Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Post falso acusa pai de Boulos de manter imóvel desocupado

Publicação no Facebook menciona casa localizada na Vila Mariana, em São Paulo, mas construção não é da família, já foi demolida e será substituída por edifício

Checagem
10 de maio de 2018
17:54
Este artigo tem mais de 8 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
José Cícero da Silva/Agência Pública
A família do presidenciável Guilherme Boulos, coordenador do MTST, não tem qualquer ligação com o imóvel
A família do presidenciável Guilherme Boulos, coordenador do MTST, não tem qualquer ligação com o imóvel

“Existe um imóvel de 400 m², instalado em um terreno de 720 m², desocupado, na Rua Paula Ney, 446, Vila Mariana-SP, avaliado em mais de R$ 2.800.000. A construção, da década de 70, faz parte do espólio do pai de um rico médico infectologista. Um legítimo membro da burguesia, da elite. Esse médico, por acaso, é o Dr. Marcos Boulos, pai do ‘sem-teto’ Guilherme Boulos, o socialista nascido em berço de jacarandá que vos manobra.” – Trecho de postagem publicada em perfil não-oficial de Alexandre Frota no Facebook no dia 1º de maio.

Falso

Após o incêndio que provocou o desabamento de um edifício ocupado por sem-teto em São Paulo no dia 1º de maio, passou a circular pelas redes a informação de que o médico Marcos Boulos, pai do pré-candidato do PSOL à presidência da República e coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, seria dono de uma casa desocupada na Vila Mariana, bairro da zona sul da capital paulista. Versões do texto foram replicadas por sites como Jornal da Cidade Online e Notícias Brasil Online e por um perfil criado no Facebook por apoiadores do ator Alexandre Frota, recém-filiado ao Patriotas. Uma visita ao endereço citado e a consulta à certidão do imóvel revelaram que, além de ter sido demolido para dar lugar a um novo prédio, o local nunca foi de propriedade de familiares de Boulos. Por isso, o Truco – projeto de fact-checking da Agência Pública – classificou a postagem como falsa.

A publicação aponta o número 446 da Rua Paula Ney como o endereço da casa. No local, nossa reportagem encontrou o stand de vendas de um empreendimento da incorporadora Mitre Realty, que erguerá na área um prédio residencial. Pelo serviço Google Street View, entretanto, é possível encontrar imagens das fachadas dos três imóveis que antes ocupavam o terreno – um deles, o de número 446. O fato de ele não mais existir já indica que o post não é verdadeiro.

Onde antes ficavam as três casas, incluindo a de número 446, agora funciona o stand de vendas do empreendimento

O Truco também foi buscar informações sobre o histórico da casa. Em sua certidão, o primeiro registro dá conta de que, em 1966, os proprietários eram o casal libanês Philippe Boulos, comerciante, e Mona Boulos, dona de casa. Em 1969, Philippe faleceu e, em 1975, a Justiça determinou que o imóvel ficasse para a viúva e seus três filhos, os arquitetos Seme Philippe Boulos e Felipe Boulos Junior e a advogada Kátia Boulos. Os herdeiros passaram a ser donos da propriedade em 2007, cinco anos após a morte da mãe, quando outra sentença judicial estabeleceu que a parte de Mona fosse partilhada entre eles – à época, todos eram casados.

Em janeiro de 2018, Seme, Felipe e Kátia venderam o imóvel pelo valor de R$ 8.400.135,46 à construtora Mitre Vila Mariana Empreendimentos, que, três meses depois, em abril, juntou sua matrícula à de outras duas casas, também derrubadas para dar origem ao terreno onde será construído o novo edifício. Nos registros não há menções ao nome do infectologista Marcos Boulos, professor-titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e pai de Guilherme. O post, portanto, citou outra informação falsa.

Em suas redes sociais, Guilherme Boulos já havia classificado a postagem como fake news, sem entrar em detalhes ou apresentar provas disso. Após analisarmos a certidão da propriedade e visitarmos o local, questionamos sua assessoria de imprensa sobre a relação entre o psolista e os Boulos apontados como ex-donos do imóvel da rua Paula Ney. A resposta foi de que, apesar do sobrenome igual, não há grau de parentesco entre as duas famílias. Essa informação também foi confirmada ao Truco pela família Boulos que era dona do imóvel.

José Cícero da Silva/Agência Pública
Anna Beatriz Anjos/Agência Pública

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 229 Quem está falando de política com a Gen Z? – com Lau Schultz

Criadora de conteúdo, Lau Schultz, fala sobre desafios para comunicar sobre política com o eleitorado jovem brasileiro

0:00

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia também

Corrente exagera ao comparar remunerações de professores e políticos

|

Piso de professores é maior - e o auxílio a deputados é menor - do que os valores utilizados na comparação

Notas mais recentes

Quem é Fernando Cerimedo, preso em investigação sobre ataque a tiros à ex-companheira


MPF move ação contra Renan e MBL por xingar indígenas do Pará no Instagram


Corrida eleitoral: Campanha começa com Lula em Minas Gerais, Flavio desmarca Juiz de Fora


Corrida Eleitoral: sabatinas eleitorais continuam enquanto Congresso volta de recesso


Senado dos EUA aprova Daniel Perez antes de aval do Brasil para vaga de embaixador


Leia também

7 verdades e 5 mentiras de correntes sobre Joaquim Barbosa


Corrente exagera ao comparar remunerações de professores e políticos


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso

Banco do Nordeste e Itaú financiam R$ 44 milhões para soja em área de conflito no Maranhão

|

Investidora paulista consegue autorizações de desmatamento e sinal verde na Justiça em disputa contra extrativistas
Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas