Buscar
Reportagem

Resultado da COP28 abre caminho para Belém, mas falta ricos colocarem dinheiro na mesa

Financiamento é chave para que novas metas nacionais de cortes de emissão cresçam em ambição

Reportagem
14 de dezembro de 2023
11:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Cerimônia de encerramento da COP28 em Dubai
COP28/Christopher Pike

DUBAI – O resultado da 28ª Conferência do Clima das Nações Unidas (ONU), a COP28, que chegou ao fim na última quarta-feira (13), lança as bases para que a edição de Belém, daqui a dois anos, tenha a possibilidade de cumprir um marco fundamental do Acordo de Paris: a apresentação de metas mais ousadas de redução de emissões de gases de efeito estufa por todos os países. 

Mas, antes, as nações desenvolvidas precisam colocar o dinheiro sobre a mesa para ajudar as em desenvolvimento a cumprir com seus compromissos, um princípio basilar dos tratados climáticos internacionais, avaliam especialistas e integrantes do governo brasileiro ouvidos pela Agência Pública.

A nova rodada de contribuições voluntárias de redução de emissões – as NDCs, na sigla em inglês – a ser proposta pelos países na COP do Brasil, em 2025, precisa ser mais ambiciosa. As vigentes, se cumpridas, colocam o mundo na trajetória de aquecer entre 2,5 ºC e 2,9 ºC, patamar que pode implicar em consequências desastrosas para a saúde humana, os meios de vida e os ecossistemas. 

Marina Silva, no encerramento da COP28 em Dubai
Marina Silva, no encerramento da COP28: financiamento será questão central no Azerbaijão

Para isso, no entanto, um outro passo fundamental tem que ser dado entre Dubai – onde a COP28 ocorreu nas últimas semanas – e Belém, um biênio encarado como decisivo para o combate à crise do clima. Em 2024, na COP29, que acontecerá no Azerbaijão, os países precisam chegar a um acordo sobre os novos parâmetros para que os ricos auxiliem os pobres a enfrentarem o aquecimento global. A rodada de negociações climáticas do ano que vem já está sendo chamada de “COP do financiamento”. 

A tarefa principal da COP28 era concluir o balanço global das medidas que o mundo implementou desde a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, para enfrentar a emergência climática – chamado em inglês de Global Stocktake, ou apenas GST –, e apontar caminhos para que tenhamos a chance de limitar o aquecimento global a 1,5°C. 

O cesto de propostas inclui a inédita decisão de se fazer a transição energética do planeta para fora dos combustíveis fósseis – o início do fim de sua era, como descreveu o secretário-executivo da Convenção-Quadro do Clima da ONU, Simon Stiell.

O resultado ficou aquém do que demandavam os países mais vulneráveis à crise climática e a sociedade civil, que pressionavam para que o texto trouxesse um compromisso mais explícito de eliminação do uso de carvão, petróleo e gás – o termo defendido era phase out, em inglês – e determinasse que as nações desenvolvidas tomassem a dianteira dessa transição.

Ainda assim, o governo brasileiro e observadores do processo analisam o acordo de Dubai como positivo por ter finalmente apontado para o “bode na sala”: a queima de combustíveis fósseis, os grandes responsáveis pelo aquecimento global que fez de 2023 o ano mais quente da história. 

Por incrível que pareça, em 31 anos, desde que a Convenção-Quadro do Clima da ONU foi criada no Rio de Janeiro, na Rio-92, nunca os países haviam discutido o tema de maneira tão direta, muito menos chegado a um acordo sobre ele. É o ponto mais nevrálgico e sensível em um mundo de economia baseada na geração de lucro a partir de fontes fósseis.

Tomada a decisão de se afastar desse cenário – mesmo que não haja a clareza de como se dará essa transição –, vem a tarefa de desatar outro nó. No ano que vem, na COP29, deverá ser definida a “nova meta coletiva e quantificada de financiamento climático”. A ideia é que ela atualize e melhore um compromisso que os países desenvolvidos assumiram ainda em 2009, na COP15, em Copenhague, de pagar anualmente US$ 100 bilhões, entre 2020 e 2025, para as nações em desenvolvimento poderem lidar com a crise climática. 

Nos dois primeiros anos desse período o repasse não atingiu a meta. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), “é provável” que o valor tenha sido alcançado em 2022, confirmação que deve vir apenas no ano que vem. O problema é que os custos já estão muito acima disso. 

A decisão sobre o balanço global adotada na quarta-feira (13) em Dubai bate nessa tecla. O texto exorta os países desenvolvidos a cumprirem o objetivo, “nota com profundo pesar” o fato dele não ter sido atendido em 2021 e destaca a lacuna entre as necessidades das nações em desenvolvimento em termos de recursos para resposta à crise do clima – a estimativa é de que esteja na casa dos US$ 5,8 a 5,9 trilhões para o período pré-2030 – e o que é efetivamente disponibilizado a elas. 

A demora na efetivação do pagamento anual dos US$ 100 bilhões – frequentemente lembrada pelos países pobres em suas manifestações públicas durante a COP28 – também gera uma crise de confiança entre os blocos de países, o que acaba sendo um ponto nevrálgico que constantemente impede o avanço das negociações. Os países em desenvolvimento tendem a se recusar a ter metas mais ambiciosas de redução de emissões sem dinheiro na mesa. O estabelecimento de um compromisso à altura das necessidades do mundo em desenvolvimento é visto como fundamental para destravar esse impasse. 

O financiamento é considerado ponto chave para que o mundo em desenvolvimento implemente suas NDCs e elimine a dependência de suas economias em relação aos combustíveis fósseis. A delegação brasileira aposta que uma sinalização séria de que o dinheiro chegará é o incentivo para que esses países se sintam encorajados a apresentar metas mais ousadas até a COP de Belém.

Esse é o centro da “missão 1,5°C”, proposta defendida pelo Brasil na COP28 para que os países se unam numa escala sem precedentes para alcançar a meta do Acordo de Paris. O chamado brasileiro acabou refletido no texto do balanço global, uma espécie de documento final da conferência deste ano.

Lula segura a mãe do Sultão Al-Jaber, presidente da COP28 em Dubai
“Tróica” formada por Emirados Árabes, Azerbaijão e Brasil trabalhará para garantir meta de 1,5 °C. Na foto, Lula segura a mão do Sultão Al-Jaber, presidente da COP28

“Os países em desenvolvimento vão colocar muito fortemente a necessidade de ter os necessários meios para podermos cumprir – e quando digo cumprir, são todos os países – os objetivos que colocamos aqui, da missão 1,5°C”, afirmou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, a jornalistas durante o encerramento da COP28.

“O nosso desafio em Belém será pegar as NDCs, o resultado de financiamento, e ver se essa arquitetura fica em pé, se está alinhada com aquilo que o IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] indica como caminho para o 1,5°C”, explica Bruno Toledo Hisamoto, doutor em Relações Internacionais e pesquisador do Climainfo. “Esse é o ponto em que o Brasil pode se colocar e tentar angariar liderança no processo.”

Além da discussão específica sobre a nova meta, o Brasil emplacou, no acordo de Dubai, mais um espaço onde esse debate pode ser realizado. A decisão cria um pacote de ações, liderado pelas presidências das COPs 28, 29 e 30 “para estimular a ambição” na próxima rodada de NDCs e “manter a meta de 1,5 °C ao alcance”. Marina Silva e negociadores batizaram o grupo, formado por Emirados Árabes Unidos, Azerbaijão e Brasil, de “tróica” (expressão que remete às carruagens de três cavalos, mas que serve também para definir trios em busca de alguma solução).

De acordo com a ministra, o pacote incluirá o lançamento de grupos de trabalho para se criar um “mapa do caminho” sobre temas que funcionam como “pilastras para alcançarmos o objetivo de 1,5 °C”, entre eles, o financiamento. Não está claro como esse encaminhamento se dará exatamente. Marina diz que isso precisará ser negociado pelos países, e as conversas já estão acontecendo, segundo apurou a Pública.

A questão pode ainda ser abordada pelo Brasil também no G20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, que o país presidirá por um ano, até dezembro de 2024. “Este processo [das COPs] não pode resolver todos os problemas de financiamento. Nele, não temos acesso direto à composição institucional do sistema financeiro mundial”, pontua Alex Scott, líder do programa de Diplomacia Climática e Geopolítica da consultoria E3G. 

Para ela, o G20 pode ser um espaço importante para que o Brasil discuta, por exemplo, o papel dos bancos multilaterais de desenvolvimento, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento. “Houve um sinal claro, nesta COP, de que precisamos apoiar a evolução dos bancos multilaterais de desenvolvimento”, destaca. “É necessário garantir que tenham mais recursos, [é preciso] colocar mais financiamento nesses bancos para que possam, por sua vez, mobilizar investimentos para os planos climáticos dos países.

Questões internas também precisam ser resolvidas

O papel brasileiro de Dubai a Belém, no entanto, vai além da atuação internacional. O país precisa resolver questões internas, como a apresentação da sua própria NDC, que segundo especialistas entrevistados pela reportagem, deve estabelecer um padrão de ambição a ser seguido pelos outros países. A ideia do governo é que a nova meta sob o Acordo de Paris seja lançada ainda em 2024 para que o Brasil possa “liderar pelo exemplo”. 

“O governo tem o Plano Clima, vários planos setoriais, o plano de transformação ecológica. Nada disso é NDC ou estratégia de longo prazo [para o desenvolvimento de uma economia com baixas emissões de gases com efeito de estufa, também apresentada pelos países sob o Acordo de Paris]”, afirma Natalie Unterstell, presidente do Talanoa, instituto de política climática. 

“Esses planos todos podem ser insumos, mas [até Belém], o Brasil precisará ter esses instrumentos bastante transformadores e estratégicos: uma NDC ambiciosa, participativa e transparente, que sirva de modelo para o mundo, e entregar uma estratégia de longo prazo. “Ficam essas duas grandes tarefas”, complementa.

Edição:
COP28/Christopher Edralin
COP28/Stuart Wilson

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso