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Prefeitura de Natal (RN) oferece ivermectina e cloroquina até no ginásio municipal

Prefeito usou distribuição de remédios não comprovados contra pandemia como bandeira política e hoje é cotado para reeleição

Reportagem
13 de outubro de 2020
12:07
Este artigo tem mais de 6 anos

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Arte: Bruno Fonseca e Larissa Fernandes/Agência Pública

O médico Nicolas* é um dos tantos profissionais de saúde que formam a linha de frente da batalha contra a Covid-19 em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Em setembro, durante um atendimento, ele foi chamado de “petista”. O motivo: se negou a receitar ivermectina a um paciente que desejava usar o medicamento como forma de prevenção ao coronavírus. “Por mais que eu dissesse que não tinha evidência científica, que eram o isolamento e o uso de máscara e de álcool gel que realmente faziam a diferença, a pessoa não queria ouvir, queria o remédio de qualquer jeito”, narra o médico. “Aí ele me disse: ‘você é petista, você é contra o Bolsonaro’. Isso porque eu nem tenho partido político.”

Nicolas – que pediu para não ter seu nome revelado por temer represálias – atribui o episódio à politização em torno do tratamento medicamentoso da Covid-19. Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirme que até o momento a ciência não encontrou um fármaco comprovadamente capaz de prevenir ou eliminar a doença, o presidente Jair Bolsonaro e outros políticos pelo Brasil defendem que drogas como a hidroxicloroquina e, mais recentemente, a ivermectina têm o poder de derrotar o vírus. 

O prefeito de Natal, Álvaro Costa Dias (PSDB-RN), é um deles. Médico e candidato à reeleição, ele tem dito publicamente que a ivermectina “é eficaz para prevenir o coronavírus”. Em 30 de junho, em posts nas redes sociais, anunciou que a prefeitura iniciaria uma “distribuição em massa” do medicamento com “todo o acompanhamento médico necessário”. As declarações motivaram a abertura de uma investigação pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte, que apura se houve propaganda eleitoral antecipada ou irregular nos atos do prefeito.

Em foto postada no Facebook da prefeitura, Álvaro Dias aparece acompanhando a montagem do centro de tratamento precoce da Covid-19 no ginásio Nélio Dias

Numa entrevista à Rede Globo que repercutiu bastante na capital, Dias foi questionado sobre a ausência de confirmação da efetividade da ivermectina contra o coronavírus. Respondeu que “existem estudos in vitro, mas se funciona in vitro, deve funcionar em vivos também”. De fato, uma pesquisa de uma universidade australiana concluiu que a droga poderia eliminar o coronavírus em uma cultura de células in vitro – ou seja, em laboratório –, porém os próprios pesquisadores destacaram que eram necessárias “novas investigações” para testar os benefícios em humanos.

Em entrevista à Agência Pública, o secretário municipal de saúde, George Antunes, contou que no “início” da aplicação do tratamento medicamentoso da Covid-19, a secretaria trabalhou “com estudos observacionais”, mas que um estudo clínico mais consistente sobre a eficácia de ivermectina contra o coronavírus está sendo produzido pelo médico infectologista Fernando Suassuna, presidente do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus, criado pela prefeitura no fim de maio. Suassuna é grande entusiasta da ivermectina – chegou até a defendê-la em uma audiência pública virtual realizada pela Câmara dos Deputados em julho.

Antunes disse ainda que a pesquisa de Suassuna está “em fase bem adiantada”, mas não deu outras informações sobre seu andamento. O médico não respondeu aos pedidos de entrevista feitos pela Pública.

Utilizada em animais e seres humanos para combater verminoses e parasitas como piolhos, pulgas e carrapatos, a ivermectina tem sido empregada na rede de saúde de Natal desde o início de junho para tratar pacientes com o coronavírus. Embora seja considerada um medicamento seguro, pode causar efeitos colaterais que incluem diarreia e náusea, anorexia, tontura, vertigem e tremor, segundo a Anvisa.

O protocolo da Secretaria Municipal de Saúde de Natal prevê também o uso preventivo do remédio por profissionais de áreas como saúde e segurança pública, e por pessoas com fatores de risco para desenvolver estágio grave da Covid-19. 

O médico Nicolas chegou a tomar a ivermectina, associada ao antibiótico azitromicina, no início do que seria um quadro leve da Covid-19, em maio. Mas ele diz que a combinação “não funcionou”: nos dias seguintes, seguiu desenvolvendo sintomas típicos da doença, como diarreia, perda de olfato e dores musculares. 

Até 8 de outubro, de acordo com o Ministério da Saúde, Natal tinha 24,7 mil casos confirmados e 995 óbitos por Covid-19. É a 14º capital brasileira com maior índice de mortalidade, com 112 mortes por 100 mil habitantes.

Até 8 de outubro, dados do Ministério da Saúde indicavam que Natal apresentava 112 mortes e 2.797 casos de Covid-19 a cada 100 mil habitantes, proporções superiores às do Rio Grande do Norte e às do Brasil

Centros criados pela prefeitura oferecem ivermectina

Desde 7 de julho, a ivermectina passou a ser oferecida à população natalense em “centros de enfrentamento à Covid-19” criados pela prefeitura. O primeiro deles foi aberto na zona norte na cidade, em um ginásio municipal. 

A quadra foi dividida em setores de triagem, coleta de material para a realização de exames RT-PCR, local de espera com cadeiras distantes umas das outras e mini consultórios onde, após a análise dos sintomas e eventual testagem, os médicos podem prescrever aos pacientes medicamentos que constam em uma lista definida pela Secretaria Municipal de Saúde. Além da ivermectina, estão disponíveis outros 11 remédios, entre eles a cloroquina, a azitromicina e o oseltamivir (indicado para tratamento da gripe).

No centro do ginásio Nélio Dias, médicos podem receitar ivermectina, cloroquina, azitromicina, entre outros remédios, para pacientes com sintomas de Covid-19

Outros dois centros foram inaugurados em seguida, nas regiões oeste e leste da cidade, que tem 884 mil habitantes. De acordo com o secretário de saúde George Antunes, nesses locais, pacientes assintomáticos que tiveram contato com pessoas com Covid-19 (os chamados contactantes) podem receber ivermectina como profilaxia, ou seja, como prevenção à doença.

A corrida pela ivermectina

Antes da adoção pela rede municipal, a ivermectina já estava na boca do povo em Natal. Desde que seu uso passou a ser propagandeado, muita gente correu às farmácias para adquirir o medicamento. 

Por causa da tamanha demanda, o remédio começou a faltar. Nos primeiros dias de junho, o jornal local A Tribuna do Norte constatou que, em uma das maiores farmácias de manipulação da cidade, o estoque que antes durava quatro meses estava sendo consumido em apenas dois dias. Isso teve impacto nos preços: na segunda semana daquele mês, um levantamento do jornal mostrou que o valor de uma caixa de ivermectina variava de R$20 a R$40 nas maiores farmácias da capital e região metropolitana. 

A procura foi tanta que apareceu até caso de venda clandestina. Também no começo de junho, a polícia prendeu dois homens que estavam comercializando caixas de ivermectina por até R$100 perto de um shopping da cidade. Eles haviam feito o anúncio da mercadoria na redes sociais, o que motivou uma denúncia anônima. Segundo a polícia, as 50 caixas em posse da dupla haviam sido compradas em João Pessoa, capital da Paraíba, estado vizinho.

“Político experiente”  

O cientista político Daniel Menezes, professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), avalia que o Álvaro Dias, enquanto “político experiente que é” – antes de prefeito, foi deputado estadual e federal –, captou a busca de parte da população por um medicamento que trouxesse alguma esperança contra a Covid-19 e apostou na ivermectina. “A minha hipótese é a de que ele, de posse de pesquisas qualitativas, conseguiu mapear muito bem o sentimento da população”, aponta. ”Pensou ‘o pessoal quer remédio? Então remédio eu vou dar. O pessoal quer exame? Então vou dar exame.’”. 

Em entrevista à Pública, o secretário de saúde George Antunes admitiu que “a população estava ávida por uma resposta no âmbito tanto da profilaxia como do tratamento [da Covid-19].”

“Antes mesmo de nós falarmos em ivermectina, quando o Brasil começou a falar, o povo já correu nas farmácias”, afirmou Antunes. Ainda assim, ele negou que o protocolo da prefeitura tenha sido “uma questão de demanda popular”. “O Comitê [Científico de Combate ao Coronavírus, criado pela prefeitura no fim de maio] já tinha elaborado essa relação de medicamentos e a justificativa, e eu, como secretário, ainda estava buscando evidências robustas para que tivesse convicção ao aprovar. Esse foi o tempo entre a automedicação da população e a implantação do nosso protocolo”, declarou. George Antunes afirma que o protocolo foi aprovado pelo Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern) e que, para sua elaboração, foi feita a “revisão científica de todo o quadro da patologia, da sintomatologia e quais os medicamentos utilizados”.

Porém, o protocolo é criticado pela presidente do Conselho Municipal de Saúde de Natal e professora da UFRN, Maria Dalva Horácio da Costa. Ela diz que o órgão não foi chamado a opinar antes de ser lançada a política de tratamento precoce da Covid-19.  

Costa conta que a prefeitura de Álvaro Dias iniciou o enfrentamento à pandemia focada em medidas recomendadas pela OMS, como garantir o isolamento social da população e construir um hospital de campanha (inaugurado no fim de maio) para atender os pacientes com Covid-19. Nesse sentido, estava em consonância com a governadora Fátima Bezerra, do PT.

“Depois da implementação do comitê científico – muito alinhado à concepção do governo norte-americano e do próprio presidente da República, na linha dos medicamentos, de que não era preciso radicalizar tanto –, a Secretaria Municipal de Saúde passou a ter uma postura também nessa linha da flexibilização”, afirma Costa. Foi a partir desse momento, de acordo com ela, que o discurso a favor do tratamento medicamentoso ganhou força no executivo municipal.

Menezes analisa que a mudança de rumos do prefeito durante a crise do coronavírus tem base em um cálculo político. “Ele foi sentindo o faro do bolsonarismo e realinhando a estratégia”, argumenta. “Pensou que, se conseguisse se antecipar contra o isolamento social e atendesse à forma de enfrentar a pandemia que o Bolsonaro estava preconizando, conseguiria capturar o eleitorado bolsonarista.”

Foi uma guinada na carreira do político, de linha tradicional, ligado às lideranças mais poderosas do estado, como a família Alves – Dias era vice de Carlos Eduardo Alves (PDT), de quem acabou herdando o cargo quando este deixou a prefeitura de Natal para concorrer ao governo do estado em 2018. A mais recente pesquisa Ibope sobre a capital, divulgada no último dia 6, mostra Dias com 33% das intenções de voto, muito a frente do segundo colocado, o deputado estadual Kelps (Solidariedade-RN), com 12%. 

Infectologistas da UFRN questionam uso de ivermectina e cloroquina

O alarde em torno da ivermectina e outros medicamentos como tratamento e até prevenção à Covid-19 tem despertado a preocupação de importantes nomes da medicina no Rio Grande do Norte. Em julho, o Departamento de Infectologia da UFRN divulgou uma carta pública após análise da literatura médica sobre o assunto. Uma das conclusões a que chegaram os professores e pesquisadores é de que não havia dados que justificassem “o uso de qualquer fármaco para evitar a infecção pelo SARS-CoV-2 ou, ainda, que possa impactar na gravidade da doença antes que ela se estabeleça, como por exemplo a ivermectina”. 

Referência nacional nas pesquisas sobre a epidemia de zika vírus que atingiu o Nordeste entre 2015 e 2016, o médico infectologista Kleber Luz, chefe do departamento, considera que deveria ter havido maior discussão técnica em relação ao uso de ivermectina e cloroquina contra a Covid-19. “As prefeituras, de um modo geral, poderiam ter ouvido mais as pessoas que se posicionavam contra para poder fazer um juízo de valor”, argumenta. 

Luz garante que a prefeitura de Natal em nenhum momento consultou seu departamento sobre o assunto. 

“Essa é uma medida sem sustentação científica”, destacou, em entrevista à Pública. “Falo isso como professor. Se a pessoa está usando com outros objetivos, não posso afirmar porque não sei deles. Se o objetivo for uma medida médica baseada na ciência, a resposta é que não tem.”

Infografista: ,

*A identidade verdadeira foi protegida a pedido do entrevistado.

Colaborou Raphaela Ribeiro

Prefeitura de Natal
Prefeitura de Natal

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