Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Contra o distritão, deputado do PSOL distorce dado

Parlamentar usou estudo para dizer que mudança eleitoral favoreceria reeleições na Câmara, mas dados não mostram isso

Checagem
22 de agosto de 2017
11:57
Este artigo tem mais de 6 ano
O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ), em discurso no plenário da Câmara (Foto: Lúcio Bernardo Junior/Câmara dos Deputados)

A partir do dia 30 de julho de 2018, deixamos de usar o selo “distorcido”. No seu lugar, o Truco passa a adotar o selo “Sem Contexto”, cuja definição é: “A afirmação traz informações ou dados corretos, mas falta contexto que é importante para a compreensão dos fatos”. Saiba mais sobre a mudança.

“Se [o distritão] estivesse válido na última eleição, em 2014, 92% dos deputados teriam sido reeleitos. No sistema proporcional, foram reeleitos um pouco mais de 50%.” – Glauber Braga (PSOL-RJ), deputado federal, em pronunciamento na Câmara dos Deputados no dia 16 de agosto.

Uma comissão especial da Câmara dos Deputados aprovou, em 10 de agosto, o texto-base da reforma política, que propõe mudanças no sistema eleitoral. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 77/2003 tinha votação em plenário prevista para terça-feira (22) e precisava de pelo menos 308 votos favoráveis para seguir para o Senado. No modelo proposto pela PEC para as eleições de 2018 e 2020, conhecido popularmente como “distritão”, os candidatos a deputado federal eleitos seriam aqueles com mais votos em cada estado. Hoje, o sistema segue o modelo proporcional, no qual os eleitos são definidos pelo quociente eleitoral – os votos em todos os candidatos e na legenda são somados e depois distribui-se o número de vagas proporcionalmente entre as coligações.

Antes de a proposta ser votada, os parlamentares discutiram a reforma no plenário da Câmara. O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) avaliou que 92% dos deputados antigos – ou seja, aqueles cujo mandato se encerrou em 2014 – teriam sido reeleitos nas últimas eleições se o sistema do distritão já estivesse em vigor naquela época. A frase leva a crer que o distritão diminui severamente a possibilidade de renovação da Câmara dos Deputados.

O Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – analisou a veracidade da afirmação do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) e considerou a frase distorcida. O número representa a porcentagem de deputados atuais que teria sido eleita se houvesse o distritão na eleição passada. O deputado utiliza um dado correto, mas faz uma interpretação errada da estatística.

Procurada pelo Truco, a assessoria de imprensa de Braga afirma que “os dados foram divulgados pela CBN, em uma entrevista do cientista político e doutorando Márcio Carlomagno”. A reportagem localizou uma entrevista do professor da Universidade Federal do Paraná à rádio CBN Londrina, em 4 de julho. Carlomagno afirma que apenas 8% a 10% dos eleitos para os cargos de vereador, deputado estadual e deputado federal não foram os mais votados, segundo seus estudos. Portanto, cerca de 10% dos parlamentares foram alçados ao cargo por meio dos chamados “puxadores de voto”, explica Carlomagno à CBN. A análise levou em conta as eleições de 2008, 2010, 2012 e 2014.

A interpretação que Braga faz deste dado está incorreta. O professor não afirma em nenhum momento da entrevista que 90% dos deputados que atuaram até 2014 se reelegeriam na disputa de 2014 caso o distritão fosse aplicado. Nem todos os parlamentares com mandato até 2014 tentaram a reeleição.

Os números apontados por Carlomagno são similares aos localizados pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) em 15 de agosto. A simulação feita pelo Diap demonstra que 92% é a porcentagem de atuais deputados eleitos no sistema proporcional que conseguiriam o cargo se estivesse em vigor, em 2014, o modelo do distritão. O estudo não se refere, portanto, à quantidade de deputados que se reelegeu na época, mas ao total de deputados que atuam hoje na Câmara e teriam conseguido se eleger em 2014, com o distritão.

O Diap mostra que 45, ou 8,77% dos atuais deputados não teriam conquistado seus cargos. Assim, 91,22% dos atuais deputados seriam eleitos pelo distritão. O estudo mostra inclusive quais deputados entrariam na Câmara e quais seriam substituídos. De acordo com o levantamento, o número de partidos representados na Casa diminuiria de 28 para 27. Perderiam cadeiras o PV (-3), o PHS (-3), o PPS (-2), o PR (-2), o PRB (-2), o PSDC (-2), o SD (-2), o PSDB (-1), o PP (-1), o PROS (-1), o PEN (-1) e o PTC (-1). Teriam conseguido eleger mais deputados o PMDB (+5), o PSD (+4), o DEM (+2), o PC do B (+2), o PSC (+2), o PT (+2), o PDT (+1), o PSOL (+1), o PRP (+1) e o PT do B (+1).

Em seu discurso, Glauber Braga alegou ainda que “foram reeleitos pouco mais de 50%” dos deputados. Ele acertou o porcentual dos que se reelegeram em 2014: 56,3% dos parlamentares mantiveram o cargo após o pleito, segundo a Agência Câmara.

Informada sobre o resultado da checagem, a assessoria de imprensa do parlamentar agradeceu a reportagem e disse que vai analisar os dados encontrados. Em nota enviada à Agência Pública, a assessoria disse que “a gravidade da apreciação da matéria é a mesma: os atuais parlamentares estão escolhendo um modelo que facilitaria as suas próprias reeleições já que 92% dos atuais se elegeria em 2014 se o modelo fosse naquela época o distritão”.

Atualização (22/08, às 17h15): Corrigimos o trecho que traz a resposta enviada pela assessoria do deputado Glauber Braga.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Quer entender melhor? A Pública te ajuda.

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia também

Programa político do PSDB, que defendeu o parlamentarismo

Representação feminina não é alta em todos os países parlamentaristas

Por

Programa do PSDB usa dado falso ao dizer que há forte presença política das mulheres em todos os lugares onde o sistema é adotado

Modelo de urna eletrônica adotada na disputa de 2014

Distritão desperdiça votos, atrapalha renovação e dificulta eleição de minorias

Por

Cientistas políticos ouvidos pela Pública e estudos confirmam problemas apontados pelo deputado Alessandro Molon

Notas mais recentes

Projeto que pune aborto como homicídio é denunciado na Comissão Interamericana


PT quer ‘suavizar’ PL que equipara aborto a homicídio, mas texto ainda punirá mulheres


CPAC: Evento do instituto de Eduardo Bolsonaro tem patrocínio de apoiadora de ato golpista


Governador de Goiás, Ronaldo Caiado, defende câmeras em pessoas no semiaberto e não em PMs


“Mercantilização do luto”: PSOL pede fiscalização de cemitérios privatizados de SP


Leia também

Representação feminina não é alta em todos os países parlamentaristas


Distritão desperdiça votos, atrapalha renovação e dificulta eleição de minorias


Faça parte

Saiba de tudo que investigamos

Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Artigos mais recentes