Defesa do traficante mexicano Jesus Vicente Zambada Niebla acusa promotores de tentar esconder provas alegando ameaça à seguranla nacional

Defesa do traficante mexicano Jesus Vicente Zambada Niebla acusa promotores de tentar esconder provas alegando ameaça à seguranla nacional

8 de dezembro de 2011
04:52
Este texto foi publicado há mais de 9 anos.

Os advogados do narcotraficante Jesus Vicente Zambada Niebla, filho de um dos cabeças do poderoso Cartel de Sinaloa, alegam que a justiça americana está alegando ameaça à segurança nacional para esconder provas.

Zambada Niebla foi preso no México em março de 2009, extraditado para os EUA em fevereiro de 2010, e agora enfrenta acusações de tráfico de drogas na corte federal em Chicago, onde está detido na prisão Metropolitan Correctional Center.

Ele alega que o governo americano firmou um pacto com a liderança do Cartel de Sinaloa garantindo imunidade aos chefes em troca de informações contra outras organizações narcotraficantes.

No começo de novembro, os advogados de Zambada Niebla entraram com uma ação pedindo para não serem excluídos de conversas entre os promotores e o juiz do sobre provas qualificadas como material confidencial.

Os promotores querem que a defesa não tenha acesso a essas provas.

Os advogados acreditam que essas provas dizem respeito a uma testemunha-chave no caso. Trata-se do advogado mexicano Humberto Loya Castro, que teria servido de intermediário entre a liderança do Cartel de Sinaloa e agentes do governo americano.

O caso

Zambada Niebla é filho de Ismael “El Mayo” Zambada Garcia, um dos líderes do Cartel de Sinaloa – um grande importador de armas e exportador de drogas sediado no México. O grande chefão do cartel é Joaquin Guzman Loera, conhecido como “El Chapo”, que escapou “milagrosamente” de uma prisão de segurança máxima no México em 200,  dias antes da decisão que poderia extraditá-lo para os Estados Unidos.

Desde então, el Chapo construiu um dos mais poderosos cartéis de droga no México.

O governo americano nega ter oferecido qualquer acordo com garantia de imunidade a Zambada Niebla. Mas os promotores confirmaram que outro membro graduado do Cartel de Sinaloa, o advogado mexicano Loya Castro, cooperou como fonte do DEA por cerca de 10 anos, enquanto trabalhava para a organização.

Documentos legais do governo americano confirmam também que Loya Castro ajudou a construir uma relação direta de cooperação entre agentes do DEA e Zambada Niebla – antes de sua prisão em 2009.

Loya Castro é descrito nas apelações de Zambada como “um confidente íntimo de Joaquin Guzman Loera (Chapo)”.

Querendo manter o segredo

Em setembro, o governo americano apresentou uma ação evocando a Lei de Procedimentos de Informações Classificadas, cujo objetivo é manter longe do publico informações que colocariam em risco a segurança nacional.

A lei, decretada há 30 anos, funciona na prática como uma cortina de fumaça nos casos criminais de conteúdo sigiloso, encobrindo detalhes associados a operações clandestinas do FBI ou da CIA.

O ato requer que a inclusão de qualquer prova sigilosa em um caso seja avisada antes à corte para que esta determine se as provas serão admitidas.

Assim, afirmam os advogados de Zambada Niebla, os promotores estariam assegurando que a exclusão da defesa das discussões sobre evidências que supostamente poderiam ameaçar a segurança nacional. A defesa não teria chance de argumentar e não ficaria sabendo quais são as provas apresentadas para o juiz – mesmo aquelas com “intermédio” de Loya Castro.

O intermediário

A defesa acredita que há evidências consistentes do acordo entre o Cartel de Sinaloa e o governo americano – a maioria delas partindo da relação de Loya Castro com a polícia e os agentes de inteligência americanos.

Uma delas é a descrição de Fernando Gaxiola, advogado de defesa de Zambada Niebla, que manteve reuniões com Loya Castro no início do processo. Desde conta, por exemplo, o seguinte trecho:

“O senhor Loya Castro disse que agentes americanos afirmaram que em troca de informações sobre organizações de tráfico de drogas rivais, o governo americano concordou em extinguir o processo contra ele e a não interferir nas atividades relacionadas ao tráfico de drogas do Cartel de Sinaloa, nem processar (…) a liderança do cartel. Os agentes teriam dito que isso teria sido aprovado por altos oficiais e promotores federais”.

Castro teria, segundo a defesa, informado a Zambada Niebla sobre o acordo, que colaborou em prover as informações requeridas a Castro, que as repassaria aos agentes.

“Os agentes disseram a Loya Castro que deveriam ser notificados antes de qualquer encontro comel Chapo. Eles garantiram que não o seguiriam e não interfeririam nas reuniões para que ele se mantivesse calmo e obtivesse o máximo de informações possíveis. O Sr Loya Castro informou el Chapo que os agents sabiam dos encontros”, diz o testemunho no processo.

“O senhor Loya Castro disse ter entregue aos agents informações importantes provenientes de Chapo Mayo e Zambada Niebla, que levaram à prisão de grandes chefões das organizações rivais”

Mas os promotores afirmam que a versão de Loya Castro dos acontecimentos não bate com o quadro pintado pelos advogados de Zambada Niebla.

O caso judicial tem chamado a atenção pela ousadia da estratégia pela defesa. Afinal, o traficante mexicano está alegando ser protegido do governo americano para justificar uma ação criminal.

Clique aqui para ler a reportagem original, em inglês.

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