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“Apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente”, disse Flávio Bolsonaro no último sábado (28/3) em Texas, dirigindo-se a uma plateia cheia de nomes da extrema direita ao estrear no CPAC, evento cujos organizadores, Mercedes e Matt Schlapp, são amigos e aliados de Eduardo Bolsonaro nos EUA. É Eduardo quem organiza os CPACs no Brasil.
“Em vez da administração Biden interferir em nossas eleições para instalar um socialismo que odeia a América, aplicar pressão diplomática por eleições livres e justas baseadas em valores de origem americana”, completou.
Chama a atenção a ausência da palavra “democracia” no discurso de Flávio Bolsonaro. Nem uma só vez a palavra foi mencionada.
O pré-candidato não pediu que os EUA façam pressão por “eleições democráticas” no Brasil, mas que as nossas eleições sejam “baseadas em valores de origem americana”, ou seja, que sigam os interesses dos EUA. Sai a democracia, entra a “liberdade” norte-americana, que agora declara abertamente poder intervir onde quiser, quando quiser.
Isso demonstra que Flávio e Eduardo estão absolutamente alinhados com a novilíngua trumpista – e que estão sendo assessorados por conselheiros experientes da extrema direita, que conhecem bem o público americano do CPAC e sua leniência com a erosão da democracia como valor e na prática realizada por Trump. Chegarei a isso mais adiante.
Um pedido a uma intervenção estrangeira deveria chocar a imprensa e a opinião pública brasileira. Por mais entreguistas que fossem incontáveis candidatos no passado, nenhum se aventurou a pedir que os EUA “pressionem” nossas instituições tão claramente.
Mas infelizmente, com exceção da newsletter Meio, a imprensa pegou leve demais na sua interpretação do pedido de Flávio. Preferiu se apegar às aspas de Flávio e deixou de dizer o óbvio: o tal candidato Flávio “moderado” não existe. A candidatura da família Bolsonaro tem como eixo principal anistiar os golpistas e alinhar nosso país ao que quiser o governo norte-americano de Trump.
Ou, dito mais claramente: a candidatura de Flávio nada mais é uma sequência ao plano de Steve Bannon de colocar Eduardo Bolsonaro na presidência do Brasil, como já alertei aqui nesta coluna. E faz parte deste plano, primeiro, as pressões tarifárias conquistadas graças ao lobby de Eduardo nos EUA, depois os processos e a lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, e agora recentemente, o envio do assessor do Departamento de Estado para assuntos do Brasil, Darren Beattie, para visitar Jair Bolsonaro na prisão e tentar criar um fato político que o colocasse como “vítima de perseguição” da ditadura brasileira. A visita foi primeiro permitida e depois suspensa por Alexandre de Moraes, e depois o visto foi retirado pelo Itamaraty.
Muitos capítulos dessa nova conspiração internacional para vender o Brasil aos EUA ainda vão acontecer, sob a batuta de duas figuras fundamentais: Steven Miller, assessor de Trump que vivia por aqui durante o governo de Jair, e Steve Bannon, quem afirmou em evento na posse de Donald Trump que Eduardo Bolsonaro seria o futuro presidente do Brasil.
Novos capítulos podem incluir desde a volta de tarifas, retaliações ou outras pressões feitas pelo Departamento de Estado, Comércio, Tesouro ou Justiça dos Estados Unidos, até outras ações pensadas desde os EUA para criar fatos políticos que vitimizem Jair Bolsonaro e reforcem a ideia que o Brasil vive uma ditadura. Está ainda no cardápio intervencionista a decretação de organizações criminosas brasileiras como “terroristas”, permitindo ação militar norte-americana no nosso litoral.
Tudo isso pode acontecer no meio da disputa eleitoral.
Para entender como a candidatura de Flávio está sendo forjada desde a extrema direita dos EUA, vale analisar com mais cuidado o discurso de Flávio no CPAC.
É normal que presidenciáveis ajustem o discurso de acordo com a sua plateia. Mas o que Flávio disse à direita americana vai ficar marcado como o discurso mais entreguista da história do Brasil.
Em resumo, Flávio prometeu terras raras para apoiar a indústria de defesa e o desenvolvimento de IA nos Estados Unidos, além de tachar de cara as organizações de narcotráfico de “terroristas”, pedindo “ajuda para combater cartéis de drogas transnacionais”.
Mas, antes disso, Flávio se esforçou em convencer a plateia que o Brasil importa para os interesses estratégicos dos EUA – citando nosso tamanho, nossa população e o fato que temos “as maiores reservas de água doce do mundo, terras agrícolas vastas que alimentam o mundo e recursos energéticos que poderiam abastecer continentes”.
“Mas aqui está o que realmente deveria chamar sua atenção. O Brasil está se tornando — vai ser — o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será disputado, porque o Brasil é a solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China em relação a minerais críticos, especialmente terras raras”, disse Flávio, apelando em seguida para o sentimento militarista: “Essas terras raras são essenciais para os processadores de computador e para a revolução da IA que está transformando nosso mundo, além dos equipamentos de defesa americanos. Sem esses componentes, a inovação tecnológica americana se torna impossível e a produção dos sistemas militares avançados que mantêm a superioridade americana cai nas mãos de adversários”.
O pré-candidato disse com orgulho que Bolsonaro era conhecido como “Trump dos trópicos”, comparou a facada à tentativa de assassinato de Trump e afirmou que sua condenação pelo atentado ao Estado Democrático de Direito era “similar à que foi feita contra Donald Trump por insurreição”.
Se tentava se demonstrar moderado, naquele discurso Flávio demonstrou aplaudir todos os temas caros à extrema direita americana abraçados pelo pai. Disse que Jair está preso “por defender nossos valores conservadores sem medo e por se opor ao sistema”, por lutar “contra a tirania da Covid”, contra cartéis de drogas, “contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke que destrói famílias e, acima de tudo, ele lutou pela liberdade.”
Em contraste, se eleito, Flávio diz que “nós teremos, mais uma vez, um presidente que luta contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke que destrói famílias, contra os cartéis de drogas e, acima de tudo, luta pela liberdade e pelos valores tradicionais. Um presidente que proclama sem medo que Jesus Cristo é o nosso Senhor.”
Assim, disse, “estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental.”
Veja aí de novo a palavra “liberdade” entrando no lugar da palavra “democracia”.
Há duas narrativas importantes de se depreender do discurso, que estão sendo forjadas a partir da direita norte-americana e que com certeza serão como motes de campanha pelas redes de desinformação.
- Joe Biden teria “interferido” na eleição de 2022 através de financiamentos da Usaid (nunca houve comprovação de que esses financiamentos tiveram qualquer influência no resultado eleitoral).
- Lula “defende” narco-terroristas do PCC e CV, e o governo atual teria “impedido” sua designação como terroristas.
Eis o que disse Flávio: “De acordo com um artigo publicado ontem pelo New York Times, o presidente do meu país faz lobby nos Estados Unidos para proteger organizações terroristas que oprimem meu povo, lavam dinheiro e exportam drogas e armas para os Estados Unidos e para o mundo”.
Mas o que Flávio quis com este discurso? Primeiro, entendo que o discurso, que apela fortemente a um nacionalismo da ultra-direita americana e até seus delírios conspiratórios, é possivelmente produto de consultores americanos, que entendem perfeitamente o público do CPAC. Bem escrito, sucinto, feito para se encaixar perfeitamente nos 15 minutos dedicados, ele foi decorado e treinado por Flávio Bolsonaro, que não é fluente em inglês, como demonstra este vídeo publicado pelo Congresso em Foco, no qual Eduardo traduz uma pergunta feita em inglês a Flávio.
Ou seja: houve treinamento e preparação, e foram feitos por profissionais.
Segundo, por mais que Flávio tenha dirigido o apelo a autoridades americanas, pedindo para fazerem “pressão diplomática”, a ladainha, que recorre ao conspiracionismo MAGA e leva em conta a completa falta de conhecimento deste público sobre o Brasil, foi bem elaborada para mobilizar os atendentes do CPAC. Se não fosse algo proibido pela Legislação Eleitoral, eu poderia até comparar o discurso com um “pitch” de investimento, em busca de atrair financiamento para um projeto de longo prazo – afinal, políticos, empresários, e financiadores de campanhas republicanas estavam na plateia.
Estamos ainda em março de 2026, mas esta já é a terceira viagem de Flávio aos EUA. O senador passou o réveillon em um evento organizado pelo pastor André Valadão em Orlando. Em janeiro, seguiu para o Texas e para Washington, onde tentou sem sucesso um encontro com o senador americano Marco Rubio, aliado de Donald Trump, além de ter se reunido com aliados de Eduardo, cujos nomes não foram revelados.
No dia 20 de janeiro de 2026, Flávio esteve em Israel em uma viagem com roteiro de acenos políticos e religiosos montado por Eduardo, buscando reforçar os laços com a direita internacional e adicionar um verniz religioso à sua pré-candidatura. Um dos episódios simbólicos dessa agenda foi uma videochamada feita do alto de uma colina próxima ao Mar da Galileia com parlamentares aliados, posteriormente publicada nas redes sociais. Já no dia 19 de fevereiro, o senador embarcou novamente para os Estados Unidos para cumprir compromissos com integrantes da equipe de Donald Trump, embora os nomes das autoridades com quem pretende se encontrar não tenham sido divulgados. Na sequência, Flávio seguiu para Nashville, no Tennessee, acompanhado de Eduardo Bolsonaro e do influenciador Paulo Figueiredo, onde participou de um evento promovido pela think tank conservadora PragerU e concedeu uma entrevista à CEO da organização, Marissa Streit.
Tudo isso indica uma coisa claramente: a campanha bolsonarista tem um forte QG nos EUA. O plano eleitoral de Flávio é apenas a continuação da campanha coordenada por Eduardo desde que se mudou para o país em março do ano passado.
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