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Agência de Jornalismo Investigativo

Campanha que associa genocídio a Sleeping Giants envolveu perfis com alta probabilidade de automação e sites acusados de desinformação, aponta levantamento

1 de abril de 2021
18:12
Texto: | Infográficos:
Especial: Coronavírus
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No dia 24 de março, quando o Brasil atingiu a triste marca de 300 mil mortes por Covid-19, uma hashtag no Twitter associou o movimento Sleeping Giants a um termo que vinha sendo utilizado para criticar as ações do presidente Jair Bolsonaro na pandemia: a palavra genocida.

Apenas entre 12h50 e 19h40, a hashtag #SleepingGiantsGenocida foi usada mais de 39 mil vezes por mais de 11 mil perfis no Twitter, segundo dados do projeto PegaBot, do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), compartilhados com a Agência Pública.

A análise mostra que a ação envolveu pelo menos 893 perfis com alta probabilidade de automação. Apesar de serem cerca de 8% do total de perfis que usaram a hashtag, eles foram responsáveis por 18,7% das postagens publicadas sobre o assunto — mais de 7,4 mil tuítes. Alguns usuários chegaram a compartilhar a hashtag mais de 200 vezes. 

A reportagem identificou que, na campanha contrária ao Sleeping Giants, destacou-se o perfil Awake Giants, antagônico ao movimento. A hashtag foi criada a partir de uma publicação do site Terça Livre, sendo endossada também pelo portal Brasil Sem Medo – ligado a Olavo de Carvalho — e por jornalistas da rádio Jovem Pan.

Awake Giants vs Sleeping Giants

O Sleeping Giants se descreve como um movimento internacional de consumidores contra o financiamento de portais de desinformação e discurso de ódio. Nas redes sociais, especialmente o Twitter, eles denunciam empresas e instituições que anunciam em canais que eles consideram disseminadores de desinformação ou discurso de ódio, com o objetivo de tentar desmonetizar esses canais. 

O movimento chegou ao Brasil em maio de 2020 e já promoveu a retirada de  anunciantes de sites como Jornal da Cidade Online, Brasil Sem Medo, Conexão Política e Terça Livre. Os organizadores estimam ter promovido a retirada de  R$ 5,4 milhões do financiamento de sites acusados de propagar discurso de ódio e fake news.

No dia 23 de março deste ano, o Sleeping Giants pediu, em uma postagem no Twitter, que seus seguidores denunciassem empresas, hospitais e médicos que estivessem vendendo ou recomendando remédios sem eficácia comprovada  — como cloroquina e ivermectina, não recomendados pela Organização Mundial da Saúde no tratamento da covid-19 (link)  —  no tratamento do coronavírus. O tuíte recebeu mais de 600 comentários e “tomou uma proporção muito maior do que esperado”, conforme avalia um dos fundadores, Leonardo Leal.

Postagem atingiu mais de 600 comentários

A publicação foi o estopim para, no dia seguinte, o perfil Awake Giants iniciar uma campanha contra o movimento e a favor do tratamento sem eficácia.

O Awake Giants é um perfil anônimo criado em novembro de 2020 para antagonizar o movimento Sleeping Giants. Eles se descrevem como uma “União de CONSUMIDORES na luta contra a CENSURA”, segundo a biografia no Twitter. O perfil promove campanhas de boicote e contrárias a empresas que, devido às campanhas do Sleeping Giants, deixaram de anunciar em sites de desinformação. Recentemente, criaram um aplicativo que também está no anonimato: o domínio foi registrado no estado de Goiás em uma organização de nome “ADVOCACIA”. O único meio de contato é o Twitter do Awake Giants.

“Pessoal, é GUERRA”, dizia post do perfil, que pedia que seus seguidores subissem a tag #SleepingGiantsGenocida. “Além da tag, coloquem alguma outra frase ou palavra, caso contrário, não é computada. Apenas a tag não sobe!”, orientava o tuíte, que recebeu mais de 3 mil retuítes. 

Menos de duas horas depois, a tag já estava no primeiro lugar dos assuntos mais comentados do Brasil no Twitter.

“Perfis automatizados são criados para criar um movimento coordenado nas redes sociais — e em especial no Twitter — com a intenção de imitar um engajamento orgânico e assim fazer parecer que determinado termo ou hashtag está na boca do povo”, afirma a pesquisadora Thayane Guimarães, do ITS. “A ação deles [perfis automatizados], na sua grande maioria, é de compartilhamento de mensagens de influenciadores”, explica.

Entre as postagens estavam ataques e ofensas ao movimento Sleeping Giants e aos seus organizadores. “Vamos lá deixar nossas BOAS VINDAS aos genocidas”, tuitou o Awake Giants. Em outra postagem, o perfil escreveu: “A hora de vocês chegou, filhos de satã”.

Segundo Leonardo Leal, alguns perfis expuseram seus dados pessoais, como seu endereço e de sua família  — esse ataque é chamado doxxing. Ele atribui a força dos ataques à repercussão do tuíte feito no dia anterior pelo Sleeping Giants. “Talvez alguém ficou descontente em ser marcado em peso no post”, supõe.

A grande maioria dos tuítes chamava os organizadores do movimento de “bandidos”, “criminosos”, “milicianos” e principalmente “genocidas”. O termo “genocida” tem sido usado por figuras da oposição, como o youtuber Felipe Neto, para criticar as ações do presidente Jair Bolsonaro pelas mortes na pandemia. Há pelo menos sete pedidos de impeachment contra o presidente que o acusam de genocídio por ações durante a pandemia, como da Coalizão Negra por Direitos, protocolado ainda em agosto de 2020. “No contexto da pandemia, a atuação do presidente da República gerou provas explícitas de práticas genocidas”, diz um dos autores. 

Na avaliação dos responsáveis pelo Sleeping Giants, essa “tática de usar palavras muito ofensivas” faz parte do modus operandi de perfis que consideram disseminadores de desinformação nas redes sociais. “Eles sempre tentam buscar guerras narrativas. As redes sociais hoje em dia viraram um campo de guerra onde as pessoas ficam a todo momento brigando por qualquer simbolismo, e acho que o simbolismo nesse momento é a palavra ‘genocida’, que eles tentam colar em qualquer pessoa”, diz Leal. 

Além dos ataques, o Awake Giants incentivou seus seguidores a apoiar o “tratamento precoce da covid-19”. Em uma postagem, o perfil afirmou ser fake news que o uso descontrolado desses medicamentos possa levar a graves efeitos colaterais, como hepatite medicamentosa. Reportagem mostrou que pessoas que utilizaram esses medicamentos estão na fila para transplante de fígado e houve mortes. O Awake Giants também compartilhou tuíte afirmando que o tratamento precoce salva. 

Postagens defendiam uso de medicamentos sem eficácia comprovada

A reportagem questionou o Awake Giants sobre a campanha #SleepingGiantsGenocida. As respostas do perfil estão destacadas ao final do texto.

Terça Livre, Brasil Sem Medo e Jovem Pan

Apesar de o Awake Giants ter participado ativamente da campanha contra o Sleeping Giants, o primeiro registro da hashtag não veio do perfil, mas de uma resposta da usuária “Catarin48316069” ao texto “Sleeping Giants mobiliza perseguição aos planos de saúde que oferecem tratamento precoce”, publicado pelo site Terça Livre. 

Primeira postagem com a tag #SleepingGiantsGenocida

A publicação, assinada pela colunista Bruna de Pieri, chamava os organizadores do Sleeping Giants de “milícia pró-censura” e “adeptos da extrema-imprensa” e defendia o uso da ivermectina no tratamento da Covid-19. 

O próprio perfil Awake Giants retuitou a postagem do Terça Livre, antes de começar a usar a tag, mas já chamando o Sleeping Giants de genocida e defendendo o “tratamento precoce”.

Publicação do Terça Livre foi retuitada também pelo perfil Awake Giants

O Terça Livre também publicou em seu site quando a #SleepingGiantsGenocida chegou aos Trending Topics do Twitter, replicando alguns dos tuítes mais populares.

O fundador e apresentador do canal Terça Livre, Italo Lorenzon, também se engajou na tag. Seu tuíte com a #SleepingGiantsGenocida foi um dos dez mais populares com a tag, recebendo mais de 500 retuítes em uma hora. 

Fundador do Terça Livre sugeriu que Sleeping Giants estaria passando por cima da autoridade de médicos e usou a tag contra o movimento

Em resposta à Pública o portal afirmou que “é mentira a afirmação de que a postagem do Terça Livre foi o estopim do uso da #SleepingGiantsGenocida” e que “não se envolve com campanhas de hashtags”. Também afirmaram que “não tem nenhum posicionamento em questões de medicamentos” e que “o presidente do Conselho Federal de Medicina recentemente disse ser mentirosa a afirmação de que o tratamento precoce não tem efeito na fase inicial”.

Ainda disseram não ter nenhuma relação com o perfil Awake Giants, mas se manifestaram contrários ao movimento Sleeping Giants: “O Terça Livre não apoia de forma alguma o ativismo pró-censura praticado pelo Sleeping Giants”.

O Terça Livre é um dos portais denunciados pelo Sleeping Giants por desinformação . O movimento constantemente denuncia informações publicadas pelo canal de YouTube do portal e pede à plataforma a remoção de conteúdo, além de cobrar dos anunciantes do site o bloqueio do financiamento. 

Um dos fundadores do portal, Allan dos Santos, é investigado em dois inquéritos do Supremo Tribunal Federal (STF) — um que apura a organização de atos antidemocráticos e outro sobre a disseminação de notícias falsas e ataques virtuais. O canal de YouTube do Terça Livre foi derrubado pela plataforma no início do ano por publicar informações que o YouTube classificou como falsas e de incitação à violência no contexto das eleições norte-americanas. Depois de recorrer judicialmente, o canal voltou à ativa.

Outro portal que o Sleeping Giants denuncia e que participou ativamente da campanha #SleepingGiantsGenocida é o Brasil Sem Medo, associado a Olavo de Carvalho. Duas publicações do perfil com a tag ficaram entre as mais retuitadas. Uma delas tratava-se de um retuíte de um perfil que foi banido por violação das regras do Twitter.

O site publica frequentemente conteúdos favoráveis ao tratamento precoce ineficaz para a covid-19 e contra o isolamento social e a vacinação.

A rádio Jovem Pan também teve destaque na campanha contra o movimento Sleeping Giants. “Sleeping Giants resolve atacar médicos”, dizia a manchete do programa Os Pingos nos Is, no qual comentaristas falaram sobre a hashtag contra o movimento e defenderam a liberdade de médicos para a recomendação do tratamento sem comprovação científica. Em seu comentário, Guilherme Fiuza chamou o Sleeping Giants de “milícia fajuta”.

O jornalista da Jovem Pan Rodrigo Constantino usou suas redes sociais para criticar o movimento, que ele chamou de “vagabundos”. No dia 25 de março, ele entrevistou para a rádio o presidente do Conselho Federal de Medicina, Mauro Ribeiro, sobre a iniciativa do Sleeping Giants de pedir denúncias contra médicos e empresas que promovessem o tratamento precoce. O médico defendeu que não há estudos suficientes que provem a ineficácia do tratamento precoce e criticou a atuação do movimento. 

Jornalista da Jovem Pan engajou na campanha de ataques contra o Sleeping Giants

Os vídeos dos dois programas da Jovem Pan foram tuitados pelo perfil Awake Giants no contexto da campanha #SleepingGiantsGenocida.

Programa Os Pingos Nos Is falou sobre a hashtag que atacou o Sleeping Giants

Além desses portais, outros perfis foram influentes para o crescimento da tag. Entre eles está Jouberth Souza, @jouberth19, que costuma se engajar em hashtags relacionadas à direita no Twitter, conforme a Pública já mostrou. O influenciador teve dois tuítes com a #SleepingGiantsGenocida entre os mais retuitados. 

A Pública procurou as páginas e os perfis citados na reportagem, bem como o jornalista Rodrigo Constantino por email e a assessoria do programa Os Pingos nos Is, mas apenas a Awake Giants e o Terça Livre responderam.

A reportagem entrou em contato com o Twitter a respeito dos ataques recebidos pelo Sleeping Giants, além das postagens com informações falsas sobre “tratamento precoce para covid-19” e uso de perfis inautênticos na hashtag #SleepingGiantsGenocida. Fornecemos à plataforma alguns exemplos de perfis com alta probabilidade de automação, identificados pelo PegaBot, além das postagens com ataques e informações falsas sobre o coronavírus que foram usadas na reportagem.

A plataforma respondeu que não poderia “dar um retorno fundamentado” sem acesso “à lista completa de contas identificadas como robôs; a todos os links dos supostos Tweets com informações privadas que não foram removidos pela plataforma” e enviou alguns links das suas políticas sobre desinformação em torno de Covid-19, informações privadas e contas automatizadas

O primeiro diz que a plataforma se compromete a “remover conteúdo comprovadamente falso ou potencialmente enganoso” sobre temas relacionados à pandemia. O segundo diz que “é proibido publicar ou postar [no Twitter] informações privadas de outras pessoas sem a autorização e a permissão expressas delas”. E o terceiro afirma que a plataforma proíbe o “uso malicioso da automação para distorcer e atrapalhar a conversa pública, como tentar fazer um termo chegar aos Assuntos do Momento”.

Respostas Awake Giants

Um dia antes da publicação da reportagem, a Pública entrou em contato com o perfil Awake Giants sobre a #SleepingGiantsGenocida. Pedimos um posicionamento da página sobre o envolvimento de perfis com alta probabilidade de automação na tag, sobre postagens que defendiam o tratamento precoce sem comprovação científica e sobre os ataques recebidos pelo Sleeping Giants. 

O perfil então acusou a Pública de ser “ideológica” e insinuou que processaria a reportagem. “Tome cuidado com o que irá escrever pois nosso departamento jurídico está atento a matérias tendenciosas e mentirosas que possam sair a nosso respeito”, disseram.

A reportagem também perguntou sobre o intuito da campanha #SleepingGiantsGenocida. “O perfil Awake Giants Brasil tem personalidade de combate a esses meliantes criminosos e genocidas do Sleeping Giants”, responderam.

Sobre a escolha do termo genocida, o perfil defendeu que “quem diz que não existe tratamento precoce é um GENOCIDA em potencial”. “Se pode chamar o Bolsonaro de GENOCIDA… Qual o problema em chamar o Sleeping Giants de GENOCIDA?”, questionaram.

Também publicaram em suas redes um pedido para que seus seguidores os ajudassem a responder os questionamentos da reportagem. “Pedimos aos ‘robôs’ para responderem vocês…”. Comentários na publicação direcionavam xingamentos à Pública.

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Colaborou: Laura Scofield

Atualização (05/04/2021 às 11h05): O nome do entrevistado Leonardo Leal estava errado. O nome foi corrigido.

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