Buscar
Nota

Após condenações por morte de mãe Bernadete, Anistia pede reparação e “não repetição”

15 de abril de 2026
17:30
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

A Anistia Internacional se manifestou após a condenação pelo Júri Popular da 1ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Salvador de Arielson da Conceição dos Santos e Marílio dos Santos pelo assassinato da ialorixá e líder quilombola Maria Bernadete Pacífico Moreira, a Mãe Bernadete. A decisão foi tomada na noite da última terça-feira, 14 de abril. Arielson da Conceição dos Santos, apontado como um dos executores do crime, foi condenado a 29 anos e 9 meses de prisão. Já Marílio dos Santos, que está foragido da Justiça e representado pelo seu advogado de defesa, foi condenado como um dos mandantes do homicídio a 40 anos, 5 meses e 22 dias. Ambos irão cumprir a pena em regime fechado.

Segundo a nota da Anistia, “a decisão representa um avanço relevante, especialmente em um contexto em que o Brasil figura entre os países que mais matam defensoras e defensores de direitos humanos e registra elevados índices de impunidade nesses casos”. No mesmo texto, a organização pondera, entretanto, que “apesar dos avanços, lacunas ainda não esclarecidas podem fragilizar esses resultados e expor as limitações de um sistema de proteção já precário. É fundamental garantir a responsabilização de todos os envolvidos no crime, incluindo aqueles que ainda não foram julgados, para que a resposta do Estado esteja à altura da gravidade do caso”.

Além da “responsabilização plena”, “com transparência, devida diligência e sem tolerância a formas de impunidade parcial”, a Anistia Internacional Brasil ainda destaca a necessidade de reparar “à família de Mãe Bernadete e à comunidade do Quilombo Pitanga dos Palmares”, como também “mudanças estruturais e de não repetição”. Entre elas, a organização cita “o fortalecimento efetivo dos programas de proteção a defensoras e defensores de direitos humanos” e “proteção territorial para comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais” por meio da titulação dos territórios.

Mãe Bernadete, foi assassinada no dia 17 de agosto de 2023, com 25 tiros, dentro de sua casa, na presença de seus três netos, no Quilombo Pitanga de Palmares, em Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador. Desde 2019, a ialorixá estava inserida no Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos da (PPDDH). A líder quilombola e religiosa era conhecida como uma defensora dos direitos das comunidades quilombolas, dos direitos humanos e ainda atuava na luta contra o tráfico de drogas.

Após investigações sobre o caso, a Polícia Civil da Bahia concluiu que a execução foi a mando dos líderes criminosos na região: Marílio dos Santos, o ‘Maquinista’, e Ydney Carlos dos Santos de Jesus, o ‘Café’. No processo, Santos e Jesus são apontados como responsáveis por práticas criminosas na barraca Pitanga Point, denunciadas pela ialorixá, o que teria motivado sua execução. Ao todo, foram seis pessoas indiciadas pelo Ministério Público da Bahia: Josevan Dionísio dos Santos, Arielson da Conceição Santos, Marílio dos Santos, Ydney Carlos dos Santos de Jesus e Sérgio Pereira de Jesus.

A ialorixá também perdeu um filho biológico, em 2019, assassinado a tiros dentro de seu carro, em Pitanga de Palmares. Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, conhecido como Binho do Quilombo, era reconhecido pela luta em prol da comunidade quilombola e chegou a se candidatar a vereador do município de Simões Filho. Após sua morte, Mãe Bernadete fez diversas denúncias que resultaram em ameaças à sua vida. O Ministério Público da Bahia (MP-BA) pediu à Justiça, em março deste ano, o arquivamento do processo sobre a morte de Binho do Quilombo, por falta de provas.

A morte de Mãe Bernadete foi amplamente repercutida. Em 2024, Wellington Santos Pacífico, um dos netos de Bernadete que presenciou o homicídio, discursou na sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York falando como o estado falhou em manter a avó segura, mesmo ela fazendo parte do programa de proteção a defensores de direitos humanos. Em contrapartida, em 2025, Jurandir Pacífico, filho da Mãe Bernadete, em conjunto com o Ministério de Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) apresentou propostas para fortalecer a proteção de defensores de direitos humanos em comunidades tradicionais, realizando uma agenda de formação para policiais da Bahia e aumentando a educação em direitos humanos na sociedade civil.

Julgamento

Marílio dos Santos e Arielson da Conceição dos Santos responderam por homicídio qualificado cometido por motivo torpe, meio cruel, com impossibilidade de defesa. Arielson também responde por roubo supostamente realizado durante a execução de Mãe Bernadete. O julgamento, que foi adiado em março, durou dois dias e dois dos cinco acusados no processo foram ouvidos.

O primeiro dia de julgamento, na segunda-feira, teve o interrogatório do réu Arielson, que confessou sua participação no assassinato, mas alegou que grupo pretendia apenas intimidar a Mãe Bernadete. Segundo ele, o que era pra ser uma intimidação, saiu do controle por causa de Josevan Dionísio dos Santos, conhecido como “BZ”, a quem acusou de ser responsável pelos tiros que atingiram a ialorixá. Em depoimento, o réu disse que sua desavença com a líder quilombola era pela oposição da Mãe Bernadete à presença dele no quilombo e que ela ameaçava chamar a Polícia Federal para retirá-lo do local. O advogado que representou Marílio dos Santos alegou, na entrada do tribunal, no segundo dia de júri, que a inclusão de seu cliente no processo ocorreu pela “fama” e por sua ficha criminal. Ele ainda argumentou que, no momento da morte de Bernadete, o réu estava foragido por outros delitos. O advogado ainda afirmou que pretende recorrer da decisão do júri.

Edição:

Notas mais recentes

Governos de 4 estados não aderem a esforço nacional de combate a roubos de celulares


Quem é Fernando Cerimedo, preso em investigação sobre ataque a tiros à ex-companheira


MPF move ação contra Renan e MBL por xingar indígenas do Pará no Instagram


Corrida eleitoral: Campanha começa com Lula em Minas Gerais, Flavio desmarca Juiz de Fora


Corrida Eleitoral: sabatinas eleitorais continuam enquanto Congresso volta de recesso


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas