Buscar
Reportagem

Desfecho de caso Elbrick irritou Kissinger

Para Departamento de Estado, libertação de Cláudio Torres da Silva, após 7 anos de prisão, era “leniente” com "terrorista" que participou do sequestro do embaixador americano

Reportagem
7 de abril de 2013
22:00
Este artigo tem mais de 13 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Em 1976, Cláudio Torres da Silva, ex-guerrilheiro do MR-8, foi solto após cumprir sete anos de prisão por ter sequestrado, em 1969, o embaixador americano Charles Elbrick em troca da libertação e exílio de presos políticos como os líderes estudantis Luís Travassos, José Dirceu  e Vladimir Palmeira.

Condenado pela justiça militar a 30 anos de prisão – após ser barbaramente torturado –, Cláudio foi libertado em setembro daquele ano por bom comportamento, após recursos de seus advogados à justiça militar. Mas a libertação irritou o Secretário de Estado americano Henry Kissinger, que escreveu um comunicado diretamente ao embaixador dos EUA no Brasil, John Crimmins, pedindo que interferisse.

Chamando Cláudio Torres de “terrorista”, Kissinger escreveu um despacho diplomático em 18 de novembro dizendo que, “como Torres foi condenado por um específico ato de terrorismo e não somente com base em subsersão política, estamos curiosos sobre os motivos para reduzir a sentença e sua libertação”. Assim, Kissinger instruiu a embaixada e o consulado do Rio de Janeiro a questionar as bases para a soltura.

A resposta demorou alguns dias, e foi insatisfatória na visão dos americanos. O assessor político da embaixada havia ligado para procurador-geral do Superior Tribunal Militar, Ruy de Lima Pessoa, “explicando que seu questionamento fora motivado pela compreensível e contínua preocupação sobre o resultado do caso Elbrick, bem como pela notória defesa dos EUA por medidas rigorosas contra atos específicos e comprovados de terrorismo internacional, como o sequestro de diplomatas”, segundo um telegrama da embaixada de 3 de dezembro. Ele usou a ocasião, diz o documento, para esclarecer que “a insistência” dos EUA na ação “firme” em casos “específicos e comprovados de terrorismo” não era “de maneira nenhuma” inconsistente com a sua “igualmente firme” defesa da adesão por todos os países às garantias e salvaguardas afirmadas na Declaração Universal dos Direitos humanos.

Ao telefone, Ruy Lima Pessoa explicou não ter detalhes, apenas que Torres da Silva fora posto em liberdade condicional por bom comportamento – não houve redução da sentença. “Se esse fosse o caso, ele adicionou, Torres seria sujeito a cuidadoso monitoramento pelas forças de segurança, com limitações em sua liberdade de movimento e a exigência de se reportar regularmente à polícia”, garantiu o procurador-geral.

A resposta não agradou. Em um despacho de 22 de dezembro, o Subsecretário de Estado para assuntos interamericanos, Charles W. Bay, e Louis Douglas Heck, da Secretaria de Combate ao Terrorismo, afirmavam: “parece que o procurador-geral não entendeu a intenção do questionamento do conselheiro político”. Para eles, a comunciação anterior fora um tanto branda. “Estamos mais do que apenas curiosos sobre a libertação de Torres da Silva”, advertiam.

O documento encerra com uma ordem ao embaixador Crimmins: “Nós agradeceríamos qualquer coisa que você puder fazer para deixar claro para os brasileiros que estamos preocupados pela leniência dada a este terrorista que sequestrou um embaixador americano”.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 228 O fracasso do Estado em proteger mulheres – com Juliana Brandão

Coordenadora de gênero e raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública analisa as falhas de crimes contra a mulher

0:00

Leia também

Retrato em branco e preto

|

Em telegrama secreto de 1976, embaixador americano qualifica governo militar de "paranoico" e aliado a "uma elite temerosa das massas"

Para justificar assistência militar à ditadura, EUA diziam que tortura era exceção

|

Em 76 e 77, Departamento de Estado liberou US$ 661 mi em créditos para compras de armas pelos militares; para embaixador, dinheiro não fomentava “práticas repressivas”

Notas mais recentes

Corrida Eleitoral: sabatinas eleitorais continuam enquanto Congresso volta de recesso


Senado dos EUA aprova Daniel Perez antes de aval do Brasil para vaga de embaixador


Indústria de ultraprocessados tenta impedir combate à obesidade, diz diretor-geral da OMS


Escala 6×1, PEC da Segurança, minerais raros: o que o Congresso pode votar durante eleição


Corrida eleitoral: registro de candidaturas termina nesta semana


Leia também

Retrato em branco e preto


Para justificar assistência militar à ditadura, EUA diziam que tortura era exceção


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Governador de Goiás Ronaldo Caiado no escritório do Google em Nova York

Candidato à Presidência, Caiado transformou Goiás em laboratório de leis para Big Techs

|

Projetos que interessam ao Google e Amazon avançam em Goiás sem debate, cada um aprovado em menos de 48 horas

Deputado Alfredo Gaspar e senador Flávio Bolsonaro durante evento do PL

Após pressão por uma vice mulher, PL fecha chapa apenas com homens

|

‘Michele está fazendo comida para o marido’, responde Damares Alves sobre ausência de ex-primeira dama

Eleições: legislação não é o suficiente para barrar conteúdos de IA nas redes sociais

|

Decisões do TRE-BA determinam que Meta retire vídeos com IA do Instagram, mas cópias seguem na rede

Foto mostra plataforma de trem da Estação Luz, no centro de SP. Estação integra a linha 12 da CPTM.

As denúncias por trás dos acidentes e da greve de trens em São Paulo

|

Funcionários apontam problemas elétricos em linha que pegou fogo, falta de treinamento e de pessoal

Terras raras brasileiras estão no radar do Departamento de Defesa dos EUA

|

BNDES incentiva produção para transição energética, mas empresas firmam laços com a indústria militar norte-americana

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), discursou na convenção partidária e oficializou sua candidatura.

Lula aposta no combate ao feminicídio para fortalecer apoio entre eleitoras em 2026

|

Apesar de acenar para as mulheres, nenhuma mulher, nem mesmo Janja, havia sido escalada para discursar no evento

Estudo denuncia como contribuinte brasileiro subsidia Coca-Cola em “mágica tributária”

|

Big Food inflacionaria preço de xarope da Zona Franca de Manaus e faria uso de royalties fantasmas para evitar impostos

Partido Missão: o projeto de poder de Renan Santos e do MBL

|

Como o grupo estrutura a formação militante defendendo pautas que flertam com a ruptura democrática