Buscar
Nota

Quilombolas do ES buscam reparação por contaminação após rompimento de barragem de Mariana

21 de agosto de 2024
04:00
Este artigo tem mais de 2 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Antes do rompimento da barragem do Fundão, no município de Mariana (MG), doenças renais não eram comuns na família de Isaías Rodrigues. Hoje, oito anos após a chegada dos rejeitos de minério no norte do Espírito Santo, a realidade é outra. “Meu irmão está com problema renal, meu vizinho também. Conheço criança aqui dentro do território que tem 4 ou 5 anos e está com problema nos rins”, disse Rodrigues.

Ainda não há comprovação de que o cenário seja consequência direta do derramamento de rejeitos, mas a doença renal é sintoma catalogado de intoxicação por cádmio e cromo, metais pesados presentes na lama tóxica. “Quando a água está contaminada, envenenada, você vai beber, mas não vai morrer hoje, não. Ela vai te matando aos poucos”, afirmou. 

Rodrigues é presidente da Comissão Remanescente Quilombola de Atingidos de São Mateus e Conceição da Barra, que representa 28 dos 33 quilombos da região de Sapê do Norte, e luta desde 2018 para que as comunidades sejam reparadas. Ele considera que as indenizações poderiam restaurar a “qualidade de vida” e oferecer aos atingidos, que convivem também com transtornos mentais e doenças de pele, “garantia para cuidar da saúde”. 

“A vida da gente ainda corre risco”, acrescenta Sheila Santos, liderança da comunidade  Angelim Disa. “Não tem estudo específico […], mas a gente sabe que a saúde é afetada”, afirma. Ela é parte da comissão e representa sua comunidade na Câmara Técnica Indígena e Povos e Comunidades Tradicionais, criada para atuar na reparação. “A comunidade quilombola sofre de imediato porque vive da agricultura, da pesca, dos meios de sobrevivência que a gente tem aqui”, afirmou. 

Na região, apenas o quilombo de Degredo recebeu reparação parcial. Em entrevista à Agência Pública, Simony de Jesus, liderança do Degredo, explicou que a indenização foi essencial para evitar o abandono do território e garantir a alimentação, visto que os peixes estão contaminados. “O que está acontecendo é que muitos quilombolas têm que deixar o seu território, abandonar seu modo de vida, abandonar suas atividades, porque hoje já não se consegue mais [as] exercer dentro do território”, afirmou. 

A Fundação Cultural Palmares (FCP), que tem como uma de suas missões a preservação e manutenção das comunidades remanescentes de quilombos, e o Comitê Interfederativo (CIF), responsável por orientar e fiscalizar as ações de reparação, já reconheceram que os quilombolas da região precisariam ser indenizados por terem sido atingidos pela lama.

Um parecer da FCP de abril de 2023 afirma que quilombolas de Conceição da Barra e São Mateus tiveram suas “vidas [e] sua ancestralidade comprometidas de forma direta pelo maior desastre da história moderna” e indica “atendimento urgente” e inclusão desses grupos em programas de amparo. O CIF então determinou a inclusão dos povos nos programas de amparo e estabeleceu multas pelo descumprimento da ordem. O comitê representa a autoridade pública: é presidido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e composto por representantes da União, governos de Minas Gerais  e Espírito Santo e vítimas.

Por que ainda não há solução?

A Fundação Renova tem descumprido as ordens do CIF enquanto recorre à Justiça. Criada em março de 2016 pela mineradora Samarco e suas acionistas, Vale e BHP Billiton, a Renova é responsável por reparar as consequências do derramamento de lama, mas argumenta que não é possível atestar “se houve efetivo dano na região”. “É impossível aferir de antemão a extensão dos impactos sofridos coletivamente nessas comunidades em decorrência do rompimento”, argumentou em seu último recurso, em julho, com o intuito de suspender o início do pagamento às comunidades.

Jacqueline Moraes, secretária de Estado das Mulheres e ex-vice-governadora do Espírito Santo, avalia que a Renova tem agido para postergar a reparação. “A realidade é que não afetou só essa geração, afetou as próximas gerações, porque muitas coisas que são da especificidade da origem daquela comunidade foram sufocadas”, disse à Pública.

No dia 9 de agosto, o juiz Vinicius Cobucci respondeu à contestação da Renova e mineradoras quanto às deliberações do CIF e considerou que o questionamento judicial das diversas ordens de reparação faria parte de uma “estratégia de má-fé” e que “há nítido desvio de finalidade institucional” da fundação e, por isso, sugeriu que a fundação fosse alvo de investigação do Ministério Público. A contestação segue em análise da Justiça.

Em nota, a Renova afirmou que “reitera seu compromisso institucional de implementar programas e ações voltadas à reparação”: “O tema está judicializado e, com o objetivo de construir soluções, a Fundação Renova permanece disponível para buscar uma alternativa consensual que possibilite cumprir a deliberação do CIF observando-se o previsto no TAC [Termo de Ajustamento de Conduta] e nas decisões judiciais aplicáveis”. 

Procurados, a FCP e o Ministério da Igualdade Racial, responsáveis pela proteção de comunidades quilombolas, não se manifestaram sobre o tema. 

Edição:

Notas mais recentes

Lula discursa na ONU e Conselho do Ministério Público avalia ações de Gonet no caso Master


Campanha de Flávio ignora relação com Vorcaro e tenta associar briga no STF a Lula


STF define rumo do embate Moraes x Mendonça, e TSE lida com prazos finais para as eleições


Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades


Com despesas pagas pelos EUA, ida de procurador a evento sobre Irã é cancelada pela PGR


Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Fazendas de IA inflam pauta da extrema direita com 255 perfis e mais de mil posts

|

Rede tem 58 milhões de visualizações e amplia alcance de posts pró-família Bolsonaro e ataques ao STF
Colagem com as fotos do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias e do diretor geral da PF, Andrei Rodrigues

Antes de mensagens vazadas, PF pediu sigilosamente para AGU conter Mendonça

|

Documentos indicam que o diretor-geral da PF acionou AGU contra uma ordem do então relator do caso Master
Presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante abertura da assembleia geral da ONU em Nova York em 2025

Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

|

O Cartel de Los Soles foi inventado pelo Departamento de Justiça de Trump, que depois voltou atrás

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras
Inauguração da ‘sala Google’ em Teresina, Piauí

“Usem muito Gemini”: Educação vira porta de entrada das Big Techs no Piauí

|

Com investimento de mais de R$ 90 mi, governo de Rafael Fonteles (PT) acelera dependência do ensino às multinacionais

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder
Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições
Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente