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Crônica

Palitadores de dente, uni-vos

Na cultura do boteco a arte de palitar os dentes sempre sorri e oferece mais um

Crônica
7 de fevereiro de 2026
04:00

O Brasil tem dessas coisas: você está num boteco de esquina, o chão gruda, o ar é uma mistura de cerveja, fritura e desilusão, e, de repente, você, botequeiro, se depara com uma cena ao comer seu prato feito, que é a mais pura tradução da alma nacional: um ser humano a palitar os dentes.

É uma verdadeira arte. Quem nunca, ali perdido, com cotovelo no balcão, tentando encontrar algum sentido no fundo do copo de cerveja, já não viu esse espetáculo que se repete dia após dia? Quem nunca lutou com um fiapo de couve, um pedaço de torresmo, um inimigo anônimo alojado traiçoeiramente entre o canino e o pré-molar?

​Tão natural a cena de um homem, uns cinquenta e poucos anos, bigode farto e camisa social que já viu dias melhores, sacando daquele potinho de plástico o relicário sagrado que todo boteco que se preze oferece. E com a delicadeza de um maestro que empunha a batuta, passa a reger a sua própria sinfonia bucal.

​Como se fosse por contágio, por uma espécie de mimetismo cultural, muitos de nós botequeiros já fizemos o mesmo ao assistir a tal cena. É como um balé silencioso, constrangedor, esse de explorar as cavidades da boca com a concentração de quem procura petróleo, mas não, é apenas um pedaço de comida enfronhado. Antes de ser retirado, passa por um raio X da língua que, por fim, declara sua incapacidade para a tarefa.

​Tem os tipos: o estrategista, que, com o palito na boca, gesticula, aponta, traça planos mirabolantes no ar. O palito é a sua caneta, o seu laser, a sua arma secreta. Tem o conquistador, camisa aberta até o terceiro botão, copo de bebida na mão. Ele não tem um fiapo de carne no dente, mas o palito está lá, no canto da boca, como um cigarro de James Dean. Tem a malabarista, aquela amiga que quebra o palito no meio para enfiá-lo todo na boca e fazer seu próprio Cirque du Soleil lá dentro.

​Eu, por exemplo, confesso, com um misto de vergonha e orgulho, que me enquadro no perfil dos destruidores. Para mim, o palito de dente não é um instrumento; é matéria-prima. Eu não uso um palito; eu o desconstruo. É um ritual quase cirúrgico: pego dois, às vezes três, como um samurai que escolhe suas katanas para a batalha. Analiso a fibra da madeira, a resistência, a ponta.

​Então, com a precisão de um engenheiro de demolição, eu os estilhaço. Crio um arsenal de microarmas. E no meio daquele cemitério de palitos, eu escolho o meu campeão: o fiapo mais fino, a lança mais letal, a agulha de acupuntura que vai navegar pela minha gengiva como quem desbrava o Novo Mundo, em busca daquele pedaço de frango a passarinho que ousa desafiar a minha paz de espírito.

​A etiqueta, essa senhora fresca e cheia de regras, diria que é feio, que é anti-higiênico. Os dentistas diriam que é um crime contra a gengiva. Mas a cultura do boteco, meu amigo, sempre sorri e oferece mais um palito Gina.

​Sim, a Monalisa do palito de dente. Aquela mulher, com seu sorriso enigmático, que há décadas nos observa, cúmplice silenciosa de todos os nossos pecados gastronômicos. Ela não é de direita nem de esquerda. Ela é de dentro. De dentro da boca de cada um de nós. Gina, a padroeira dos restos de feijão, a santa protetora dos fiapos de carne de sol. Ela sabe, ela entende. É uma de nós.

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