Buscar
Coluna

Açaí mais caro, eólica com cheirinho de carvão e poluição plástica sem um fim à vista

Um pot-pourri da semana de maldades ambientais no Congresso e no mundo

Coluna
6 de dezembro de 2024
06:00
Este artigo tem mais de 1 ano
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a newsletter Antes que seja tarde, enviada às quintas-feiras, 12h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Quando terminei a newsletter da semana passada, já tinha na cabeça o tema do texto desta semana. Imaginei que estaria discutindo aqui a definição de um tratado inédito, e extremamente necessário, para limitar a poluição plástica no mundo. Esse era o objetivo de uma reunião, no âmbito da ONU, que foi realizada por uma semana, até o último domingo, na Coreia do Sul. Só que os países falharam em chegar a um acordo sobre isso, estragando parcialmente meus planos aqui.

Já deveria ter esperado por esse desfecho. Apesar de os países virem negociando desde o início do ano – a reunião na Coreia foi a quarta e (seria a) última em torno da tentativa de estabelecer esse tratado –, a realidade é que eles estavam debatendo um problema de dificílima solução, talvez até mais complicado do que eliminar os combustíveis fósseis, cuja queima é a principal causa do aquecimento global.

Em primeiro lugar, porque os dois problemas estão diretamente relacionados, afinal, os plásticos são produzidos a partir do petróleo. Em segundo, porque os plásticos são tão onipresentes nos nossos modos de vida que estão até mesmo dentro dos nossos corpos. Não só os nossos, aliás, mas os de diversas espécies que não têm nada a ver com isso. Como conta a colega Isabel Seta em reportagem da Agência Pública, o plástico, “em suas formas microscópicas, já foi detectado em órgãos humanos e até no sangue e no leite materno”.

O grande problema é que a maior parte do plástico é de uso temporário e é descartado logo depois. De acordo com levantamento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), das mais de 9,2 bilhões de toneladas geradas desde a década de 1950, 7 bilhões viraram lixo. 

Como explica a mesma reportagem, o objetivo era tentar definir um tratado internacional, com poder de lei, que abordasse todo o ciclo de vida dos plásticos – da produção e design ao descarte. Esperava-se que fosse possível concordar em planos para reduzir, por exemplo, a quantidade de plásticos de uso único e listar substâncias químicas tóxicas que precisariam ser banidas. 

Mas muitos países (obviamente os produtores de petróleo) argumentaram nas negociações que resolver a poluição plástica é mera questão de resolver o lixo. Não seria necessário diminuir produção e consumo, só melhorar a reciclagem. Certo… O fato é que, diante do impasse, um acordo não saiu. Ficou para o ano que vem a retomada dos esforços nesse sentido.

Foi mais um revés desanimador em um ano marcado por poucos avanços nas tentativas globais de lidar com grandes problemas ambientais. As conferências do clima e da biodiversidade da ONU também terminaram com resultados bem aquém dos necessários. 

O pior de tudo é a mensagem que isso passa para o mercado. Nesta segunda-feira (2), um dia após o fim da reunião malsucedida na Coreia, a Coca-Cola já anunciou que estava desistindo dos seus planos de reduzir o uso de plástico e de fazer o reúso. A empresa, de acordo com um estudo publicado em abril na revista Science Advances, responde por 11% da poluição plástica com marca do mundo. A alegação da empresa foi que ela “enfrenta desafios complexos” e que o foco agora seria usar mais material reciclado.

Pois é. Complexos os desafios são mesmo. Mas não lidar com a poluição agora só vai aumentar o dano e tornar a solução do problema muito mais cara depois.

Congresso brasileiro na contramão ambiental

Não é somente no âmbito internacional, no entanto, que as discussões legais não estão alinhadas com a urgência dos desafios das mudanças climáticas e da degradação do meio ambiente. Internamente, no Congresso brasileiro, diversos projetos também avançam na contramão da proteção ao planeta. 

É o caso da regulamentação da reforma tributária; da proposta de emenda à Constituição que extingue os terrenos de marinha, popularmente conhecida como “PEC da privatização das praias” (que voltou a tramitar nesta semana); e do projeto de lei que visa criar um marco regulatório para as eólicas offshore. 

A reforma tributária, que poderia ser um caminho para aumentar impostos de produtos poluentes e danosos ao meio ambiente, e diminuir aqueles que ajudam na preservação, está perigando fazer o contrário.

Uma análise divulgada nesta semana pelo Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSocioBio), pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) apontou que o projeto em tramitação no Senado (PLP 68/2024) pode aumentar em até sete vezes a alíquota do imposto para produtos da sociobiodiversidade, como o açaí e a castanha-do-pará. 

De acordo com as organizações, sem uma menção específica de isenção ou desconto, itens da sociobiodiversidade produzidos por povos indígenas, quilombolas, extrativistas e agricultores familiares podem ficar com alíquota cheia, de até 27,97%. Hoje a alíquota mínima praticada sobre o açaí é de 3,65%, considerando empresas no regime Simples Nacional e com isenção do ICMS.

Por outro lado, a reforma prevê que os agrotóxicos podem ter uma isenção de 60%. 

Ainda segundo a análise, a concessão de benefícios fiscais a esses produtos da sociobiodiversidade teria um impacto fiscal mínimo de apenas 0,046% sobre a arrecadação nacional. A discrepância é digna de nota porque hoje se entende que é justamente a valorização de produtos da floresta que vai trazer alternativas econômicas à Amazônia e ajudar a zerar o desmatamento – meta do governo até 2030. 

Havia a expectativa de que a proposta do relator, o senador Eduardo Braga (MDB-AM), seria apresentada nesta semana, mas foi adiada para a próxima.

Outro projeto que poderia ser um grande avanço ambiental, mas pode virar um pesadelo é o das eólicas offshore (PL 576/2021). Seu objetivo é definir um marco legal para o estabelecimento desses geradores de energia a vento no mar, medida considerada fundamental para alavancar a produção de hidrogênio verde no país, um combustível mais limpo, que pode ser uma alternativa aos combustíveis fósseis. 

Só que foram colocados alguns “jabutis” no texto que não têm absolutamente nada a ver com energia limpa – muito pelo contrário. O texto, que está para ser apresentado na Comissão de Infraestrutura do Senado desde a semana passada, inclui a obrigatoriedade de contratação de usinas térmicas a gás natural, que funcionariam até 70% dos dias do ano, e estende a vida útil de térmicas a carvão da região Sul de 2028 para 2050. 

Um estudo feito pela Coalizão Energia Limpa calcula que o funcionamento dessas térmicas resultará em emissões extras de 274,4 milhões de toneladas de CO2 nos próximos 25 anos. O estrago é tão grande que anularia os ganhos de redução de emissão do país que tivemos com a queda do desmatamento na Amazônia nos últimos dois anos. Fora os custos de uma geração elétrica a combustível fóssil, que serão repassados a todos os consumidores.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Quilombolas lutam por território ancestral contra imobiliária no interior de São Paulo

|

Descendentes de escravizados disputam título de terra contra empresa e denunciam ação da polícia

Lula proíbe bets e cita relato de mãe que perdeu o filho para apostas ao assinar Medida

|

Vânia Borges, que perdeu o filho para as apostas online, esteve com o presidente após matéria da Pública com seu relato

Análise da Abin aponta extrema-direita no Brasil como “facilitadora” de ofensiva de Trump

|

Desde novembro de 2025 análises sobre risco “crítico” de interferência vem sendo produzidos pela agência de inteligência

Garimpo na Terra Indígena Baú em 2026.

Indígenas Kayapó se colocam em risco para bloquear garimpo ilegal na Terra Indígena Baú

|

Dois meses após operação da PF, número de invasores quadruplicou, dizem órgãos; há suspeita de participação de facções

Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts

|

Rede tem 58 milhões de visualizações e amplia alcance de posts pró-família Bolsonaro e ataques ao STF

Colagem com as fotos do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias e do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues

Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

|

Documentos indicam que o diretor-geral da PF acionou AGU contra uma ordem do então relator do caso Master

Presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante abertura da assembleia geral da ONU em Nova York em 2025

Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

|

O Cartel de Los Soles foi inventado pelo Departamento de Justiça de Trump, que depois voltou atrás

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras