Em mais uma investida contra a ciência e contra o clima, o governo Donald Trump barrou a participação de cientistas governamentais americanos na primeira reunião do ano do mais importante painel global de pesquisadores sobre as mudanças climáticas. Conforme reportagens de jornais dos Estados Unidos, Katherine Calvin, cientista-chefe da Nasa (a agência espacial norte-americana), não pôde viajar para Hangzhou, na China, para participar do encontro, que marca o início da produção do próximo grande relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).
Calvin é uma das líderes de um dos grupos de trabalho responsáveis pelo relatório e sua presença era esperada na reunião, na qual estão sendo discutidos temas como cronograma, orçamento e principais caminhos de investigação.
Sem ela, os trabalhos desse grupo foram conduzidos nesta terça-feira (25) pela outra presidente do grupo, a pesquisadora da Malásia Joy Jacqueline Pereira, e por um dos vice-presidentes. Ainda não está claro se Calvin será definitivamente impedida de participar e substituída. Os cientistas que fazem parte da administração do IPCC e da presidência dos grupos de trabalho são indicados pelos governos de seus países e eleitos por seus pares.
“Em 21 anos em que eu participei dos trabalhos do IPCC, eu nunca tinha visto isso de barrar cientistas”, disse à Agência Pública a pesquisadora brasileira Thelma Krug, que foi vice-presidente do IPCC por oito anos.

O IPCC, órgão da ONU composto por representantes de 195 países, é a principal autoridade científica no mundo quando o assunto é a emergência climática. Seus relatórios de avaliação compilam o estado da arte da ciência climática e são peças fundamentais para o desenvolvimento de políticas públicas e para municiar as grandes negociações internacionais sobre o tema, como a próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que acontecerá em novembro no Brasil.
Esses documentos são produzidos em ciclos a cada cinco ou sete anos, em um enorme esforço global, com milhares de cientistas trabalhando voluntariamente para reunir e avaliar todo o conhecimento científico de ponta produzido ao redor do mundo sobre o status da crise climática, seus riscos e impactos, além das principais estratégias de redução das emissões de gases do efeito estufa e de adaptação às consequências do aumento de temperatura global.
As informações reunidas pelo órgão são ainda mais cruciais no atual momento da corrida contra o aquecimento da Terra: ano passado foi o mais quente do registro histórico e, pela primeira vez, ultrapassou 1,5 °C de aquecimento na comparação com a média pré-industrial. Esse é o limite considerado pela ciência como o mais seguro para evitar ainda mais impactos de eventos climáticos extremos.
Foi uma das avaliações do IPCC que mostrou, por exemplo, que os riscos de eventos extremos, ondas de calor e as ameaças à vida na Terra, inclusive a nossa, crescem muito a cada 0,5 °C de aquecimento.
A reunião em Hangzhou, que teve início na segunda-feira (24) e termina nesta sexta-feira (28), é o ponto de partida para que os diferentes grupos de trabalho do IPCC deem início à produção dos documentos do sétimo relatório do órgão. Há uma demanda para que o próximo relatório saia a tempo de servir de base para o próximo balanço global que vai avaliar a efetividade das ações que os países estão adotando contra as mudanças climáticas.
Esses balanços (GST, na sigla em inglês), feitos no âmbito das negociações climáticas da ONU, medem quão longe estamos de conter o aquecimento global e indicam o que precisa ser feito para preencher as lacunas. O primeiro GST foi lançado em 2023, na COP28, em Dubai, e mostrou que é preciso começar a colocar um fim no uso dos combustíveis fósseis e acelerar muito o corte de emissões de gases de efeito estufa.
O próximo balanço sai em 2028, daí a importância de ter ao menos uma parte do novo relatório do IPCC até lá para servir de baliza científica para essa análise. A finalização deve ficar para 2029.
Segundo fontes ouvidas pelo jornal The Washington Post, além de impedir a participação de Calvin na reunião, o governo Trump deu outro golpe no IPCC. A Nasa rescindiu o contrato com um grupo de cientistas que fazia parte de uma unidade técnica fundamental para a produção do grupo de trabalho de Calvin, cujo enfoque é a mitigação (corte de emissões). A ausência desse grupo, financiado com apoio do governo americano, pode comprometer a produção do relatório sobre mitigação.

Impacto da ausência dos EUA
“Isso me preocupa bastante”, admitiu Krug. Para ela, o impacto da ausência americana talvez seja menos sobre o resultado final do encontro desta semana, mas pelo que ele sinaliza para o futuro, quando a confecção do relatório de fato tiver início. “Aumenta a preocupação com a forma como eventuais autores americanos poderão continuar a contribuir com o IPCC”, diz.
Depois de decididos o escopo e o cronograma do próximo relatório (objetivos da reunião desta semana) é que começa o longo trabalho de avaliar milhares de estudos que foram publicados desde o relatório anterior, entre 2021 e 2022. Esta é a questão fundamental: a produção desses compêndios exige a participação de muitos especialistas, além de acesso a estudos científicos, bases de dados e supercomputadores.
Para Marcos Heil Costa, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e um dos autores do último relatório, caso o acesso aos supercomputadores mantidos pelo governo federal americano venha a ser prejudicado, haveria um prejuízo razoável para os relatórios. Segundo Costa, esse acesso será importante daqui a dois ou três anos, quando pode ser necessário rodar modelos climáticos nessas máquinas superpotentes.
“O IPCC não faz ciência. O IPCC faz a avaliação da ciência já publicada, e muitos pesquisadores americanos já publicaram seus trabalhos. Ainda que o pessoal dos EUA não apareça nas reuniões, nada proíbe que os cientistas dos outros países revisem as publicações deles [para os relatórios]”, pondera José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Marengo é um dos oito pesquisadores do mundo que mais contribuíram para os relatórios do IPCC, segundo um levantamento do Carbon Brief.
Tanto ele quanto Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), destacam que, pelo que se sabe até o momento, a participação cortada foi a de funcionários de agências do governo americano. Assim, pesquisadores de universidades estaduais e privadas podem continuar participando dos trabalhos.
“Na Nasa e na Noaa [Administração Oceânica e Atmosférica Nacional], eles vão cortar todos os projetos associados com a mudança do clima. E isso vai ter um impacto na produção de dados. Agora, eu acho que cientistas japoneses, chineses, europeus e até brasileiros vão [ter mais espaço] para contribuir mais com o IPCC e, com isso, [os americanos] realmente não vão fazer falta”, opina Artaxo.
Ainda assim, é inegável a predominância da ciência americana em várias áreas do conhecimento fundamentais para a compreensão das mudanças climáticas. Desde 1988, quando o IPCC foi criado, os Estados Unidos foram o país com maior número de autores: 699 (18% do total), mais do que o dobro do segundo colocado, o Reino Unido, com 337.
À Bloomberg, o diretor do Observatório da Terra de Singapura, Benjamin Horton, pintou um cenário pessimista. “Sem os EUA, o IPCC fracassa”, disse em referência ao fato de que o país é o que, na avaliação dele, investe “mais dinheiro, mais pessoas, coleta mais dados e roda mais modelos para a ciência climática do que o resto do mundo somado”.
Os especialistas ouvidos pela Pública e outros cientistas que se pronunciaram sobre o assunto reconhecem a importância americana para o tema, mas discordam dessa avaliação, principalmente por considerarem que o IPCC é muito maior do que os Estados Unidos e que os pesquisadores de outros países podem preencher o eventual vácuo.
Para eles, o movimento é mais um tiro no pé dos próprios Estados Unidos, que gradualmente podem perder espaço na produção científica.
“Os Estados Unidos são líderes de pesquisa em todas as áreas, não só na área de clima, mas em saúde, genética, inteligência artificial. E estão abdicando desse papel de liderança, entregando de bandeja para China acelerar a predominância de pesquisa climática no mundo”, avalia Artaxo.
Ciência climática sob ataque
A decisão americana se enquadra em um contexto maior de ataque à ciência e à política climática. Em seu primeiro dia de mandato, Trump saiu do Acordo de Paris, compromisso firmado por quase 200 países para evitar que o planeta aqueça acima de 1,5 ºC na comparação com a temperatura média pré-industrial.
Ao longo das últimas semanas, o governo Trump também demitiu funcionários de agências federais dedicadas à ciência e anunciou mudanças nas concessões de bolsas de pesquisa, o que pode vir a reduzir drasticamente o apoio financeiro do governo federal, conforme reportagem publicada no site da revista científica Nature.
“O estado do conhecimento da ciência sobre as mudanças climáticas é tão claro, poderoso e convincente que a ciência climática é agora um alvo”, escreveu em uma rede social a cientista francesa Valérie Masson-Delmotte, que também já integrou o IPCC.