Neste domingo, chega ao fim mais uma Copa do Mundo masculina. Para além do espetáculo esportivo, o torneio também revela estruturas de violência e misoginia. Um levantamento do ge (Globo Esporte), publicado em 29 de junho de 2026, identificou que ao menos cinco jogadores que participaram da Copa do Mundo eram ou haviam sido investigados por acusações de estupro. Em nota, a Fifa afirmou que não existe uma regra geral que proíba a convocação de jogadores que enfrentaram acusações ou respondem a processos por estupro ou agressão sexual.
Para falar sobre a cultura da violência e da misoginia dentro e fora do futebol, o Pauta Pública recebe a jornalista e escritora Milly Lacombe, colunista do UOL e integrante do comitê curatorial do Museu do Futebol, em São Paulo. Na conversa com Andrea Dip, ela analisa como a eliminação do Brasil evidenciou uma masculinidade marcada pela agressividade. “O homem que soca a parede para não socar a cara da mulher, isso não é normal. Quebrar um aparelho de TV [como quando o Brasil foi eliminado], a gente não pode naturalizar isso”, afirma.
Lacombe também fala do peso político de termos uma Copa do Mundo sediada em um país responsável por um genocídio em curso. “Eu acho que é uma copa que as nossas gerações vão ter que entender como a copa da vergonha, porque a gente aceitou que uma copa fosse realizada dentro de um país entregue ao fascismo. A gente aceitou que a copa fosse dominada, controlada por um ditador que é o Donald Trump.”
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 225 A Copa da vergonha – com Milly Lacombe
O que a eliminação do Brasil nos ensina sobre a masculinidade?
Tem tanta coisa para a gente aprender na reação que esses moleques, que são já homens, tiveram. Acho que um dos grandes problemas que a gente enfrenta é que há muitos moleques em situação de poder no mundo. E aí, ficamos à mercê da decisão desses deles. Então, começo falando dessa dimensão da violência. Como no caso de vídeos de homens quebrando os aparelhos de TV [divulgados nas redes sociais] quando o Brasil foi eliminado.
Um homem que soca a parede para não socar a cara da mulher, ou que quebra a garagem para não quebrar a mulher, isso não é normal. Quebrar um aparelho de TV, a gente não pode naturalizar isso. Imagina uma mãe com a criança do lado dela, o Brasil perde, ela levanta, pega um taco de beisebol e bate na TV. Aí a gente entende a violência? Mas quando é um homem que faz, não? Então, eu acho que essa é a primeira dimensão da eliminação, do que a gente aprende.
A segunda vem da hierarquia, sabe? Porque, assim, pessoas lúcidas criticaram, tecnicamente, o Neymar, porque ele afundou o Brasil. [E quando há essas críticas] vêm a turma da hierarquia, ou seja, os súditos do Neymar, e tem chiliques também praticando violências, ameaçando jornalistas. Houve influenciadores que ameaçaram jornalistas. Uma loucura. Tudo para celebrar o macho alfa deles, para proteger o macho alfa deles. Então, a gente vai aprendendo essa lealdade, que é uma outra característica da masculinidade, né? A fraternidade, a ‘broderagem”. A Rita Segato [antropóloga argentina] diz que não tem nada mais importante para um homem na vida do que outro homem. É isso.
Esta copa aconteceu nos Estados Unidos, em meio a todos os crimes que o governo Trump está apoiando ou cometendo contra a humanidade. E também tiveram gestos supremacistas brancos, para todo mundo ver. Além de pessoas imigrantes detidas e deportadas. Como que você viu essa copa nesse sentido?
Eu acho que é uma copa que as nossas gerações vão ter que entender como a copa da vergonha, porque a gente aceitou que ela fosse realizada dentro de um país entregue ao fascismo. A gente aceitou que a copa fosse dominada, controlada por um ditador que é o Donald Trump.
Perto de todo o campo em que está sendo disputado um jogo, tem um campo de detenção, que é construído nos moldes dos campos de concentração. As pessoas são jogadas ali sem julgamento, sem o devido processo legal, muitos são cidadãos e cidadãs estadunidenses não têm assistência médica. Elas estão morrendo lá dentro, tem crianças morrendo dentro desses campos de detenção.
Nós estamos aceitando isso, mas também a nossa é a geração que viu um genocídio na palma da mão nos nossos celulares e não fez nada. A gente tá vendo o genocídio em Gaza, todos os dias, minuto à minuto, na palma da nossa mão, a gente abre vê as fotos e a gente não faz nada. Eu fico imaginando que, se de 1939 a 1941 as pessoas tivessem vendo o que estava sendo feito na Alemanha, por Hitler -porque lá elas demoraram para entender o que estava acontecendo. Agora não, agora a gente sabe e não estamos fazendo nada. Então, é uma geração que vai ter umas contas a pagar.
Outro indício da desigualdade de gênero dentro do futebol talvez seja com relação aos campeonatos femininos. Historicamente, a categoria já teve alguns avanços, mas a passos lentos em relação à importância do futebol masculino. Ano que vem, em 2027, teremos a Copa do Mundo Feminina, quais são suas perspectivas? Você acha que a gente pode esperar uma valorização, enfim, nesse sentido, do futebol feminino?
Eu acho que 2027 vai ser um divisor de águas para o futebol feminino no Brasil. Eu acho que a gente ainda não tá preparado para entender o que vai acontecer. O Brasil vai ser levado de arrasto por um tipo de paixão que faz tempo que a gente não se permite sentir por uma seleção, sabe? Eu gosto de um ditado português que diz que os fados convidam a dançar aqueles que estão prontos, quem não está pronto os fados arrastam. Eu acho que em 2027 as pessoas vão ser arrastadas por essa usina de afeto que o futebol feminino vai gerar no Brasil.
Recentemente, o Brasil fez dois amistosos com os Estados Unidos, que são a grande força do futebol feminino no mundo há muito tempo. Tiveram uma fase ruim, mas já voltaram. O amistoso foi em Itaquera, no estádio do Corinthians, e o outro em Fortaleza, no Castelão. E tinha 40 mil pessoas em Itaquera e 60 mil pessoas em Fortaleza. Era a voz de mulheres que vinha da arquibancada. O que me chamou a atenção foi a treinadora dos Estados Unidos, uma das mais experientes do mundo. Quando ela entrou em Itaquera e viu o que estava acontecendo na arquibancada, ela chamou o time e falou assim, “eu não sei o que está acontecendo, eu nunca ouvi esse barulho, deve passar mas assim, se não passar aproveitem, porque a gente nunca viu isso”. Então, isso foi só um ensaio do que pode acontecer.
O Brasil nunca esteve tão pronto para levantar essa taça do futebol feminino [no mundial] o time brasileiro nunca esteve tão pronto para fazer o que os homens fracassaram em fazer diversas vezes. E aí vai ser um arrebatamento.




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