Buscar
Coluna

Quando ser fêmea é mais importante do que ser mulher

Mulheres que reduzem a identidade feminina ao biológico nos jogam de volta ao papel de fêmeas reprodutoras

Coluna
20 de março de 2026
15:22

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui

Ao pintar a cara de marrom para desqualificar as mulheres trans em sessão da Assembleia Legislativa de São Paulo, a deputada Fabiana Bolsonaro (PL-SP) demonstrou de forma exemplar como o racismo, a transfobia e o desdém pelos direitos universais das pessoas andam de mãos dadas e se combinam na visão da extrema direita sobre a sociedade.

Também deu ainda mais argumentos para a escolha de Erika Hilton (PSOL-SP), a primeira mulher trans e negra a ser eleita deputada federal no Brasil, assumir a presidência da Comissão da Mulher da Câmara.

Além de enfrentar a transfobia e, portanto, a violência de gênero, que é a mesma por trás da “epidemia de feminicídio”, Erika compartilha do sofrimento das mulheres negras – as mais atingidas pela violência e desigualdade. Não é à toa que é uma das deputadas mais ativas do Congresso – e também das mais influentes nas redes – com quatro projetos de lei aprovados neste mandato e outros em debate, como o fim da escala 6×1 além de 26 propostas específicas para garantir direitos das mulheres.

Já Fabiana – que não é parente dos Bolsonaro famosos, como sua colega, Valéria Bolsonaro (PL-SP), prima de Jair – compartilha das convicções da extrema direita, representada pelo PL, e do racismo explícito aliado à conhecida misoginia do presidente da “fraquejada”. Seu único projeto aprovado na Assembleia é o que institui o “Dia da Família Cristã”.

Cinco dias antes da performance racista de Fabiana, em uma sessão extraordinária da Assembleia Legislativa, Valéria Bolsonaro, mais conhecida pela frase “o feminismo mata” do que por sua atuação parlamentar ou por realizações como ex-secretária da Mulher, criticou a escolha de Hilton afirmando que ela não teria “vivência biológica” para ser presidente da Comissão da Mulher na Câmara.

“Quando eu falo de vivência biológica, eu falo de maternidade, eu falo de amamentação, eu falo de reprodução humana, coisa que uma deputada trans não tem a menor experiência e jamais vai conseguir saber do que se trata, e não existe nenhum problema nisso”, afirmou Valéria. Ou seja, para a deputada e ex-secretária da Mulher de Tarcísio de Freitas, Erika Hilton pode até ser parlamentar, mas jamais mulher. Aliás, por esse critério, apenas as mães teriam a “vivência” de mulheres.

Não é à toa que seu discurso se assemelha tanto ao do homem machista padrão, caso do apresentador Ratinho, apologista da violência policial, que diz “não ter nada contra pessoas trans”, mas criticou a escolha de Hilton exatamente por isso. “Mulher tem que ser mulher, ela é trans. Para ser mulher, tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata [por] três, quatro dias. Eu sou contra [a eleição dela para presidir esta comissão]. Eu acho que deveria deixar uma mulher [no cargo]”, disse em seu programa no SBT.

A partir daí instalou-se uma disputa nas redes sociais de alto engajamento – houve 956 mil postagens sobre o assunto nos últimos sete dias, de acordo com o Instituto Democracia em Xeque. Além dos esperados perfis de direita em defesa das “ideias” de Ratinho, e de um apoio maior da esquerda à deputada Erika Hilton, um fenômeno se destacou: o das mulheres que se dizem “feministas” e se aliaram às bolsonaristas tradicionalistas no linchamento, não apenas contra Hilton, mas contra todas as pessoas trans.

O mais chocante, em relação às feministas, é que afirmações como a de Valéria, Fabiana e Ratinho significam um ataque contra todas as mulheres que não resumem sua identidade ao seu aparelho reprodutor. Não por acaso, a cooptação das feministas pela extrema direita, um fenômeno mundial, pelo menos no Brasil está associada a organizações de mulheres que se definem como “maternas”, “maternalistas” e por aí afora.

De acordo com a revista Azmina, a articuladora central desse movimento é a Matria (Associação de Mulheres, Mães e Trabalhadoras do Brasil), uma ONG fundada há pouco mais de dois anos, que tem 300 associadas e jura dispor apenas de recursos doados por elas. Além de disseminar mensagens transfóbicas em sua rede com 50 mil seguidores, atua com advocacy (lobby social) e litigância predatória (uso recorrente de ações) no Judiciário para reverter direitos de pessoas trans.

A Matria não defende o direito ao aborto, o combate à violência de gênero e a igualdade de direitos entre gêneros. Segundo a reportagem de Azmina, além da pauta antitrans, têm como bandeiras temas como a maternidade, a alienação parental e a exploração sexual de meninas. É pela transfobia que se daria a articulação da organização entre a extrema direita e as “feministas”, em uma espécie de conluio pela “supremacia do útero” de entusiasmar qualquer patriarca. 

Também foi a Matria que organizou a vinda recente da relatora da ONU, Reem Alsalem, ao Brasil. Recebida no Congresso, no STF e na UnB, destacou-se por declarações transfóbicas, como “homens trans são mulheres” e a defesa da exclusão das mulheres trans dos espaços femininos. “Ser um homem ou uma mulher é uma realidade material, como uma cadeira ou uma girafa. Mulheres são fêmeas biológicas adultas, e homens são machos biológicos adultos”, disse, ofendendo também a lógica com a comparação descabida. 

Erika é boa de briga na defesa de direitos negados, como a vida a ensinou a ser. Ela e seu partido entraram na Justiça contra as falas discriminatórias das deputadas de sobrenome Bolsonaro. Ela também falou com o SBT para pedir a retratação da emissora e disse ter tomado “todas as providências judiciais cabíveis” contra o apresentador e a emissora.

A deputada enfrentou com altivez o show de horror na primeira sessão que presidiu nesta terça-feira – agora ela é alvo de um pedido da oposição, liderada por Chris Tonietto (PL-RJ), para anular a eleição que venceu para a presidência da comissão. Mas, ainda que consiga mais uma vez se impor dentro das regras democráticas, como sempre fez, resta a imensa tristeza de ver uma parte do movimento feminista se degradar a ponto de nos jogar em um Conto da Aia, do qual tanto lutamos para escapar.

Claramente é o ódio contra as pessoas trans, e não o amor pelas mulheres, que une esse pessoal. Já vimos esse filme antes. E ele não acaba bem.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 208 A fé que move algoritmos

Pastor e acadêmico, Valdinei Ferreira, fala sobre o encontro entre fé e inteligência artificial

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Artigos mais recentes