Buscar
Reportagem

TRE desaprova prestação de contas de Rosângela Moro, eleita deputada federal

"Inconsistências graves" representam mais de 30% dos gastos de campanha, diz parecer da área técnica

Reportagem
9 de dezembro de 2022
08:21
Este artigo tem mais de 3 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Flyer de campanha de Rosângela Moro. Rosângela é uma mulher branca, com cabelos loiros escuros e olhos claros, ao seu lado está Sergio Moro, um homem branco com cabelos e olhos pretos, ele usa terno azul e gravata roxa.
Reprodução

A área técnica do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo deu um parecer desaprovando as contas de campanha eleitoral da deputada federal Rosângela Wolff Moro (União Brasil), esposa do senador Sérgio Moro (União Brasil), que também teve suas contas de campanha contestadas recentemente. Rosângela foi eleita com 217 mil votos.

O relatório, assinado nesta quinta-feira (8), afirma que a sua campanha não esclareceu gastos eleitorais irregulares com recursos do Fundo Partidário que somam R$ 854 mil reais, gastos eleitorais irregulares pagos com recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha que somam de R$ 1089.018,01. Também houve recursos de origem não identificada no valor de R$6.845 e sobras de campanha no valor de R$ 17,582.

O parecer do TRE obtido com exclusividade pela Agência Pública tem 22 páginas e informa que já havia sido solicitado à campanha de Rosângela a apresentação “de esclarecimentos e provas complementares”, o que foi feito mas não convenceu o TRE sobre a transparência das contas.

As prestações de contas são uma etapa importante do processo eleitoral. Cabe à Justiça Eleitoral averiguar como foram empregados os recursos destinados à realização de uma eleição por candidatos e partidos.

A deputada, que é natural de Curitiba, e que se descreveu em suas redes durante a campanha como uma combatente da corrupção e defensora do “empoderamento da mulher”, declarou um total de despesas no valor de R$ 2.811.738,57.

Mas o TRE apontou falhas na comprovação desse total de despesas, como gastos com combustíveis — não sendo possível identificar quais veículos estavam a serviço da campanha —, inconsistência na situação fiscal de fornecedores, gastos com pessoal não comprovados e despesas que deixaram de transitar pela conta bancária de campanha — o que é uma exigência da lei.

Durante a eleição por uma vaga na câmara dos deputados a Pública já havia apontado um almoço sem registro oficial com empresários e potenciais eleitores numa churrascaria, atrasos de pagamento de fornecedores de gráfica e marketing, indignação da equipe de panfletagem nas ruas e a contratação da Social QI para a campanha, mesma empresa de monitoramento de redes sociais denunciada no escândalo da propaganda oculta do iFood, também revelado pela Pública.

O almoço sem registro oficial com empresários e potenciais eleitores numa churrascaria também consta no documento do TRE.

“Foi identificado que a candidata recebeu doação estimável em dinheiro consistente na organização de um evento, com fornecimento de refeição, para que ela expusesse sua plataforma de campanha, no valor de R$ 5.054,44 (0,17% do total acumulado de receitas – R$ 2.869.128,97), que não foram detalhados adequadamente, estando ausentes as informações elencadas no art. 53, inc. I, alínea “d”, da Resolução TSE no 23.607/2019)”, diz o trecho do parecer do TRE sobre almoço sem registro oficial revelado pela Pública.

Ainda segundo o TRE, “trata-se de inconsistência grave, geradora de potencial desaprovação, que denota a ausência de consistência e confiabilidade nas contas prestadas, uma vez que, submetidas a outros elementos de controle, hábeis a validar/confirmar as informações prestadas, resulta na impossibilidade de atestar sua fidedignidade e a real origem dos recursos declarados, revelando indícios de omissão de receitas”. 

O parecer do TRE diz ainda que Rosângela “teve oportunidade de se manifestar acerca de todos os apontamentos constantes no presente exame” e determinou o recolhimento de R$1,8 milhões dos recursos de origem não identificada ao Tesouro Nacional após o trânsito em julgado da decisão que julgar as presentes contas.

Parecer do TRE que desaprova as contas de Rosângela Moro.
O parecer do TRE obtido pela Pública tem 22 páginas e desaprovou as contas de Rosângela Moro

Consequências

A rejeição das contas eleitorais não impede a diplomação dos eleitos. Mas a não apresentação ou a desaprovação das contas pode acarretar a suspensão dos repasses do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), também conhecido como Fundo Eleitoral, além da restrição à quitação eleitoral de candidatas e candidatos, caso estes não apresentem as contas de campanha, explica o TSE. 

Segundo o tribunal, o Ministério Público Eleitoral pode propor ação de investigação judicial eleitoral para apurar uso indevido, desvio ou abuso do poder econômico ou do poder de autoridade, ou utilização indevida de veículos ou meios de comunicação social.

Ainda segundo o TSE, há também a hipótese de os partidos políticos ou coligações representarem à Justiça Eleitoral, no prazo de 15 dias da diplomação, relatando fatos e indicando provas, e pedir a abertura de investigação judicial para apurar condutas relativas à arrecadação e gastos de recursos. Comprovados a captação ou os gastos ilícitos, será negado o diploma ao candidato ou cassado, se já houver sido diplomado.

Rosângela Moro foi procurada pela Pública para comentar a decisão do TRE que reprovou suas contas. Se houver manifestação, este texto será atualizado.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Imagem mostra ícones dos aplicativos de redes sociais da Meta em celular

Meta usa influenciadores para direcionar debate sobre proteção a crianças nas redes

|

No Brasil, empresa promove ideia de que as suas ferramentas são melhor que leis que proíbam o acesso dos mais jovens

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura