pessoas estão preocupadas, estão mais sensíveis e querem se apegar a alguma coisa que lhes passa mais confiança, lhes passa mais tranquilidade – para se fazer política com isso”, afirma o médico.

“DitaDoria”

Tal como o ocupante do Palácio do Planalto, o bolsonarista que comanda Mirandópolis também apontou suas armas para um inimigo em São Paulo: o governador João Doria. Desde o começo da pandemia, quando o comportamento de Doria começou a destoar da retórica de Bolsonaro, com a defesa de medidas de distanciamento social, Everton Sodário passou a disparar contra o tucano. Em um post, o prefeito posa com máscara estampada com a hashtag #ForaditaDória!!!. Em outro, critica a “tirania” do “desgovernador”, que à época manteve a região onde fica Mirandópolis na fase vermelha, a mais restritiva do Plano São Paulo, que organiza a retomada das atividades no estado.

Sem máscara, Sodário posa na praça recém-reformada da cidade, foco de aglomerações

Em pelo menos três oportunidades, Sodário tentou driblar ou derrubar as medidas estaduais de combate ao novo coronavírus. Em 6 de abril, publicou decreto promovendo a reabertura do comércio da cidade, mesmo que, no estado, a recomendação fosse pela manutenção das medidas de distanciamento. Pressionado, recuou dois dias depois, suspendendo o decreto. No mesmo dia, porém, impetrou mandado de segurança no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) pedindo a suspensão ou a flexibilização do decreto de Doria que prolongava a quarentena no estado até 22 de abril. O pedido foi negado pelo TJ-SP

Na mesma época, a Promotoria de Justiça de Mirandópolis, que faz parte do Ministério Público estadual, emitiu recomendação ao prefeito, solicitando que ele interrompesse publicações nas redes sociais que fossem contrárias ao decreto estadual de quarentena ou que incitassem a população a descumprí-lo. Para os promotores responsáveis pela ação, as postagens de Sodário “ultrapassam o exercício do direito de liberdade de expressão”. Apesar disso, o prefeito de Mirandópolis continuou criticando as medidas de isolamento de Doria e passou a criticar também o Ministério Público..

A despeito da recomendação da Promotoria – e das orientações do governo estadual e da Organização Mundial da Saúde –, o prefeito tentou novamente flexibilizar a quarentena na cidade via decreto, no início de junho. A tentativa foi novamente barrada pela Justiça, que estabeleceu multa de 10 mil reais em caso de descumprimento por Sodário.

A Agência Pública buscou um posicionamento do gabinete do prefeito Everton Sodário, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.

Infografista: ,

*A identidade verdadeira foi protegida a pedido da entrevistada.

Bruno Fonseca/Agência Pública
Reprodução/Twitter
Reprodução/Twitter
Reprodução/Facebook

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Leia também

Era uma vez no país da cloroquina

|

Impulsionadas por Jair Bolsonaro, prefeituras Brasil afora estão distribuindo cloroquina e ivermectina contra a Covid-19, embora os medicamentos sejam comprovadamente ineficazes. Remédios viraram até “cabo eleitoral” na campanha de prefeitos à reeleição

Prefeitura de Natal (RN) oferece ivermectina e cloroquina até no ginásio municipal

|

Prefeito usou distribuição de remédios não comprovados contra pandemia como bandeira política e hoje é cotado para reeleição

Notas mais recentes

Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Leia também

Era uma vez no país da cloroquina


Prefeitura de Natal (RN) oferece ivermectina e cloroquina até no ginásio municipal


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder

Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições

Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras Smart Sampa

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas