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O sonho de Marina: alcançar em 2026 a menor taxa de desmatamento da história

Ministra do Meio Ambiente estima que 2026 pode ter menor taxa de desmatamento na Amazônia. O clima vai colaborar?

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12 de fevereiro de 2026
17:43

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A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, cotada para ser uma das candidatas ao Senado por São Paulo – o que deve levá-la a deixar o cargo até o fim de março –, afirmou nesta quinta-feira (12) que o governo está trabalhando com a expectativa de alcançar, neste ano, a menor taxa de desmatamento da série histórica, iniciada em 1988.

A estimativa – ou plano, ou quem sabe, até, sonho –, vem de dados bastante promissores referentes aos últimos seis meses. Entre 1º de agosto do ano passado e 31 de janeiro deste ano, os alertas feitos pelo sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apontaram para um desmatamento de 1.3324 km2 na Amazônia, uma queda de 35,4% em relação ao mesmo período entre 2024 e 2025 (2050 km2). É o menor valor da série histórica do Deter, iniciada em 2016.

“Temos uma expectativa, já acompanhado os últimos seis meses, de chegar a menor taxa de desmatamento da Amazônia da série histórica, se continuarmos com esses esforços. Os dados apontam na direção de uma queda de 35% para 2026. Claro que isso é para os primeiros seis meses, mas é uma forte tendência de queda”, disse Marina, em entrevista coletiva no final da manhã desta quinta.

Quem mede o desmatamento oficial da Amazônia é outro sistema do Inpe, o Prodes. E o dado sempre considera a perda total de vegetação no intervalo de 12 meses, entre agosto de um ano e julho do ano seguinte.

Ambos os sistemas trabalham com imagens de satélite, mas o Deter, voltado para auxiliar na fiscalização e ajudar a impedir um desmatamento em curso, ocorre de modo mais ágil, praticamente em tempo real, o que o torna um pouco menos preciso. Ainda assim, é um indicador da tendência para onde vai a curva de desmatamento, se para cima ou para baixo. Desde 2017, o Deter apontou na mesma direção do Prodes em 6 de 9 ocasiões.

A menor taxa de desmatamento da Amazônia foi registrada em 2012, quando o Prodes registrou a perda de 4.571 km2. Nos anos seguintes ela oscilou um pouco para cima, voltando a subir para valer a partir do governo Bolsonaro, iniciado em 2019. A taxa chegou a ter uma queda no último ano do governo anterior e começou a ser reduzida de modo consistente a partir de 2023, chegando a 5.796 km2 em 2025 – a menor em 11 anos e a terceira menor da série histórica.

São passos importantes para cumprir a promessa feita pelo presidente Lula, quando assumiu o terceiro mandato, de zerar o desmatamento até 2030. E, para Marina, é questão de honra entregar os melhores resultados.

O marco de menor taxa ela não conseguiu alcançar em sua primeira passagem pela pasta, de 2003 a 2008, entre o primeiro e o segundo mandato de Lula. Mãe do mais bem sucedido programa de combate ao desmatamento do país, o PPCDAm, ela saiu do governo antes de ver o desmatamento chegar aos menores níveis.

Foi essa política, continuada depois da saída de Marina pelos ministros Carlos Minc e Izabella Teixeira, que resultou na redução de 83% do desmatamento em 2012, na comparação com o nível estratosférico registrado em 2004 (mais de 27 mil km2).

Já fazendo as contas, se a redução de 35% observada pelo Deter nos últimos seis meses se repetir pelos próximos, o Prodes, de fato, pode vir a ser o mais baixo do registro histórico. Um sucesso tremendo. Para empatar com 2012, a queda teria de ser pouco superior a 20%. Mas será que vai dar?

Se não, vejamos. No primeiro ano de Lula 3, o Prodes caiu quase 22%. No segundo ano, a redução foi de 28% e no terceiro, de mais 11%. Há uma lógica na queda do desmatamento semelhante a emagrecer. Quando há muito peso para perder, a dieta, no começo, vai que é uma beleza, mas aqueles quilinhos finais para atingir a meta costumam ser os mais difíceis, porque já há pouca gordura para queimar.

Com o desmatamento, é um pouco assim também. O criminoso está lá tranquilão, derrubando grandes porções de floresta de uma vez sem se preocupar, porque o governo está fazendo vistas grossas. Quando a fiscalização volta a atuar, esse tipo de desmatamento mais descarado, grande, cai mais rapidamente. Mas vão ficando uns menores, mais difíceis de monitorar.

O criminoso também fica mais inventivo, vai se valendo de outras alternativas. Aproveita que o clima está seco e conta com a destruição promovida pelo fogo, por exemplo. O combate vai ficando mais complexo. Então, para isso, o governo também precisa ser mais criativo, tanto em aumentar e aprimorar a fiscalização, quanto em formas de trazer alternativas para que não haja o desmatamento.

Parte dos esforços do PPCDAm, como detalhou o secretário André Lima, é trabalhar em alinhamento com o crédito rural, de modo a reduzir o acesso ao recurso para quem desmata. E criar gargalos para que os produtos do desmatamento não consigam ser comercializados.

É um processo de gato e rato que vai sendo aprimorado dos dois lados. Mas boas políticas públicas, consistentes e ágeis para reagir conforme o campo se assanha, podem reverter o jogo e dar bem certo. Há milhões de bons motivos, inclusive econômicos, para que a Amazônia não seja mais desmatada. Já passou da hora de isso ser alcançado.

Mas aí entram dois fatores importantes: o clima e as eleições.

Em novembro do ano passado, quando o governo anunciou os dados do Prodes e a queda de 11% entre agosto de 2024 e julho de 2025, na comparação com os 12 meses anteriores, foi feito o alerta de que cerca de 40% daquela perda tinha se dado por ação progressiva do fogo, e não pelo tradicional corte raso – que é quando a floresta é derrubada totalmente, aberta para que outro uso ocorra (eu explico essa história nesta coluna). O ano de 2024, todo mundo deve se lembrar, foi particularmente seco e com muitas queimadas.

As características diferentes do Prodes do ano passado foram atribuídas principalmente às mudanças climáticas, que estão deixando a floresta amazônica – tradicionalmente úmida – a uma maior suscetibilidade ao fogo. Um problemão em um planeta cada vez mais quente.

No ano passado, por uma combinação de clima mais ameno, com chuvas mais regulares, e a entrada em ação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, as queimadas reduziram bastante. Conforme anunciou André Lima, entre agosto do ano passado e janeiro deste ano, a degradação da floresta, jargão usado pelo estrago provocado principalmente por fogo, mas também pela retirada de madeira, caiu 82% na comparação com o período anterior.

Quando Marina afirma que “se continuarmos com esses esforços”, a taxa de desmatamento será a mais baixa, certamente ela está considerando manter a política de controle do fogo. Mas e se vier uma nova seca neste ano? Ainda é cedo para dizer.

Agora em janeiro, o número de focos de incêndio no bioma Amazônia foi 68% acima do observado em janeiro de 2025 e também o maior desde 2016. Mas, de acordo com dois técnicos do Inpe com quem conversei, Gilvan Sampaio e Fabiano Morelli, ainda está dentro da média da série histórica para o mês, iniciada em 1998.

“Tivemos um maior número de focos em janeiro, mas isso não significa área queimada maior. Basicamente temos o uso de fogo controlado em área de pasto, mas não floresta incendiada”, me explicou André Lima. Ele admitiu, porém, que o governo já está preocupado e se preparando para uma possível piora do quadro daqui alguns meses.

Ocorre que um novo El Niño, fenômeno de aquecimento do Pacífico que costuma trazer seca para a Amazônia, está previsto para começar no segundo semestre deste ano. Bem no período em que a região já entra naturalmente na sua estação seca. E isso pode acabar tornando a escassez mais intensa e extensa.

Para complicar, o segundo semestre coincide com o período eleitoral. No último ciclo de eleições gerais, em 2022, houve uma explosão de alertas de desmatamento do Deter a partir de agosto. A delinquência correu solta diante da expectativa de que um governo menos permissivo aos desmandos na Amazônia poderia vencer. As queimadas entre agosto e dezembro também foram bem mais intensas do que nos mesmos meses de 2021, mesmo sem nenhum motivo climático que favorecesse isso.

Bem verdade que para fins do Prodes 2026, nada disso vai influenciar, uma vez que a taxa fecha em julho. Capaz que, se tudo seguir conforme os planos, a taxa realmente venha menor. Mas para terminar o mandato com chave de ouro nos indicadores ambientais, todo cuidado será pouco para segurar bolsonaristas amazônidas querendo ver o circo pegar fogo durante as eleições.

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