Agência de Jornalismo Investigativo

Relatório denuncia casos de quenianas operadas à força após dar à luz

17 de setembro de 2012

Quando foi para o hospital dar à luz, Amani estava preocupada com muitas coisas. No seu país, o Quênia, a taxa de mortalidade materna é altíssima. Além disso, durante o pré-natal, Amani recebera a  notícia  de que tinha HIV. Os médicos lhe disseram que a maneira mais segura de ter o bebê sem transmitir o vírus seria por cesárea. Assim, quando foi levada na cadeira de rodas para a sala de cirurgia, ela pensava que estava em boas mãos. Que engano. Durante a cesariana, sem que ela soubesse ou desse seu consentimento, Amani foi esterilizada.

Pior: ela só descobriu o que aconteceu por acaso. “Depois do parto eu levei meu bebê para uma clínica”, diz. “A enfermeira pediu para examinar o meu útero, e durante o exame uma colega perguntou a ela se a ligação das minhas trompas estava cicatrizando. Eu não sabia de nada. Achava que eles haviam me operado apenas por causa do parto”.

O caso de Amani não é o único. Uma novo relatório da ONG Iniciativa Africana de Mídia e Gênero detalha 40 casos de mulheres do Quênia que foram esterilizadas de maneira forçada porque eram soropositivas.

O relatório é chocante; algumas mulheres descobrem depois que seus maridos assinaram a autorização médica, permitindo a operação irreversível de ligação de trompas. Outras têm que assinar os documentos durante o estresse do parto, e só muito depois descobrem o que estavam permitindo.

Diversas entrevistadas dizem ter sido mal tratadas pelos enfermeiros que deviam ajudá-las.

Nekeska deu à luz em 2008 no Hospital Geral de Kakamega, no oeste do Quênia. Ali, sofreu diversos abusos. O médico lhe disse que “é um crime para mulheres com HIV ter filhos” e, portanto, ela só poderia dar à luz no hospital se concordasse em ser esterilizada. Nekeska resistiu, negando-se a assinar a autorização, mas foi esterilizada assim mesmo.

Muitas das mulheres afirmam que caíram no ostracismo e foram expulsas dos seus lares pela dupla pecha de serem inférteis e terem HIV. O marido de Amani morreu de Aids em 2004, deixando-a só com a filha. “Nos últimos anos tive três namorados, mas rompi os relacionamentos. Se eu casasse, seria abandonada assim que eles descobrissem que não posso ter filhos”, diz.

De acordo com a Pesquisa Indicador de AIDS no Quênia 2007, uma em cada dez grávidas no país tem HIV. Crianças com menos de 15 anos representam 16% das pessoas contaminadas; a grande maioria foi infectada pela mãe. No entanto, o risco de contaminação da mãe para o bebê pode ser reduzido a zero através do uso de anti-retrovirais durante a gravidez e o parto, além da adoção da cesariana.

Envolvimento de ONGs

Em janeiro, um canal queniano de TV denunciou que a organização americana Project Prevention estava pagando para que mulheres com HIV aceitassem implantar métodos anticoncepcionais intrauterinos.

O governo queniano reagiu fortemente à notícia. “É importante deixar claro que mulheres com HIV têm o direito de ter filhos se desejarem. Ter HIV não lhes retira este direito”, afirmou o Ministro da Saúde Peter Anyang’ Nyong’o.

Agora, o relatório da Iniciativa Africana de Mídia e Gênero envolve tanto funcionários do serviço de saúde local como ONGs internacionais na denúncia. Alguns relatos citam as ONGs Médicos sem Fronteiras e Marie Stopes, organização britânica que trabalha com saúde reprodutiva.

Betty descobriu que tinha HIV em 1993. Ela havia dado à luz seu quarto filho quando médicos da família foram visitá-la em sua casa e, segundo ela, pediram que os acompanhasse até uma clínica onde seria atendida por médicos da ONG Marie Stopes.  Betty aceitou, na esperança de receber assistência financeira da ONG. Lá, ela conta ter recebido alguns documentos, mas “ninguém me disse o que eu estava assinando”, diz. “Eu pensei que estava apenas me registrando”. Depois da cirurgia, recebeu a notícia de que os médicos da comunidade a haviam marcado como alguém que deveria ser esterilizada por ser soropositiva e não ter marido ou fonte de renda.

A ONG Marie Stopes respondeu às acusações afirmando que “o processo descrito por Betty é absolutamente contrário às políticas, valores e práticas da Marie Stopes sobre o consentimento informado. Levamos muito a sério essas denúncias”. A ONG diz que alguns dos casos trabalha com “organizações que enviam clientes para a Marie Stopes no Quênia para fortalecer suas políticas e práticas de consentimento informado, e é algo que buscamos”.

 

Reportagem do Bureau of Investigative Journalism. Leia o original, em inglês, aqui. Acesse aqui o relatório “Sem escolha: experiências de esterilização forçadas e coercivas de mulheres com HIV no Quênia”.

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