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Crônica

Sambiquira, mas pode chamar de Uropígio

Bem temperado e frito, é servido como tira-gosto

Crônica
18 de julho de 2026
04:00
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O que é Sambiquira?

O balconista do boteco, que exibe o quitute numa vitrine embaçada pelo calor me olha como se eu perguntasse se depois do dia, vem a noite.

Sambiquira é bunda de galinha.

Meu pai, que chamava bunda de galinha de bunda de galinha, começava por essa parte carnuda o ataque avassalador à galinha assada que minha mãe preparava no domingo. Eu e meus irmãos, sempre famintos e atrasados, liquidávamos o serviço. Restavam os ossos e a felicidade da cozinheira ao ver seus amores bem alimentados.

Os miúdos já falaremos deles com a riqueza de detalhes que merecem ela reservava para a canja da noite.

Meio século depois, a crise climática se agrava e alerta que a mesa farta será cada vez mais cara. Um em cada dez habitantes do nosso planeta dorme de barriga vazia.

Tão triste quanto a fome é o desperdício. O que vai pro lixo nos países ricos acabaria com a falta de comida na África e com o vexame da desnutrição infantil.

Aqui no Brasil, os miúdos da galinha eram desvalorizados, hoje são protagonistas. Meu vizinho, um cozinheiro libanês, prepara um dos melhores sanduíches do bairro com fígado de frango.

Encoberto por um nevoeiro engordurado, Heraldo, maranhense de Colinas, monta sua churrasqueira perto da estação de trem. O espetinho de coração de frango é o primeiro a acabar.

Moela é a estrela de um bar chamado de, adivinha, Moela. São várias receitas com o miúdo. Graúda, a fila de espera só faz crescer.

E o Sambiquira, que citei no início e que os cientistas chamam de Uropígio? Bem temperado e frito, é servido como tira-gosto em bares de comida mineira. Passa fácil, fácil por frango à passarinho.

Da família dos galos e pintos, só as penas sobrevivem. Por enquanto.

Todos, ricos ou pobres, já ficamos com fome, mesmo que por pouco tempo.

Pois era nesse momento, de estômagos ansiosos, que o Edson batia uma panela velha pelas ruas. Um homem de canelas roliças, de humor fácil e reconhecido como pedreiro habilidoso.

Entre encher laje e assentar piso, Edson organizava uma vaquinha no bairro do Ermelino Matarazzo. Gente muito humilde colaborava com algumas moedas e, às vezes, só com um pedido de desculpas. Edson juntava entre 10 e 15 reais.

Edson criou, sem saber, um plano de segurança alimentar muito antes do Fome Zero ou do Bolsa Família. Era assim: da feira pegava sobras de tomates, cebola, legumes e verduras; também cabeças de garoupa. Completava a ronda na barraca do frango, a recolher pescoço, pés e, com sorte, Sambiquiras.

Depois, Edson chegava ao açougue com os trocados que ganhara dos vizinhos. Dinheiro curto para comprar qualquer tipo de carne, mas uma gorjeta atraente para quem estava do outro lado da vitrine.

O açougueiro retribuía dando os chamados retalhos: a gordura do boi retirada do coxão mole ou contra filé e que iria para o lixo. Tudo era cortado e recortado. E o mais apetitoso: vários pedaços com alguns nacos de carne.

Na mirrada casinha, a mulher Rita e os 6 filhos de Edson aguardavam. Tinham fome e esperança.

Se o torresmo tradicional vem da barriga do porco, o de Edu e Rita era filho da vaca. Ela fritava cebola e alho. Aí o presente do açougueiro fazia estardalhaço em contato com a banha fervente. Começava a dourar o torresmo mais cheiroso do bairro. Arroz, feijão e um ou outro alimento conquistado na feira completavam o almoço de 20, 30 pessoas, a maioria crianças.

À noite, se reuniam para o sopão preparado com o garimpo da feira. Comiam todos, juntos e felizes. Inclusive quem não tinha participado da vaquinha.

De quantos Edsons o mundo precisa para vencer a fome?

Edição:

Essa crônica foi publicada numa parceria entre a Escola de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz e a Agência Pública.

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