A relação entre os Estados Unidos e o Brasil é, no mínimo, complexa. Da tentativa atual do pré-candidato à presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, de que os EUA interfiram nas eleições brasileiras, à postura oposta de Joe Biden, em 2022 – que se posicionou contra qualquer tentativa de invalidar as urnas – a democracia brasileira ora foi vista como benéfica, ora como problema, para os homens que comandaram a Casa Branca.
Entre 1962 e 1964, duas administrações americanas minaram a democracia no Brasil. Em 30 de julho de 1962, o presidente John F. Kennedy (1961-63) reuniu-se com Lincoln Gordon, embaixador dos EUA no país, e Richard Goodwin, Subsecretário Adjunto de Estado para Assuntos Interamericanos, na Casa Branca, para discutir a relação entre o presidente João Goulart (1961-64) e os militares brasileiros.
Em sua conversa, que foi gravada e preservada como registro da reunião, o embaixador Gordon comentou:
— “Acho que uma de nossas tarefas importantes é fortalecer a espinha dorsal das Forças Armadas. Deixar claro, discretamente, que não somos necessariamente hostis a qualquer tipo de ação militar, se ficar claro que o motivo da ação militar é…”
— “Contra a esquerda”, Kennedy completou a frase.
Gordon acrescentou:
— “Ele [Goulart] está entregando o maldito país aos…”
— “Comunistas”, novamente, Kennedy completou.
Poucos instantes depois, Goodwin comentou:
— “Podemos muito bem querer que eles [os militares brasileiros] assumam o poder no final do ano, se puderem”.
Kennedy foi assassinado em 22 de novembro de 1963, antes que as condições estivessem propícias dentro das Forças Armadas brasileiras para realizar um golpe de Estado com o apoio dos EUA contra o governo de esquerda de Goulart. Isso ocorreria em 31 de março de 1964, enquanto Lyndon B. Johnson (1963-69) ocupava a Casa Branca.
Em meados de março de 1964, imediatamente antes da tomada do poder pelos militares, o presidente Johnson convocou uma série de reuniões, que incluíram Thomas Mann, o Secretário de Estado Adjunto para Assuntos Interamericanos; altos funcionários do governo; e os embaixadores dos EUA na América Latina.
Nessa reunião, Mann apresentou sua abordagem de política externa para a região: “Os Estados Unidos não tomarão, no futuro, uma posição a priori contra governos que chegam ao poder por meio de golpes militares”. O conteúdo das conversas que ocorreram na conferência da Casa Branca vazou para a imprensa. Serviu como uma mensagem clara para as forças militares brasileiras de que Washington estava dando sinal verde para a derrubada do governo Goulart.
O embaixador Gordon, confiante de que o Brasil estava à beira de uma revolução nos moldes da Revolução Cubana, mobilizou a Casa Branca para apoiar os militares conspiradores que se preparavam para tomar o poder. Ele convenceu o governo Johnson a implementar a “Operação Irmão Sam” (Operation Brother Sam), que incluía o envio de uma força-tarefa naval para a região para apoiar os golpistas caso os partidários de Goulart resistissem à tomada do poder pelos militares. Gordon também persuadiu o presidente dos EUA a reconhecer a transição de poder em 2 de abril de 1964, de um governo civil para um governo militar, sem questionar a legitimidade do novo regime.
Durante os primeiros quatro anos do governo militar brasileiro, apenas algumas vozes críticas nos Estados Unidos se manifestaram contra a ditadura. No entanto, à medida que a resistência ao regime cresceu em 1967 e 1968, levando a uma repressão e à imposição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 13 de dezembro de 1968, as forças de oposição brasileiras tentaram buscar apoio no exterior para se mobilizar contra os generais no poder.
Em 1969, o ex-congressista Márcio Moreira Alves, cassado com a promulgação da AI-5 e exilado no Chile, viajou aos Estados Unidos para se encontrar com líderes democratas do Congresso americano e explicar-lhes a natureza repressiva do regime militar. Alves retornou a Washington no ano seguinte para se reunir com acadêmicos americanos na Segunda Conferência da Associação de Estudos Latino-Americanos, onde incentivou especialistas em América Latina a apoiarem uma resolução que pedia o fim da ajuda militar americana ao Brasil.
Esse esforço foi um pequeno capítulo em uma significativa campanha descentralizada e nacional de longo prazo nos Estados Unidos, que mobilizou exilados brasileiros juntamente com seus aliados americanos — clérigos, acadêmicos, ex-missionários, políticos e outros — para denunciar a ditadura e educar os formuladores de políticas e o público americano sobre a situação no Brasil.
Apesar disso, nas duas décadas seguintes, com exceção dos quatro anos do governo Jimmy Carter (1977-1981), a Casa Branca ofereceu apoio econômico, militar e diplomático à ditadura. Esses anos representaram talvez o pior período da história das relações entre os dois maiores e mais importantes países do hemisfério ocidental.
Biden e o “Trump dos Trópicos”
Um outro momento crucial – e bastante diferente na tumultuada relação entre as duas nações – ocorreu entre 2021 e 2023, quando Joseph Biden (2021-2025) ocupou a Casa Branca. A eleição de Donald Trump em 2016 representou uma polarização política radical nos Estados Unidos, culminando na invasão do Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021 por apoiadores de Trump, após a derrota do candidato nas eleições presidenciais americanas de 2020.
Foi a primeira vez desde a Guerra Civil Americana (1861-65) que uma insurgência tentou derrubar um governo democraticamente eleito dentro das fronteiras dos EUA.
Embora o Pentágono, o Departamento de Estado e a Casa Branca tenham uma longa tradição de interferir nos assuntos internos de outros países, incluindo a orquestração de mudanças de regime, ainda existe um forte tabu nos Estados Unidos contra a interferência de generais americanos na política interna dos EUA. Esse foi um fator que contribuiu para explicar por que os esforços de Trump para reverter os resultados das eleições falharam. Além disso, a experiência de uma insurgência de direita ameaçando a democracia americana reforçou a abordagem cautelosa que o novo governo Biden adotou em relação a Jair Bolsonaro, apelidado por jornalistas de “Trump dos Trópicos”.
As reservas de Biden em relação ao governo Bolsonaro resultaram em uma série de gestos da Casa Branca destinados a enviar uma mensagem muito diferente às Forças Armadas brasileiras daquela de 1964: ou seja, que o governo dos EUA agora se opunha veementemente a qualquer tentativa dos militares brasileiros de subverter o processo eleitoral democrático no Brasil.
Para sublinhar a política de Biden em relação ao Brasil, a Casa Branca enviou Jake Sullivan, seu conselheiro de Segurança Nacional, para se encontrar com Jair Bolsonaro em 2021, quando Bolsonaro já havia iniciado uma campanha sugerindo que poderia haver fraude nas eleições presidenciais de 2022. Em seu encontro, Sullivan enfatizou o apoio do governo dos EUA ao processo eleitoral brasileiro.
Segundo Tom Shannon, ex-embaixador dos EUA no Brasil, “Sullivan e a equipe que o acompanhou saíram com a impressão de que Bolsonaro era totalmente capaz de tentar manipular os resultados das eleições ou negá-los, como Trump havia feito. Portanto, houve muita reflexão sobre como os Estados Unidos poderiam apoiar o processo eleitoral sem parecer que estavam interferindo.”
A administração Biden enviou então vários representantes ao Brasil. Em julho de 2021, o diretor da CIA, William Burns, visitou Brasília para instar o governo brasileiro a não questionar a integridade das eleições de 2022. No ano seguinte, o secretário de Defesa, Lloyd Austin, visitou o Brasil e transmitiu uma mensagem semelhante às Forças Armadas brasileiras.
Em 19 de julho de 2022, um dia depois de Bolsonaro se reunir com embaixadores estrangeiros no Brasil para enfatizar que considerava o processo eleitoral do país comprometido, o Departamento de Estado dos EUA emitiu uma declaração afirmando: “O Brasil tem um histórico sólido de eleições livres, justas e transparentes, e os Estados Unidos confiam que seu sistema eleitoral refletirá a vontade do povo nas eleições de outubro”.
O porta-voz do Departamento de Estado acrescentou: “As eleições conduzidas pelo sistema eleitoral e pelas instituições democráticas competentes e comprovadas do Brasil servem de modelo para nações do hemisfério e do mundo”.
A posição de Biden fazia parte de um movimento internacional mais amplo de governos progressistas e democráticos que enviaram sinais claros às Forças Armadas brasileiras de que, caso apoiassem as tentativas de Bolsonaro de reverter os resultados eleitorais, sofreriam isolamento internacional. Essas vozes legitimaram o processo eleitoral.
Telefonemas de Biden, do presidente francês Emmanuel Macron e de outros líderes mundiais para o presidente eleito Lula da Silva, minutos após o anúncio de sua vitória, consolidaram ainda mais sua posição, enquanto Bolsonaro tentava mobilizar suas forças para questionar o resultado eleitoral.
Embora Bolsonaro e seus principais apoiadores tenham ignorado os alertas de líderes internacionais, setores das Forças Armadas brasileiras não o fizeram. Sua decisão de não participar da tentativa de golpe de Estado dividiu as Forças Armadas e sabotou seu sucesso. A insurreição em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, fracassou. O Supremo Tribunal Federal condenou Bolsonaro por liderar uma organização criminosa que tentou um golpe de Estado e o sentenciou a 27 anos de prisão, juntamente com militares e civis conspiradores, que receberam penas menores.
Entre 1962 e 1964, no auge da Guerra Fria, os presidentes democratas John F. Kennedy e Lyndon Johnson agiram para minar a democracia e legitimar os esforços das Forças Armadas brasileiras para chegar ao poder. Em 2022 e 2023, outra administração democrata adotou uma postura completamente diferente, que ajudou a fortalecer a democracia no Brasil.

O Brasil na lista de Trump
A eleição de Jair Bolsonaro em 2018 provocou uma reação política intensa nos Estados Unidos entre imigrantes brasileiros e acadêmicos que pesquisam e lecionam sobre o Brasil.
Em 1º de dezembro de 2018, 200 ativistas se reuniram na Faculdade de Direito da Universidade Columbia em Nova York para fundar a Rede nos Estados Unidos pela Democracia no Brasil. A assembleia também votou pela criação do Washington Brazil Office (WBO), que “apoia e realiza atividades de advocacia, conhecimento e cooperação para fortalecer a sociedade civil, proteger os direitos humanos, promover o desenvolvimento socioeconômico sustentável e defender a democracia e o Estado de Direito”.
Ao longo dos quatro anos seguintes, centenas de ativistas em todos os Estados Unidos organizaram cerca de mil protestos, palestras, petições, declarações públicas e atividades de lobby no Congresso, denunciando as medidas autoritárias do governo Bolsonaro e defendendo a democracia brasileira, as ONGs progressistas e os movimentos sociais.
Com a proximidade das eleições presidenciais brasileiras de 2022, o Washington Brazil Office concentrou-se em dialogar com membros do Congresso dos EUA, bem como com representantes do Departamento de Estado, da Casa Branca e de organizações internacionais sediadas em Washington, D.C. A ação mais importante do WBO foi a organização de uma delegação de representantes de vinte ONGs e movimentos sociais brasileiros que viajaram à capital dos EUA para alertar políticos e formuladores de políticas sobre as sérias ameaças à democracia no Brasil.
Como resultado da visita e de outras articulações, o Senado dos EUA aprovou uma resolução afirmando que, caso as Forças Armadas brasileiras tentassem interferir nas eleições brasileiras, apresentaria uma legislação cortando toda a ajuda militar e econômica ao país.
Sem dúvida, por muitos anos, observadores políticos e historiadores debaterão o peso relativo das diferentes manifestações no Brasil e no exterior para dividir com sucesso as Forças Armadas e minar a tentativa de golpe.
No entanto, os perigos de 2022 e 2023 não foram evitados. Trump deixou claro que não tem escrúpulos em interferir em assuntos internos em toda a América Latina, desde seu apoio financeiro de 20 bilhões de dólares ao governo Millei na Argentina, às vésperas das eleições para o Congresso, até a intervenção de Trump na Venezuela.
As manifestações de Eduardo Bolsonaro e outros nos Estados Unidos, que condicionaram as tarifas de Trump sobre o Brasil a uma anistia para Jair Bolsonaro, são um lembrete de que o atual presidente dos EUA pode ser facilmente influenciado pelos assessores de extrema direita que o cercam. A possibilidade iminente de o governo Trump declarar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas e, em seguida, vinculá-los ao presidente Lula da Silva é mais uma forma pela qual o atual governo dos EUA tentará influenciar o resultado das eleições brasileiras.
Sem um aliado na Casa Branca, neste ano eleitoral será ainda mais difícil do que há quatro anos aproveitar a solidariedade internacional em defesa da democracia brasileira. Trump gostaria de consolidar governos de extrema direita em toda a América. O Brasil é o próximo país em sua lista.
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