Agência de Jornalismo Investigativo

Depoimento de C. G, designer de 27 anos

17 de janeiro de 2012
16:05
Este texto foi publicado há mais de 11 anos.

“Ele começou a ser estúpido no jeito de falar, mas eu achei que era uma fase porque ele estava desempregado. Em uma das brigas que ficou demais, ele me chamou de vadia, de vagabunda, disse que eu era uma folgada, uma mimada.

Aí eu disse para ele pegar as coisas e ir embora. Ele explodiu e veio pra cima de mim falando: ‘você cala sua boca sua filha da puta que eu enfio a mão na sua cara’. Eu travei. Sabia que aquilo estava muito errado. As brigas foram piorando e passei a dormir no quarto com a porta trancada enquanto ele dormia na sala.

Um dia, começamos uma discussão. Não me lembro de muita coisa. Estava me arrumando para ir trabalhar. Aí falei: ‘Não quero continuar com isso. Vou trabalhar e depois a gente conversa’. Entrei no quarto e fechei a porta sanfonada. Ele meteu o pé na porta. Chutou até arrebentar. Veio para cima, eu cai na cama, botei o joelho e ele caiu por cima de mim. Aí perguntei: ‘Você vai me bater agora? É isso? e fui tentar levantar. Ele segurou o meu braço e grudou no meu pescoço. Quanto mais eu me debatia para sair mais ele segurava e falava ‘agora você vai ficar quietinha e vai me ouvir’.

Quando percebi que quanto mais eu me debatesse pior seria, resolvi parar. Ele foi soltando. Eu ainda fiquei sentada na cama pensando ‘isso não aconteceu, não foi real’. Ele saiu. Eu não conseguia achar a chave da porta, chorava muito.

Passei o trinco e liguei para o meu pai, pedi para ele ir me buscar. Neste meio tempo ouvi a porta abrir. Botei a cara na janela e disse: ‘Você não entra mais nessa casa. Eu chamei meu pai, você acabou de me bater’. Ele disse ‘eu quero ver quem vai me impedir de entrar na minha casa’. Começou a chutar e esmurrar a porta. Aí eu achei melhor abrir, peguei a bolsa e quando ele entrou eu saí.

Sentei na calçada e fiquei esperando meu pai, tremendo, aí eu me dei conta de que o cara estava sentado na minha sala acendendo um cigarro e ligando a TV depois de tudo que tinha feito. Chamei a polícia e esperei por quase uma hora na frente de casa pela viatura ao lado do meu pai. Abri a porta para os policiais e ele estava no sofá.

O policial perguntou: ‘ela está alegando que você a agrediu, é verdade?’ e ele: ‘eu não encostei a mão nela’. O policial questionou por que eu tinha colocado aquele cara para dentro da minha casa. Me parecia algo como ‘a culpa é sua que colocou este traste para dentro’. Me lembro que teve uma hora que eu disse olha, deixa eu esclarecer uma coisa: a culpa do que aconteceu é dele, não é minha! Meu pai também fez um comentário neste sentido e eu respondi ‘é, sou masoquista, esperei até a hora de ele me bater! Na delegacia meus sentimentos foram desabando, num misto de amor pelo companheiro que ele era antes e indignação pelo que tinha acontecido. Quando me falaram que ele seria preso por causa de uma pensão não paga, eu desaguei. ‘tadinho ele vai ser preso’. A versão que ele contou aos amigos e a família foi a de que eu dei dado uma paulada na cabeça dele porque estava louca de ciúmes. Larguei a casa do jeito que estava e mudei de cidade. Tinha medo de que alguém pagasse a fiança e ele viesse atrás de mim. Aqui eu estou segura porque é uma cidade grande, mas o medo e as sequelas duram para sempre”.

 

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