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Oposição articula para ocupar ao menos metade das vagas da CCAI, sob a presidência de ferrenho opositor do governo

Reportagem
4 de abril de 2025
12:00

Enquanto o governo tenta evitar uma crise diplomática com o Paraguai após um caso de espionagem da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) contra autoridades do país vir à tona, a oposição bolsonarista se articula para dominar a única instância fora dos órgãos de controle apta a fiscalizar as atividades do setor no Brasil: a Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI).

Legalmente, a CCAI pode obter informações “nas áreas de inteligência, contrainteligência e na salvaguarda de assuntos sigilosos” da máquina pública brasileira. Caso órgãos ou seus responsáveis se neguem a prestar informações, a comissão pode enquadrá-los “na prática de crime de responsabilidade” — o que significa também ter poder político.

A Agência Pública apurou que a oposição trabalha para ocupar ao menos metade das 12 vagas da comissão, pressionando assim o governo em meio ao caso de espionagem contra o Paraguai. A nova presidência da CCAI já anunciou que irá apurar o ocorrido.

A movimentação para a oposição tomar conta da comissão envolve, principalmente, a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN) da Câmara — tanto a CCAI quanto a CREDN são presididas pelo deputado Filipe Barros (PL-PR), de oposição ao governo Lula.

Obrigatoriamente, a CCAI precisa destinar uma de suas vagas para membros da CREDN, e o ocupante é escolhido por eleição interna na Comissão de Relações Exteriores. Mesmo após a revelação do caso de espionagem contra o Paraguai, sob suspeita que a operação perdurou no início da gestão Lula, o governo ainda não propôs, nem apoiou, uma candidatura da base aliada para ocupar esta vaga.

Desde 2023, a vaga da CREDN na comissão é ocupada pelo deputado governista Carlos Zarattini (PT-SP) – que disse à Pública que não vai permanecer como membro da CCAI.

Até agora, somente o deputado Eliéser Girão (PL-RN), o General Girão, registrou uma candidatura para concorrer à vaga da CREDN na CCAI. Em janeiro passado, o militar bolsonarista foi condenado na Justiça Federal a pagar R$2 milhões por danos morais coletivos por incentivar atos antidemocráticos durante a crise golpista de 2022.

Ocupada tentando barrar a articulação bolsonarista pelo projeto de anistia no Congresso, a liderança do governo na Câmara, a cargo do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), não está envolvida na viabilização de uma candidatura contrária à de Girão, segundo apurado pela Pública.

Do lado da oposição, o presidente da CCAI e da CREDN disse à reportagem que “anunciou a abertura do prazo para candidaturas, mas somente [Eliéser] Girão se inscreveu até agora”. “Vamos fazer a eleição para a CCAI na próxima reunião [da CREDN], provavelmente no dia 9, com ou sem obstrução por parte do PL”, afirmou Barros à Pública, logo após o 1º encontro da CCAI em 2025.

A mesma regra válida para a CREDN se repete em sua congênere, a Comissão de Relações Exteriores do Senado (CRE). Presidida pelo senador Nelsinho Trad (PSD-MS), a CRE ainda não começou a discutir sua eleição interna para sua vaga na CCAI. A vaga é ocupada atualmente pelo senador Cid Gomes (PSB-CE), da base governista na Casa, e enquanto não houver eleição na CRE, ele segue na CCAI.

Presidente da CCAI confirma encontro com diretor da Abin em meio à crise com Paraguai

Na manhã desta quinta (3), o diretor-geral da Abin, Luiz Fernando Corrêa, foi ao Congresso encontrar-se com o presidente da CCAI. O encontro não consta na agenda oficial do diretor da Abin, que desde março passado não divulga publicamente nenhum de seus compromissos.

Do outro lado, o deputado Filipe Barros avaliou o encontro com Luiz Fernando Correa como “positivo” e disse que o caso de espionagem contra o Paraguai não foi abordado. “Foi um bom encontro, mas não falamos do tema. Foi uma ‘apresentação’, para que eu conhecesse o diretor, já que assumi a CCAI”, afirmou à Pública.

No dia anterior, quarta (2), a comissão retomou suas atividades já com o escândalo de espionagem contra autoridades do Paraguai na mira. Na ocasião, um dos parlamentares da oposição, o senador Esperidião Amin (PP-SC), protocolou pedidos relativos ao escândalo.

Via CCAI, o senador pediu informações à Abin sobre relatórios e atividades sobre o Paraguai e a usina hidrelétrica de Itaipu, o suposto motivo por trás da operação da Abin. Amin também quer convidar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Passos, para prestar esclarecimentos sobre o caso.

A PF abriu na última terça (1º) um inquérito para apurar possível vazamento de informações sobre o caso, que surgiu em meio às investigações sobre a “Abin Paralela”.

Servidores da Abin não escondem sua desconfiança quanto ao caso, questionando a origem e o objetivo do vazamento da operação no Paraguai. Desde a abertura do inquérito sobre a “Abin Paralela”, em 2023, PF e a Abin têm travado uma disputa nos bastidores — como já relatado, por exemplo, pelo portal The Intercept Brasil.

O caso de espionagem contra autoridades paraguaias foi revelado na última segunda (31) pelo jornalista Aguirre Talento, no portal UOL. Segundo sua apuração, a operação teve início no governo Bolsonaro e teria sido mantida na gestão Lula, buscando dados estratégicos do Paraguai sobre o tratado de Itaipu – tema em negociação até o momento, sobre as tarifas da hidrelétrica binacional.

Controle da inteligência ou do orçamento?

O ato de criação da CCAI em 2013 mostra que a comissão é a responsável por “todas as ações referentes à supervisão, verificação e inspeção das atividades de pessoas, órgãos e entidades relacionados à inteligência e contrainteligência, bem como à salvaguarda de informações sigilosas” de órgãos de inteligência no Brasil.

Mas, em geral, a Comissão de Inteligência não se apresenta como uma instância atuante, seja no controle das atividades de inteligência no Brasil, seja no Congresso.

Desde 2017, a CCAI se reuniu apenas 20 vezes, geralmente para discutir emendas de recomposição do orçamento de órgãos de inteligência, como a Abin, de órgãos de segurança e forças auxiliares, como as Forças Armadas.

O número total de reuniões no período revela-se ilusório, porque apenas em 2023 houve sete encontros da CCAI – devido à revelação, naquele ano, da “Abin Paralela” do governo Bolsonaro.

No ano seguinte, a comissão reuniu-se pela primeira vez apenas em dezembro, quando parlamentares usaram o pacote fiscal do governo como razão para cortar verbas da inteligência em 2025, como noticiado pela Pública.

Mesmo com poucos encontros nos últimos anos, a comissão já destinou uma verba bilionária para aparatos de inteligência no Brasil. A Pública revelou que, entre 2015 e 2024, a CCAI destinou R$1,7 bilhão para a Abin e setores de inteligência das Forças Armadas.

Edição:
Waldemir Barreto/Agência Senado
Vinícius Loures/Câmara dos Deputados
Pedro França/Agência Senado
Waldemir Barreto/Agência Senado
Roque de Sá/Agência Senado

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