Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

João Campos e igrejas no STF. Que medo!

“Faz-se necessário garantir a todas as associações religiosas de caráter nacional o direito de promover ações para o controle de constitucionalidade de leis ou atos normativos”, disse João Campos (PSDB-GO), deputado federal, na quinta-feira (5)

Checagem
6 de novembro de 2015
16:13
Este artigo tem mais de 10 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
Alerta! Perigo!
que medo m laranja

Uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou na quinta-feira (5) a Proposta de Emenda à Constituição nº 99 de 2011 (PEC 99/2011), que dá às entidades “religiosas de âmbito nacional” e àquelas representativas dos municípios o direito de propor ações diretas de inconstitucionalidade (ADI) e ações declaratórias de constitucionalidade (ADC) ao Supremo Tribunal Federal (STF). Com a aprovação no colegiado, o substitutivo proposto pelo relator Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) precisa do crivo do plenário para seguir ou não para o Senado Federal.

“Colocamos entidade de caráter nacional exatamente para explicar que não é uma igreja em si que vai ao Supremo, mas as associações”, explica o deputado federal Ronaldo Fonseca (Pros-DF). Ele presidiu a comissão especial – composta majoritariamente por parlamentares evangélicos – que analisou a PEC 99/2011, proposta de autoria do presidente da Frente Parlamentar Evangélica, o deputado João Campos (PSDB-GO). “Esse é um tema caro pra nós, pois, da forma como está na Constituição, sempre ficamos à deriva, na dependência de que outras instituições entrem na causa em nosso nome, mesmo quando se trata de leis que afetam a liberdade religiosa e de culto.”

Como exemplo de instituições que teriam acesso ao STF, ele cita a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil e a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, entre outras, mas acredita que o Supremo deverá decidir as entidades habilitadas para entrar com ADCs e ADIs. Segundo Fonseca, além das liberdades religiosas, “temas não diretamente ligados à religião” poderão ser alvo de ações por parte das entidades representativas das igrejas. “É o caso daquilo referente à família, que é um dos centros das nossas preocupações”, detalha, mencionando hipoteticamente o questionamento de eventuais leis sobre o aborto e o uso de drogas.

Para o professor de Direito da Universidade de Brasília, Mamede Said, nada impede que, caso aprovado o texto, entidades nacionais ligadas a religiões orientais ou de matriz africana também possam apresentar ações ao Supremo. “A discussão é caso a caso, em face do concreto. Claro que a interpretação do Supremo vai gerar um entendimento que tende a se estender para outras ações similares”, analisa. Segundo ele, o STF pode utilizar critérios para admitir ou não ações de algumas das instituições. Das entidades de classe e sindicais, por exemplo, a Corte costuma exigir a pertinência temática entre a ação, os efeitos da lei questionada e a atuação do autor da ação. Já os partidos políticos, entre outros, podem ajuizar qualquer tipo de ação.

Para o constitucionalista, o contexto em que se dá a aprovação da PEC na comissão especial diz muito por si só. “Essa proposta vem em um momento em que há uma mistura indevida entre religião e política, em que a bancada religiosa, especialmente a evangélica, se organiza de forma mais incisiva para ocupar espaços e tentar interferir nas mais diversas discussões. Há, porém, questões que transcendem o ponto de vista religioso e não podem ser analisados somente a partir da doutrina e dogmas de uma religião.”

Atualmente, de acordo com a Constituição, só podem entrar com ADIs e ADCs no Supremo o presidente da República, o Procurador-Geral da República, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, partidos políticos com representação no Congresso Nacional, confederações sindicais ou entidades de classe de âmbito nacional e as Mesas do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, das Assembleias Legislativas estaduais e da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF).

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 74 Datacenters, IA e o tal do apocalipse

Se a IA pode até não nos matar, os datacenters podem nos fazer pagar mais caro na conta de energia

0:00

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP

Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

|

Contas no Instagram trocam de nome para enaltecer juiz e simular apoio popular — prática conhecida como ‘astroturfing’

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

|

Professora mineira foi ouvida pelo presidente após reportagem da Pública motivar projetos de lei e investigação no MPF

Câmeras, IA e repressão unem candidatos dos estados com polícias mais letais do país

|

Esquerda, direita e extrema direita propõem mais tecnologia e inteligência na segurança, mas ignoram violência policial

Ministra Cármen Lúcia dá o tom do dia no STF: “não garantimos o rigor que deveríamos”

|

Sessão do Supremo para avaliar se Alexandre de Moraes seria investigado acaba com pedido de vista e troca de farpas