Agência de Jornalismo Investigativo

A pedido do governo dos EUA, telegrama secreto de 2005 identifica grupos simpatizantes e propaganda bolivariana 

8 de julho de 2011
13:00
Este texto foi publicado há mais de 11 anos.

Um telegrama secreto de 31 de maio de 2005 assinado pelo ex-embaixador americano no Brasil, John Danilovich, responde a perguntas feitas pelo Departamento de Estado sobre presença e atividade de grupos bolivarianos no Brasil.

Entre as perguntas enviadas feitas pelo Departamento de Estado para serem respondias pela embaixada estão: “Quais são os laços do governo com grupos radicais, partidos anti-sistêmicos, organizações esquerdistas extremistas e/ou terroristas, ect?”, “Qual a reação do governo à presença de grupos bolivarianos?”, “Há procedimentos de segurança da fronteira com a Venezuela?” e “Qual é o status da colaboração militar com o govenro venezuelano?”

Segundo a mensagem, um relatório de 2001 já apontava a organização formal de um grupo composto por oficiais de estado ligados ao PT chamado “Grupo de Ação Símon Bolívar”.  “De acordo com o documento [o relatório de 2001], um dos objetivos do grupo era de unir esforços das massas dentro do Brasil e das iniciativas do PT com outras lutas de classe do continente”, explica  o despacho de 2005, segundo o qual não haviam mais informações sobre o grupo até então.

Outro grupo de tendência bolivariana apontado no telegrama é o “Círculo Bolivariano de São Paulo”. Segundo a mensagem, o movimento marcou presença em um evento na USP patrocinado e coordenado pelo Programa Venezuelano de Divulgação Cultural e Social. “Os objetivos do grupo são desconhecidos. Também é desconhecido o nível, se há algum, de apoio do governo venezuelano ao grupo”, explica a mensagem.

Segundo um outro relatório de mesma natureza, desta vez de 2003, apontava relações entre o MST e o governo chavista. “De acordo com relatório de outubro de 2003, membros da principal organização do movimento sem terra do Brasil, o MST, viajou para a Venezuela, aparentemente sem conhecimento do governo brasileiro, onde declara-se que eles encontraram-se com o presidente venezuelano Hugo Chávez e também com grupos indígenas e fazendeiros”, relata o telegrama secreto.

Os diplomatas fazem um adendo ao relatório, comentando que antes de deixar o Brasil, o ex-embaixador da Venezuela aqui, Vladimir Villegas teria viajado pelo país e pode ter coordenado o contato do governo de Chávez com o MST. A mensagem também relata que Villegas teria mantido encontros fora de Brasília com membros do PT e do MST entre maio e junho de 2003. “Durantes estes encontros, as discussões de Villegas centraram-se na explicação e tentativa de construir apoio para o movimento Bolivariano da Venezuela”, descreve a mensagem.

De acordo com os diplomatas americanos, Villegas tomou o lugar do general Alberto Esqueda Torres como embaixador no Brasil exatamente porque seu antecessor era “passivo” na defesa da revolução bolivariana de Chávez e não se esforçou o suficiente em estabelecer melhores laços com o PT.

O telegrama sublinha a posição oficial do governo brasileiro diante do pensamento pan-sulamericano que já havia declarado que o Brasil não é um país bolivariano. “De fato, a falta de maior conexão histórica do Brasil com o movimento bolivariano e um significante desconhecimento completo e falta de interesse em Bolívar [Símon Bolívar] no público geral do Brasil sugere pouco impulso dentro do Brasil para os esforços de chabes em apropriar a figura histórica ou contorcer seus princípios para encaixarem-se aos fins de Chávez”, analisa o telegrama.

Os documentos são parte de 2.500 relatórios diplomáticos referentes ao Brasil ainda inéditos, que foram analisados por 15 jornalistas independentes e estão sendo publicados nesta semana pela agência Pública. LEIA MAIS

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