Agência de Jornalismo Investigativo

O geógrafo José Raimundo Ribeiro investigou os problemas relacionados à insegurança alimentar no dia a dia da classe trabalhadora em São Paulo

“Eu gosto de pensar que a fome é o “outro” da alimentação. Então, quando alguém diz que a fome é uma ingestão abaixo de calorias, ela está querendo nos dizer que a gente come apenas calorias, e acho isso insuficiente”, explica o geógrafo José Raimundo Ribeiro, nessa entrevista à Agência Pública.

Crítico do conceito de “insegurança alimentar”, a que chama de “eufemismo para não falar de fome”, ele publicou em 2015 tese de mestrado sobre o tema: “Alienação das práticas alimentares e urbanização: uma análise da alimentação da classe trabalhadora em São Paulo”.

Na pesquisa, o geógrafo investigou como a fome se realiza na vida das pessoas em São Paulo. Segundo ele, o fenômeno da fome se urbanizou junto com o país. “A gente não precisa buscar no sertão nordestino a imagem do faminto. O estado de São Paulo, em números absolutos, só está atrás da Bahia, segundo o último levantamento do IBGE, na quantidade de pessoas em situação de insegurança alimentar.”

 “Chega quase a ser uma obviedade: ganhar mal é comer mal. Às vezes, fico assustado com as pesquisas que demoram anos e meses para provar uma coisa que é quase elementar”, disse o geógrafo José Raimundo Ribeiro

O que a gente pode entender por fome? O que está por trás dos dados?

José Raimundo Ribeiro – Um dos primeiros desafios, quando você vai tentar entender a questão da alimentação, dos problemas relativos à alimentação, está no próprio conceito de fome. Então, a gente tem hoje um conceito como o de “insegurança alimentar”, que, em muitos sentidos, é um eufemismo para não se falar de fome. Às vezes, você está usando a ideia de uma insegurança alimentar grave ou moderada para não falar o nome que aquilo tem, que é fome. E, se você vai atrás de como esses conceitos foram pensados e como eles são publicados e utilizados, você percebe que tem uma disputa por trás desses conceitos. Você tem a ONU, por exemplo, chamando de “insegurança alimentar”, ou tentando produzir dados acerca de insegurança alimentar, considerando apenas o acesso à quantidade de calorias. Todo o resto da alimentação se perde em uma tentativa de codificar a fome dessa forma. O Banco Mundial vai usar a linha de extrema pobreza, que a própria FAO, organização da ONU, diz que é insuficiente, porque tem gente que está acima da linha de pobreza e passando fome. Mais recentemente – e isso foi um esforço que começou nos Estados Unidos com o Departamento de Agricultura – houve uma tentativa de criar uma compreensão da fome e da insegurança alimentar a partir da percepção das pessoas. Então, houve a criação de um questionário, e a partir dele um conjunto de perguntas que iam indicando a gravidade da situação, porque esse é um fenômeno que tem gradações, ele não é um fenômeno “chapado”, ou a pessoa está com fome ou não está. E são esses questionários que produzem, inclusive hoje, os dados oficiais sobre a insegurança alimentar no Brasil.

Como funciona no Brasil?

José Raimundo Ribeiro – O IBGE aplica esses questionários a partir da sua Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio [Pnad]. E, a partir da quantidade de questões a que as pessoas respondem “sim”, eles vão avaliar se esse domicílio está em insegurança alimentar ou não. Se essa insegurança alimentar é mais acentuada — grave –, no Brasil vai ser considerada fome; se ela for uma insegurança mais leve, fica apenas como insegurança alimentar.

Isso parte da percepção das pessoas, o que é um dado bom, porque é interessante que quem sente fome, ou quem passa por esse fenômeno, seja a pessoa que diga que está passando por isso. Mas o Josué de Castro, geógrafo e médico, estava no Recife nos anos 1930 chamando atenção para um fenômeno que ele denominou “fome oculta”: as pessoas comem todos os dias e podem até ter a sensação de que estão alimentadas, mas isso não tirava as pessoas desse lugar de uma “fome oculta”, uma fome que levava a óbitos mais cedo nessa parcela da população, que causava um número de doenças específicas muito maiores nessa parcela da população. E isso é algo que uma pergunta para a pessoa, com relação à percepção dela, não vai captar. Então, acho que não há uma metodologia perfeita para a gente quantificar esse fenômeno. Mas ao que a gente tem que estar sempre atento é: o que está se falando quando se diz que existe ou não existe fome em um certo lugar, o que essas pessoas estão chamando de fome?

E o que seria?

José Raimundo Ribeiro – Eu gosto de pensar que a fome é o “outro” da alimentação. Então, quando alguém diz que a fome é uma ingestão abaixo de calorias, ela está querendo nos dizer que a gente come apenas calorias, e acho isso insuficiente. Isso é muito precário. Com isso, você consegue diminuir os dados em relação à fome. Se você compara as pesquisas dos Estados Unidos e da ONU acerca de insegurança alimentar, a ONU vai dizer que no mundo desenvolvido existem apenas 25 milhões de pessoas em insegurança alimentar. Esse método que pega a percepção das pessoas nos Estados Unidos vai apontar para um número quase três ou quatro vezes maior só nos Estados Unidos. Então, há uma disputa muito grande em torno dessa quantificação, e ela vai aparecer em vários momentos, inclusive aqui no Brasil, para determinar se a fome acabou ou não.

Para explicar um pouco como no Brasil se mede insegurança alimentar: tem um questionário que o IBGE faz com 14 questões, e conforme as pessoas vão respondendo “sim”, há uma gradatividade; quanto mais “sim” elas respondem a essas questões, vão entrar em um desses graus de insegurança alimentar.

As perguntas começam com um grau menos intenso; ou seja, se você tem receio de que falte dinheiro para você comprar alimento no fim do mês, esse é um tipo de insegurança alimentar; você viver com esse receio de o orçamento não ser suficiente. E elas chegam até a perguntas como: “Você passou um dia inteiro sem comer porque não tinha dinheiro?”. O que demonstra que a pessoa está, de fato, passando fome. O que é importante dizer é que essa tabela é uma adaptação da versão americana, feita pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos na tentativa de captar melhor o fenômeno da fome em um país desenvolvido. Lá eles usam como período de referência para as perguntas um ano. No Brasil, usa-se apenas três meses. Então a pessoa pergunta: “Nos últimos três meses você teve dificuldade?”, e não “no último ano”, o que certamente já diminui a quantidade de pessoas que entram nesses graus de insegurança alimentar. Além disso, nos Estados Unidos, eles convencionaram a insegurança média e grave como fome, e no Brasil não consegui encontrar nenhuma explicação. Apenas a insegurança alimentar grave é considerada como fome. Então, uma pessoa pode vir a responder nesses questionários que ela chegou a pular refeições neste período de três meses e isso não ser caracterizado como uma situação de fome no Brasil.

Rute, retratada no especial “Fome Oculta“: vive do bolsa família e de recolher alimentos do lixo em São Paulo

Como é que a fome e a extrema pobreza se conectam?

José Raimundo Ribeiro – Um ponto de partida importante é entender que, no mundo em que a gente vive, especialmente na realidade brasileira, um país urbanizado, o acesso à produção de alimentos é quase impossível. As pessoas não produzem os alimentos que elas comem. O acesso aos alimentos é um acesso monetarizado. Mesmo no campo, a maior parte dos alimentos que as pessoas consomem, elas compraram por via monetária. Se a gente pensar a realidade das cidades, que é quase 80% da população brasileira, todos os grupos de alimentos, a aquisição desses grupos de alimentos, mais de 90% é pela via monetária. Então isso faz com que, evidentemente, a questão da renda impacte diretamente a questão da alimentação. Chega quase a ser uma obviedade: ganhar mal é comer mal. Às vezes, fico um pouco assustado com as pesquisas que demoram anos e meses para provar uma coisa que é quase elementar. Agora, dentro desse “ganhar mal” tem um universo muito grande. Por vezes, parece que você consegue traduzir tudo a partir de uma faixa de renda. E isso faz parte da estratégia de alguns organismos. O Banco Mundial quer nos fazer crer que a linha de extrema pobreza de US$ 1, US$ 1,25 por dia – eles vão atualizando – é o que vai dizer se as pessoas passam fome ou não, e o que a gente percebe é que, na maioria das vezes, essas linhas estão abaixo disso, ou seja, tem muita gente acima dessa linha de extrema pobreza que continua enfrentando dilemas ou mesmo passando fome.

Como isso aparece na sua pesquisa?

José Raimundo Ribeiro – O que eu tentei trabalhar um pouco na minha pesquisa também era diferenciar como é que a fome se realiza na vida das pessoas, porque não é um processo idêntico para todo mundo. É diferente dependendo do lugar que você ocupa na cidade, a forma como você se relaciona com os alimentos e com a sua alimentação. Não era uma tentativa de criar uma gradação do que é melhor e pior, porque seria até estranho dizer que é mais fácil passar fome no centro do que na periferia da cidade. O sentido não é esse da análise. O sentido era de alguma forma revelar como são muito diferentes para quem vive na cidade os desafios de conseguir se alimentar adequadamente. Para alguém que mora na periferia e tem algum trabalho no centro e passe duas a três horas por dia no transporte público, a questão era que energia essa pessoa tem para preparar os seus alimentos, para ir ao supermercado e fazer as melhores escolhas nesse supermercado?, ou a que supermercado ela tem acesso. Os grandes números, por vezes, escondem essas especificidades. Você pega um número que, às vezes, é para o Brasil ou para a metrópole como um todo, e ele não revela certas especificidades. Quando você vai acompanhar uma família de periferia que vai atrás de alimentos seja no supermercado, seja em um fim de feira, isso, muitas vezes, o grande número não mostra. É uma pesquisa qualitativa que vai lhe permitir olhar para essas especificidades, e isso vai lhe falar sobre as diferentes formas de lidar com a fome em um lugar como São Paulo.

“Parece que, ao se opor a alguma coisa relacionada ao Bolsa Família, você é contra este programa. Não é disso que se trata”

Como você avalia o Bolsa Família?

José Raimundo Ribeiro – Quando o Fome Zero é pensado enquanto projeto, ele se apresenta como uma política de segurança alimentar multifatorial. Então, havia no projeto até mesmo a questão da reforma agrária como item central a ser implementado. Quando esse projeto vira programa – e depois alguns pesquisadores até vão chamá-lo de estratégia, porque na verdade ele é um conjunto de programas –, o que você observa é que os recursos do Fome Zero foram quase todos para o Bolsa Família. Essa confusão que as pessoas fazem entre Bolsa Família e Fome Zero não é à toa, não é insignificante, ela revela o que o programa virou. Na minha pesquisa peguei dados entre 2003 e 2010, e os valores relativos à promoção do acesso aos alimentos: 80% dos valores iam para o Bolsa Família. Banco de alimentos, restaurantes populares, programa de educação alimentar, nenhum desses chegava a 1% do valor total do programa. Se por um lado o Bolsa Família teve um impacto expressivo na alimentação das pessoas, e é inegável isso – de fato, ele tirou de uma situação de extrema miséria e de fome mais pronunciada e conseguiu levar essas pessoas para um outro lugar – por outro é muito importante reconhecer que ele não foi suficiente. Ele é significativo, mas não é suficiente. Acho que às vezes a gente tem um clima ou um contexto que parece interditar o debate. Parece que, ao se opor a alguma coisa relacionada ao Bolsa Família, automaticamente você é contra este programa. Não é disso que se trata. Trata-se de falar “até onde a gente chega com um programa apenas de transferência de renda e com valores relativamente baixos”.

Uma de nossas reportagens mostra uma senhora de 70 anos que ganha Bolsa Família e faz costura. E ela tem quatro netos para criar. Como é que se enquadra um cenário como o dela nessa lógica?

José Raimundo Ribeiro – O caso que vocês citam de divisão entre uma avó e os netos é algo comum nas periferias. No final das contas, o valor que essas pessoas têm por dia para destinar à alimentação é muito pouco. Se você for colocar outros gastos que incluem o acesso aos alimentos, como, por exemplo, o gasto de transporte, às vezes inviabiliza algumas alternativas. Então, quando fui fazer um trabalho de campo no Grajaú, por exemplo, cheguei com a minha ingenuidade e perguntei por que as pessoas não pegam ônibus para ir até Santo Amaro, para comer no restaurante popular, que era R$ 1. As pessoas riam e falavam assim: “Olha, o que vou pagar de passagem de ida e volta, mais o restaurante popular, faço a comida aqui no bairro, dou um jeito”. Isso depois, fazendo as contas, era maior que o orçamento que essas pessoas tinham para o dia inteiro delas.

Então, o que acho que seria importante explicitar em um momento como esse: me parece que a gente chegou nos limites dessa política [Bolsa Família], e era o momento de ter dito: “Olha, chegamos nos limites, é hora de fazer mais”. Na verdade, quando a gente chegou nos limites dessa política, tentaram nos dizer que as coisas tinham sido resolvidas. E uma mudança de contexto político-econômico nacional e internacional preocupa neste momento porque vários dos resultados que foram conseguidos pouco a pouco desde o início dos anos 2000 podem se perder rapidamente. Então, se o que as pessoas têm para ter alguma segurança alimentar é o Bolsa Família e só, isso pode ser cada vez menos de agora em diante. Outras políticas poderiam ter dado uma segurança maior nesse sentido, uma perenidade maior para essas políticas.

Eu fico pensando o que seria, por exemplo, se os centros de abastecimento conectassem o produtor com o consumidor sem a quantidade de intermediários que existem nesse processo. Então isso seria algo mais perene. É possível fazer uma série de críticas aos restaurantes populares, mas em muitos sentidos eles aliviam um problema imediato, que é ter acesso a um almoço. E, quando você vai em um restaurante popular, você percebe que não é somente a população de rua, aquela população mais empobrecida, que está usando o restaurante popular. Então esse tipo de política poderia ter sido priorizado, ou pode ser priorizado para dar mais segurança.

Você pode falar um pouco dessa crítica sobre os restaurantes populares e o Bom Prato, da pesquisa que diz que quase 80% das pessoas que comem neles comem sozinhas, de eles terem esse aspecto meio de prisão?

José Raimundo Ribeiro – Quando comecei a pesquisar a questão da alimentação e da fome em São Paulo, era o início do programa Fome Zero, e um ponto que estava sendo muito veiculado como uma das estratégias importantes era a questão dos restaurantes populares. Aqui no estado de São Paulo não houve uma parceria com o governo federal, porque eram de partidos adversários, mas o governo do estado de São Paulo criou uma rede chamada Bom Prato, e eu entendia que ir aos Bom Prato me aproximaria de alguma forma das pessoas que estavam em situação de insegurança alimentar ou mesmo passando fome. E acho que a ida ao restaurante popular traz muitas contradições para a gente. Porque, se de um lado é um prato de comida com arroz, feijão, uma verdura, uma carne por R$ 1 – o que é praticamente impossível de você conseguir fora dessa rede – ao mesmo tempo, enquanto experiência, enquanto apropriação daquele momento, é muito pobre. Então o que quero dizer com isso? Acho que perpassa sempre na conversa sobre a fome o fato de que os famintos, ou aqueles que precisam de ajuda, devem simplesmente agradecer a todo e qualquer tipo de ajuda que recebem ou auxílio que recebem. Então é quase que a funcionalização completa do comer. Ele está ali para se alimentar, ou até menos, para se nutrir e ir embora.

Em algumas unidades do Bom Prato, é possível você ver que quem está servindo está sendo acelerado por um ritmo de produção de pratos tão grande que, por vezes, o alimento vai para fora do prato, cai na bandeja. Então, o que é ser servido dessa forma? O que é ir para uma mesa e se alimentar sozinho, com pessoas que você não conhece, em um lugar que não parece ter sido pensado para você se alimentar? É uma mesa, uma cadeira, não tem a menor decoração, não necessariamente é um espaço agradável, o barulho da cozinha está com você. Nesse sentido, que apropriação as pessoas têm deste momento de se alimentar, do comer? Muitas vezes, o debate vai regredindo tanto porque os desafios são tão grandes que a gente esquece que essas pessoas têm direito de se apropriar dos alimentos, mais do que simplesmente de se nutrir de calorias e nutrientes, que elas merecem, como todos nós, ter uma refeição que faça sentido, que seja um momento de sociabilidade. E na história, na sociologia, na antropologia e na geografia existem inúmeros trabalhos que falam da riqueza deste momento, que é o momento de se alimentar. E, para mim, ir nos restaurantes populares era sempre ver o oposto disso, era quase que uma funcionalização completa. Ao mesmo tempo, quando você vai para a periferia e conversa com as pessoas que não têm um prato de comida, parece que o acesso ao restaurante popular é algo muito importante. Então, acho que ele revela uma contradição do momento em que a gente vive, que é: como criticar a sobrevivência sem ter a sobrevivência garantida? Esse é um desafio para nós, brasileiros. A gente olha para o lado e vê que a sobrevivência não está garantida. Mas como fazer uma crítica e propostas e proposições que não sejam a reivindicação da sobrevivência pura e estritamente?

E essas pessoas com quem conversou no restaurante popular diziam o que nesse sentido mais íntimo da relação com o comer?

José Raimundo Ribeiro – Para mim, o interessante era perceber muito mais os incômodos do restaurante popular e conseguir perceber que mesmo em casas ou habitações muito precárias era mais fácil ter uma relação com o alimento com um pouco mais de apropriação. O que quero dizer com isso? É muito comum em um restaurante popular você perceber a pessoa incomodada com a pessoa que está comendo ao lado porque é um morador de rua, porque é uma pessoa que ela não conhece, porque come de um jeito que ela entende que não é o certo, não usa o garfo, a colher da maneira correta. É muito comum nas filas, quando você vai perguntar para a pessoa porque ela escolheu comer ali, ela dizer única e exclusivamente o preço: “Olha, eu vim aqui porque é R$ 1, não tem outro motivo para eu estar aqui”. Então tem um esvaziamento de sentido muito grande na fala. Já nas entrevistas que fiz, seja no Grajaú ou no Brás, na casa das pessoas, muitas vezes, mesmo com a precariedade do ambiente onde elas realizavam a alimentação, tinha ali algum grau de apropriação daquele momento. Então, é muito comum as mães dizerem que elas gostam de comer com os filhos porque é o momento de conversa privilegiado, o momento em que elas sabem o que está acontecendo na vida dos filhos – mesmo em uma casa em que você chega e percebe que o número de cadeiras é menor na sala do que o número de moradores daquele domicílio. Significa que a alimentação ali é feita com alguma precariedade. É um no sofá, é alguém de pé, alguém sentado no chão, na entrada. Mas, mesmo assim, algum grau de apropriação. De toda forma, acho que isso é uma coisa importante de indicar. Acho que tem um debate sobre alimentação que tem que ir também para esse lugar, como as pessoas estão matando a sua fome, como as pessoas estão se alimentando. E muitas vezes o espaço em que elas habitam diz muito sobre isso. Então, o que é viver em um cortiço e cozinhar em um cômodo que é também o seu quarto, a sua sala, que não tem nenhuma divisão, que tem uma precariedade enorme? A gente espera mesmo que essas pessoas vejam no cozinhar algo interessante? É mais difícil para elas conseguirem isso. Então, acho que tem um pouco esse lugar do espaço que elas ocupam.

Quando se iniciou o debate sobre o Bolsa Família, uma imagem que rodou muito na opinião pública era a do famélico do Nordeste. Aquela cena que impacta. E São Paulo parece que tem uma questão diferente. Queria que você falasse dessa diferenciação até estética da questão da fome.

José Raimundo Ribeiro – A construção dessa imagem do faminto é complexa. E entendo que muitas vezes passa até por uma espetacularização da miséria e da fome. Por vezes é isso que chama atenção. Às vezes, o que parece ser a fome são somente os casos mais graves de inanição. O Josué de Castro, em um processo de definir o conceito de fome, que acho que é uma das contribuições mais importantes da obra dele, usou a língua inglesa para diferenciar, porque em inglês têm duas palavras: starvation, para aquele que está morrendo de fome, que é a inanição, e hunger, que é a fome, todo um outro espectro que a gente poderia classificar também como fome. Também lá nos anos 1940, o Josué de Castro está dizendo que há uma construção de uma imagem de que a fome está sempre em outro lugar, que está sempre no sertão nordestino, ou na África, ou é lá longe, ela nunca está aqui com a gente. E o processo dele de descoberta da fome foi muito interessante, porque em um conto literário, como médico de uma fábrica, ele vai relatar como começou a se perguntar por que as pessoas ficavam sempre doentes e voltavam sempre para a enfermaria. Uma hora ele percebeu que o problema é que elas não estavam comendo. Ele vai dizer: “A doença delas era fome”. Nos anos 1930 ele vai fazer um inquérito acerca das condições da classe operária no Recife e vai começar a levantar: “Bom, vamos ver o que eles comem, o quanto do quê”. Para ele os resultados foram assustadores. Ele falou: “Bom, então agora entendi por que essas pessoas morrem mais cedo: elas passam fome”.

Como leio isso? O Josué chamando atenção: para além do gravíssimo caso das pessoas que morrem de fome – e isso é cada vez menor no nosso país, mas ainda existe –, para além desse gravíssimo caso, a gente tem que olhar para as pessoas que passam uma vida inteira com fome. E isso é muito preocupante, porque elas passam a vida inteira com fome sem ter uma percepção, elas mesmas, de que estão com fome. Porque existem de alguma forma – não sei se a estratégia é a melhor palavra – maneiras de lidar com isso. Então você tem relatos, por exemplo, de mães que, mesmo quando em um certo momento do mês ou do ano têm mais comida, elas não dão toda essa comida disponível para os filhos, para eles não se acostumarem com essa comida a mais, porque elas sabem que, em um momento mais difícil, não poderão dar essa mesma quantidade. Então, de alguma forma, o corpo dessas pessoas vai se acostumando com uma quantidade de alimentos que é muito menor do que a que a gente julga necessária ou razoável. Claro que é muito difícil criar uma linha: o que é, então, a quantidade de alimentos necessária ou razoável? Portanto eu volto naquele argumento: a percepção das pessoas é importante, mas não é o único ponto para a gente saber se uma pessoa passa fome ou não. Tem mais elementos.

Como fica o debate sobre essas questões?

José Raimundo Ribeiro – Acho que é importantíssimo neste momento trazer o debate para onde a fome está hoje. A gente teve, no Brasil, um processo de urbanização da nossa sociedade: hoje aproximadamente 80% da população, de acordo com o IBGE, vive em cidades. O mesmo aconteceu com a fome. Se você pegar os dados de insegurança alimentar no Brasil hoje, se não me engano 78%, próximo de 80%, também estão na cidade. Então, o fenômeno da fome se urbanizou junto com o país. A gente não precisa buscar no sertão nordestino a imagem do faminto. E mais: o estado de São Paulo, em números absolutos, só está atrás da Bahia, segundo o último levantamento do IBGE, na quantidade de pessoas em situação de insegurança alimentar. Proporcionalmente, frente à população total do estado, evidentemente é menor em São Paulo do que na Bahia, mas aqui o que a gente tem, a meu ver, é um fenômeno complexo. A gente tem que saber que, em números absolutos, tem muita gente passando fome em São Paulo. Acho que a gente tem que olhar para esses dados sempre ao mesmo tempo, com a complexidade que eles mostram, senão a gente fica reproduzindo essa imagem de “onde tem fome?”, “onde tem seca?”. Aí você trouxe um fenômeno natural para justificar a existência da fome, na guerra, uma catástrofe de ordem natural, um furacão, alguma coisa do tipo, e não olha para as relações sociais, para as relações econômicas que vão produzindo e reproduzindo a fome nesses lugares. Então, o lugar que acumula riqueza é também o lugar que, ao mesmo tempo, acumula uma massa de miseráveis, que vão lidar com a fome. É importante falar dessa simultaneidade, senão a gente fica com uma visão muito parcial, e sempre deixando para a frente ou para o outro o papel de acabar com a fome.

Como a questão de gênero aparece nesse debate?

José Raimundo Ribeiro – Acho que a questão de gênero atravessa o debate sobre a fome de muitas formas. Algumas delas são mais evidentes. Uma delas que me vem à mente agora é o fato de que, em geral, são as mulheres que são responsáveis pelos filhos. Muitas vezes, quando a coisa desanda, quem fica com os filhos são as mulheres. São elas que vão criar a força necessária para alimentar, ou vão ter que tirar de algum lugar a força necessária, para alimentar todas essas crianças. Tem aí um peso enorme. Agora, mesmo quando o domicílio tem o homem e a mulher, socialmente cabe às mulheres todo o trabalho doméstico. Os homens ajudam muito pouco. Então, todo o trabalho de adquirir os alimentos, que não é pouco trabalho, significa estender a sua jornada indo ao supermercado, indo até a feira ou indo até o lugar onde você vai receber uma cesta básica, o que, em geral, é feito pelas mulheres. O preparo dos alimentos também não é algo elementar. Às vezes é uma hora, duas horas diárias preparando os alimentos. E isso é muito interessante. Entrevistando mesmo pessoas que não passam fome, a questão do preparo dos alimentos todos os dias é algo que massacra essas pessoas. Não ter dinheiro para comer fora não é uma questão de luxo, é se livrar, pelo menos em alguns momentos, de um trabalho cansativo, repetitivo. Porque também não é uma cozinha maravilhosa em que a pessoa está ali se apropriando daquele momento e tendo uma relação com os alimentos superbacana, não. Então, é muito recorrente ouvir: “Eu cozinho porque não tem jeito, se tivesse outro jeito, eu de vez em quando não iria cozinhar”. Então, de novo, as mulheres é que fazem isso. Como estava dizendo, é muito comum na fala a transmissão da mãe para a filha. Os filhos homens vão aos poucos não sendo responsabilizados. Claro que não dá para generalizar, e tem momentos em que os filhos homens ajudam, mas é muito mais comum ouvir a fala de que é a filha que vai ter que aprender a cozinhar, a filha que vai ter que aprender a fazer a compra. Também, quando falta o alimento, para quem as pessoas primeiro olham dentro do domicílio? Para as mulheres. Então, elas que são responsáveis pela gestão desse pouco dinheiro que tem que virar comida. Um último ponto importante que muitos estudos mostram é, em geral, a ordem de quem come primeiro quando tem pouca comida. E as mães ficam por último. A diferença interna ao domicílio pesa contra a mulher. O pai de família come primeiro, as crianças comem antes da mãe, a mãe come por último. A mãe, por vezes, pula refeição ou come o que sobrou das crianças. Então, de muitas formas, a questão de gênero atravessa a alimentação e a fome.

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