Apoie!

Seja aliada da Pública

Seja aliada

Agência de Jornalismo Investigativo

Em plano de governo, candidato diz que setor foi responsável por ampliar a devastação na Amazônia em 27% em um ano; não há estudos que comprovem

5 de setembro de 2018
Marcello Casal jr/Agência Brasil
O candidato Guilherme Boulos, em entrevista para a EBC: dado sobre desmatamento citado em plano de governo é impossível de provar
O candidato Guilherme Boulos, em entrevista para a EBC: dado sobre desmatamento citado em plano de governo é impossível de provar

“O agronegócio amplia o desmatamento da Amazônia em 27% – num único ano.” – Guilherme Boulos (PSOL), no plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Impossível provar

O plano de governo de Guilherme Boulos (PSOL) critica a concentração de riqueza nas mãos de poucos, os lucros dos banqueiros e a expansão territorial do agronegócio, mesmo em anos de crise financeira e política no país. Em um dos trechos do documento, o candidato cita que, em um único ano, o setor do agronegócio ampliou em 27% o desmatamento da Amazônia. Não há levantamentos oficiais que corroborem a afirmação dita por ele. Os números disponíveis mostram que o agronegócio é um dos principais responsáveis pelo desmatamento, mas isso só pode ser detectado adequadamente se for considerado um período maior do que o de um ano. Logo, o dado foi classificado como impossível de provar.

A assessoria do candidato não indicou a fonte da informação ao Truco – projeto de fact-checking da Agência Pública. Não é possível saber se ele estava se referindo a um ano específico ou à média realizada a partir de um determinado período de observação. De acordo com dados da Coordenação-Geral de Observação da Terra (OBT) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na Amazônia Legal cresceu 27% de 2015 a 2016. Pode ser que o candidato tenha se referido a esta estatística, mas o dado não é o mais recente – nem trata especificamente de quanto desse total foi ampliado pelo agronegócio. No período entre 2016 a 2017, o desmatamento anual diminuiu 12%, caindo de 7.893 quilômetros quadrados para 6.947 quilômetros quadrados. No acumulado de 1988 a 2017, 428.721 quilômetros quadrados foram desmatados – uma área um pouco maior que a do Paraguai, que tem 406 mil quilômetros quadrados.

O Truco pediu ao Ministério do Meio Ambiente os dados sobre quais atividades surgiram após o desmatamento das florestas nos últimos três anos, nas áreas devastadas. O órgão respondeu que, por diversos fatores relacionados à preparação de uma área produtiva (desde questões fundiárias, regularidade ambiental, investimentos e tempo de produção), não é comum que a área desmatada em determinado ano seja convertida em algum uso agropecuário já no ano seguinte. Logo, não há como descobrir o quanto isso foi ampliado ou não pelo agronegócio, como citou Boulos.

É possível saber apenas como o agronegócio ocupa as áreas algum tempo depois de desmatadas. Os dados mais recentes de que a pasta dispunha sobre isso eram do projeto TerraClass Amazônia, desenvolvido pelo Centro Regional da Amazônia (CRA), em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O levantamento observou como o solo de áreas desmatadas entre 2004 e 2013 estava ocupado em 2014. No acumulado para aquele período, 68,9% de toda a área devastada na Amazônia havia sido convertida em algum tipo de pastagem (63%) ou agricultura (5,9%). Do total, 22,8% foi ocupado por vegetação secundária e 8,5% foi para a categoria outras classes – formada por áreas não observadas (4%), áreas urbanas (0,8%), mineração (0,2%), mosaico de ocupações (2,1%), reflorestamento (0,4%) e outros (1%).

A pesquisa mostra ainda o que aconteceu no período de um ano após a derrubada da floresta: cerca de 33% do desmatamento observado em 2013 foi convertido em pastagens em 2014 e menos de 0,5% em agricultura. Além disso, 18,5% da área de floresta derrubada ficou tomada por vegetação secundária e 48,5% foi classificada na categoria outras classes.

Os porcentuais de ocupação pelo agronegócio variam em relação a cada ano considerado, mas, para as terras desmatadas entre 2008 e 2012, nunca ficaram abaixo de 49%. No desmatamento acumulado para o período de 2004 a 2007, 49,17% foi transformado em pastagens e agricultura, enquanto 17,76% foi convertida em vegetação secundária e 33,36% em outras classes. “Esse dado corrobora a premissa de que a mudança do uso do solo não é precisamente avaliada observando-se apenas um ano de intervalo”, explicou o Ministério do Meio Ambiente.

Desmatamento ilegal

Outra informação mais recente sobre as atividades responsáveis pelo desflorestamento no Brasil foi produzida pela ONG Forest Trends, em setembro de 2014. Segundo o estudo “Bens de Consumo e Desmatamento”, 90% do desmatamento da Amazônia para agricultura (pecuária e soja) ocorreu de forma ilegal entre 2000 a 2012.

Já o relatório “Estados das Florestas do Mundo” da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) constatou que mais de 80% dos desmatamentos no Brasil, entre 1990 a 2005, foram convertidos em terra de pastagem. “Na Amazônia, em particular, a produção do agronegócio para os mercados internacionais, como por exemplo, as pastagens extensivas, cultivo de soja e plantações de palmeiras foi identificado como o principal fator de desmatamento”, explica o documento.

O agronegócio é considerado um ator importante no desmatamento nas pesquisas mencionadas. Em 2007, mais de 60% das áreas desmatadas na Amazônia foram destinadas a pastos e aproximadamente 8% à agricultura, segundo o estudo “Desmatamento na Amazônia (1970-2013)”, elaborado pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG) em 2015. As fontes dos dados citados pertencem às obras “Desmatamento na Amazônia: indo além da “emergência crônica” do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e do Levantamento de informações de uso e cobertura da terra na Amazônia da Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa).

Ao ser comunicada sobre o resultado da checagem, a assessoria de imprensa de Boulos não enviou contestação no prazo determinado.

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Comentários de nossos aliados

 Ver comentários

Esta é a área de comentários dos nossos aliados, um espaço de debate para boas discussões sobre as reportagens da Pública. Veja nossa política de comentários.

Carregando…
Você precisa ser um aliado para comentar.
Fechar
Só aliados podem denunciar comentários.
Fechar

Explore também

Exagerado, distorcido ou discutível

Quantos partidos existem, estão no Congresso ou podem ser criados?

6 de dezembro de 2016 | por

PEC da reforma política prevê clausula de barreira, medida que pode causar a redução do número de legendas

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, em viagem ao Espírito Santo

Ministro da Defesa distorce dados sobre militares no déficit da Previdência

17 de fevereiro de 2017 | por

Investigamos a afirmação de Raul Jungmann, que calculou a despesa gerada pelos militares em apenas R$ 13 bilhões

Correto, mas falta contexto

80% da produção agrícola vem do G20?

22 de junho de 2016 | por

Senador acerta taxa, mas erra ao dizer que o grupo é formado por 20 países – dados também não representam a realidade atual; veja a nossa checagem

Mais recentes

Vídeo falso diz que eleições de 2014 foram fraudadas

27 de outubro de 2018 | por

Vídeo de suplente de deputada coloca em dúvida eleições de 2014 com dados irreais e um "especialista" não identificado

Em economia, Bolsonaro cita dados falsos e Haddad subestima e acerta

26 de outubro de 2018 | por , e

Em 4 frases checadas, presidenciável do PSL usou informações falsas; já Haddad citou número inferior ao real e fez uma afirmação correta

Alunos da rede pública de ensino do Distrito Federal realizam atividades: candidatos têm propostas distintas para a área

Haddad exagera e Bolsonaro erra em frases sobre educação

26 de outubro de 2018 | por e

Números foram superestimados por candidato do PT, enquanto presidenciável do PSL citou informações falsas

Login para aliados

Participe e seja aliado.

Fechar