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Trump é descarado, não “transparente”

O uso da palavra certa importa quando se trata de pensar como age a extrema-direita hoje

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16 de janeiro de 2026
17:00

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O adjetivo está na boca de colunistas, analistas, comentadores, dentro e fora do Brasil e não é difícil entender por quê. Diante de décadas de pretextos dos Estados Unidos, como “democracia e direitos humanos”, para derrubar governos e invadir nações, Trump sem dúvida inovou ao dizer que invadiu a Venezuela por causa do petróleo. Mas a novidade não é tão promissora ou positiva quanto o “transparente” faz transparecer – com o perdão do trocadilho.

Transparência, para um governante, seria, por exemplo, divulgar os dados das embarcações bombardeadas no Caribe pelos Estados Unidos, em que condições as pessoas foram mortas e as informações que os ligam ao alegado narcotráfico.

Ou submeter ao Congresso as razões que justificariam o ataque a uma nação soberana sem esquivar-se do escrutínio de suas decisões – e da necessária autorização dos senadores de seu país – alegando “narcoterrorismo”, termo tão pesado quanto vago.

Também seria divulgar desde o início que o objetivo dos Estados Unidos na Venezuela era o petróleo, em vez de inventar a ligação de Nicolás Maduro com cartéis inexistentes. Aliás, a mentira – um substantivo que não combina com o adjetivo “transparente” – é quase uma característica do governo Trump. Ou, para ficar em um exemplo, alguém tem informações confiáveis sobre um “genocídio branco” que estaria ocorrendo na África do Sul?

A franqueza de Trump revela seu desprezo absoluto, não apenas pela legislação e tratados internacionais, mas por todos os países que não querem a guerra ou não têm condições de enfrentar a maior potência militar do mundo.

É uma afirmação de poder imperial para assustar, humilhar e submeter a América Latina ao mesmo tempo que justifica o ataque para seu eleitorado: afinal, essa é uma guerra para ganhar dinheiro não para perder soldados.

Declarar que a questão para os Estados Unidos é o petróleo também é um tapa na cara dos venezuelanos, incluindo os opositores de Maduro, não apenas pelo desdém com que Trump se referiu a Maria Corina Machado em coletiva transmitida no mundo todo, mas também por deixar evidente que temas como democracia, presos políticos, liberdade de imprensa não tem importância alguma – a vida deles, os que vivem no quintal, não interessa.

O que o presidente dos Estados Unidos está dizendo é: invadi a Venezuela porque quero e posso fazer o mesmo para tomar conta de qualquer riqueza no meu hemisfério. E quem não concordar com isso vai levar bomba. O que, claro, funciona, como sabe qualquer um que já teve uma arma apontada para a cabeça.

Basta ver a mudança de atitude do presidente da Colômbia, Gustavo Petro. Durante um bom tempo, Petro tentou responder à altura as ofensas de Trump – que chegou a dizer que ele era “um homem doente” que “fabrica cocaína” para enviar aos Estados Unidos; depois do ataque à Venezuela, porém, Petro ligou para Trump para dizer que trabalharia junto com os americanos para combater o tal do “narcoterrorismo”.

Para humilhá-lo um pouco mais, Trump conversou com o presidente da Colômbia na frente dos repórteres do New York Times – que apesar do pedido de off, puderam ouvir tudo, sem que Petro fosse avisado. Cinicamente, postou depois: “Foi uma honra conversar com o presidente da Colômbia”.

Até no Brasil, onde Lula chegou a recuperar popularidade depois de enfrentar Trump, que pretendia interferir em decisões da Justiça brasileira, e conseguir negociar as tarifas de exportação exorbitantes (justificadas por Trump também através de uma mentira, a de que a balança comercial entre os dois países era favorável ao Brasil), os ventos mudaram depois da demonstração de força de Trump.

Uma pesquisa da Quaest divulgada ontem (quinta-feira) constatou que 58% dos brasileiros temem que Trump faça algo parecido no Brasil e que a maioria acha melhor o país ficar quietinho: 66% querem neutralidade diante da invasão e 51% desaprovam a reação do presidente Lula, que fez declarações condenando o ataque e a afronta à soberania da Venezuela, alertando para o “precedente perigoso” sem sequer citar o nome de Donald Trump.

A “transparência” de Trump é uma ferramenta de marketing, planejada nos mínimos detalhes para projetar poder e acuar os outros países, como mostra reportagem da Agência Pública desta semana. Cair nessa armadilha apenas nos deixa mais impotentes, exatamente como pretende o presidente de extrema-direita dos Estados Unidos.

Há palavras que escondem mais do que revelam. As declarações racistas, homofóbicas, machistas e autoritárias de Jair Bolsonaro, foram qualificadas como “polêmicas” por muito tempo – e o elegemos para presidente, o que quase resultou em um golpe de Estado.

Que fique bem claro: Trump não é transparente; ele é descarado como só os autoritários e os bandidos podem ser.

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