A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado Federal deve iniciar a análise dos documentos sigilosos de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão – identificado como “Sicário” – na semana que vem. Ele é apontado como líder de uma milícia responsável por executar ações violentas a mando de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que está preso em Brasília por denúncias de fraudes bancárias bilionárias e organização criminosa.
Mourão foi preso e encaminhado à Superintendência da Polícia Federal (PF), em Belo Horizonte, no dia 5 de março, e tentou se enforcar no local. Ele chegou a ser socorrido e enviado ao hospital, mas a morte foi confirmada no dia 6.
A quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático de “Sicário” e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi aprovada na quarta-feira (11) pelos membros da CPI. O relator do caso, senador Alessandro Vieira (MDB-SE) confirmou à Pública que parte da documentação deve ser enviada pela Polícia Federal ainda nesta semana.
“A nossa expectativa é que ao longo das 48 horas nós tenhamos já toda a documentação requisitada. Estamos recebendo mais analistas da Polícia Federal para que possamos acelerar a análise”, frisou Vieira, reforçando que “seguramente” os senadores terão acesso ao material a partir de segunda-feira (16).
Vieira classificou como “insuficiente” a fundamentação do requerimento protocolado pelo senador Humberto Costa (PT-PE) para também quebrar o sigilo de João Roma, ex-ministro da Cidadania no Governo Bolsonaro. “A quebra de sigilo tem de ser individualizada e fundamentada. O que a gente pediu foi a retirada de pauta para que o proponente depois possa refazer o pleito”, informou.
O pedido de Costa se baseava em supostas relações entre Roma e investigados ligados ao caso Master, como o próprio Daniel Vorcaro, e Augusto Lima, dono do Banco Pleno e ex-sócio do Master. O ex-ministro, segundo o requerimento do senador do PT, era relacionado com Ronaldo Bento, que o sucedeu no Ministérios da Cidadania e chegou a atuar como diretor do Pleno. O Banco Central solicitou a liquidação do banco de Lima e do Master na mesma decisão.
Zettel foi o maior doador de Bolsonaro
Fabiano Zettel é casado com Natália Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro. Empresário e pastor da Igreja da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG), ele foi o sexto maior doador nas eleições de 2022. Além disso, fez as maiores doações – como pessoa física – às campanhas de Jair Bolsonaro (PL), com R$ 3 milhões e de Tarcísio de Freitas (Republicanos), com R$ 2 milhões na disputa ao Governo de São Paulo.
O cunhado de Vorcaro foi detido pela primeira vez em 14 de janeiro – na segunda fase da Operação Compliance Zero – quando tentava embarcar num jatinho com destino a Dubai, nos Emirados Árabes. O empresário foi preso novamente na terceira fase da operação, em 4 de março, e permanece detido.
Congresso e STF na mira
As recentes revelações do Banco Master trouxeram aos holofotes nomes influentes nos Poderes e relações questionáveis com Daniel Vorcaro. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, é citado pelo banqueiro como um “dos grandes amigos de vida”, numa conversa realizada em 2024, por meio de um aplicativo de mensagens. No mesmo ano, Ciro foi autor de uma emenda para alterar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) de uma forma que beneficiaria o Master, porém, prejudicar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ao aumentar o limite de cobertura do fundo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
A proposta foi protocolada em 13 de agosto de 2024, mesma data em que Vorcaro comemorou a iniciativa num outro diálogo: “Ciro soltou um projeto de lei que é uma bomba atômica no mercado financeiro. Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes. Está todo mundo louco!”, escreveu sobre a emenda – que não foi acatada.
Ações de Toffoli e Moraes
Entre as relações mais controversas estão dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF): Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.
Moraes, segundo reportagem da jornalista Malu Gaspar, conversou com Daniel Vorcaro horas antes do banqueiro ser preso pela primeira vez, em 17 de novembro de 2025. Durante a conversa, Vorcaro enviou ao ministro: “alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. O ministro, que negou ter participado da conversa, teria respondido no formato de visualização única, que apaga o conteúdo enviado.
Já os impasses envolvendo Dias Toffoli são mais latentes. Ele deixou a relatoria do caso após a repercussão negativa de suspeitas de envolvimento com o banqueiro. O ministro tomou decisões que, na prática, paralisaram as investigações. Entre as ações, Toffoli foi de encontro aos procedimentos padrões da PF e designou nominalmente os peritos responsáveis pelo material apreendido na Operação Compliance Zero; e ainda determinou que toda apreensão fosse mantida sob custódia do STF.
O caso se agrava ainda mais com a revelação de que a família de Toffoli é dona de um resort com investimentos milionários de fundos do banco Master. Uma reportagem do Estadão revelou, em janeiro deste ano, que o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, era dono dos fundos de investimento que compraram dos irmãos de Toffoli, por R$ 6, 6 milhões, parte do empreendimento.

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