Buscar
Coluna

Fala de Michelle atrai simpatia das mulheres para além do bolsonarismo

Flávio perdeu feio para a madrasta e fama de “maltratar mulheres” pode persegui-lo na campanha

Coluna
26 de junho de 2026
11:42
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Michelle Bolsonaro fez um estrago na campanha do enteado, que até agora não conseguiu reverter o prejuízo causado pelo vídeo que ela divulgou na noite da vitória do Brasil sobre a Escócia. Entre ameaças veladas – “eu disse quase tudo nesse vídeo” – e símbolos religiosos, Michelle aludiu várias vezes ao apoio do marido e mostrou firmeza ao reivindicar seu papel de liderança política diante das mulheres conservadoras e cristãs.

A fala de Michelle também apelou a um sentimento comum às mulheres de qualquer ideologia: o de ser “maltratada”, vista como “idiota” ou “insignificante”. Por isso, o vídeo tem potencial de desmoralizar o candidato Flávio Bolsonaro e de ampliar a conhecida resistência das eleitoras ao bolsonarismo, sobretudo das indecisas. Para isso, basta Michelle continuar “na sua”, como ela disse, sem se envolver na campanha deste ano, enquanto angaria apoio político e pessoal.

Há homens que confiam mais nas esposas do que nos filhos, às vezes até por subestimá-las. Indicar o filho à presidência e manter a mulher junto de si, cuidando dele, preso e doente, pode ser a melhor opção para Jair Bolsonaro, que está mais preocupado consigo mesmo e em manter seu poder sobre a direita do que com a eleição do filho, em baixa desde que seus pedidos de dinheiro a Daniel Vorcaro foram expostos. 

Afinal Michelle fala pelo marido, como fez questão de frisar, por isso o recado foi para muita gente além de Flávio, dentro e fora da família. Ao que parece, é Jair quem está reivindicando seu patrimônio político. O que não significa que ela não tenha suas próprias ambições, oportunamente camufladas pelo “recato” de esposa.

A repórter Juliana Dal Piva, que fez longas e profundas investigações sobre a família Bolsonaro, publicadas em livros e podcast, relatou o papel decisivo que suas esposas tiveram em sua vida para projetar sua carreira política e organizar seus “negócios”, principalmente a segunda esposa, Ana Cristina Valle, a mãe de Jair Renan. 

Se o bem sucedido esquema de “rachadinhas” de Jair deputado foi ampliado com Rogéria, a mãe dos três filhos mais velhos, eleita vereadora em 1992, isso foi replicado no segundo casamento a ponto de enriquecer o casal – foram 4 milhões de reais só em repasses dos funcionários fantasmas da família de Ana Cristina. Esse foi o valor calculado pelo MPF no processo contra Flávio Bolsonaro envolvendo “rachadinhas” e Queiroz, arquivado depois que as cortes superiores anularam provas robustas da acusação.

Ao se dizer leal ao marido e ostentar a intimidade com o “seu galego”, Michelle Bolsonaro conseguiu passe-livre para falar o que queria aos “olhos de Deus” e do marido, o nome mais forte da direita brasileira, radicalizada por ele. Foi ajudada pela inabilidade de Flávio, que ao proclamar que “nunca maltratou mulheres”, fez a denúncia ecoar e a desculpa soar esfarrapada. 

Michelle, por sua vez, tem motivo para desconfiar de Jair, a julgar pela história das ex-esposas. Rogéria, citada no vídeo como “a mãe deles”, quando Michelle se referiu às ofensas de Ciro Gomes à família, depois de separada viu o ex-marido jogar o filho Carlos contra ela na campanha para a Câmara Municipal do Rio. Ana Cristina, que se separou de Jair depois de o casal acumular um patrimônio de 14 imóveis, – quase todos pagos em dinheiro vivo, como continua a fazer Flávio – chegou a acusar o ex-marido de roubo de bens e de ameaçá-la de morte depois da separação. 

Como ela mesma nos lembrou, Michelle Bolsonaro sabe mais do que eles pensam – e pode falar mais do que eles supõem que ela está disposta a silenciar. Foi Michelle quem abriu as portas das igrejas evangélicas para o marido e o ajudou a conquistar os votos nesse eleitorado fundamental para as eleições. Mostrou agora que o poder dos bastidores políticos pode até estar com eles, mas o microfone e “Deus” estão com ela. E seu alcance pode ser bem maior do que os homens da família são capazes de imaginar. 

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Se você chegou até aqui é porque realmente valoriza nosso jornalismo. Conheça e apoie o Programa dos Aliados, onde se reúnem os leitores mais fiéis da Pública, fundamentais para a gente continuar existindo e fazendo o jornalismo valente que você conhece. Se preferir, envie um pix de qualquer valor para contato@apublica.org.

Vale a pena ouvir

EP 230 O que é o Partido Digital Bolsonarista? – com Marcos Nobre

Professor e pesquisador, Marcos Nobre, fala sobre as mudanças estruturais na forma de fazer política no Brasil

0:00

Aviso

Este é um conteúdo exclusivo da Agência Pública e não pode ser republicado.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Eleitores gerados por IA fazem campanha no TikTok e põem em xeque regra do TSE

|

Vídeos criados com IA em que eleitores declaram seus votos para presidente têm 7,4 milhões de views no TikTok

O método: como a extrema-direita ataca professores para engajar eleitores

|

Gravações clandestinas e ataques online evidenciam como docentes são explorados politicamente desde 2022

Investigados por desinformação e tentativa de golpe seguem ativos nas redes em 2026

|

Ao menos dez alvos de inquéritos no STF e TSE em eleições passadas continuam publicando sobre o pleito deste ano

Tingir o chão de sangue: propostas de Renan Santos para segurança vão contra Constituição

|

Candidato do MBL defende prisão, mortes e vingança em discurso emocional contra a violência

Partido da farda: número de candidatos policiais ou militares passa de 1,2 mil

|

Bancada de policiais no Legislativo direciona recursos para a Polícia Militar, enquanto resolução de crimes segue baixa

Quase quatro a cada dez indígenas em terras na Amazônia não têm acesso adequado a água

|

Ao todo, 38% não tem água tratada ou fontes como poços e nascentes, dependendo de rios e lagos, muitos contaminados

Sob Lula, assassinatos de indígenas sobem 22% em 2025 e superam média da era Bolsonaro

|

Após queda em 2023, número de mortos volta a subir e chega a 258; Marco Temporal é parte do problema, diz Cimi

Corrida por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo

|

Trabalhadores relatam assédio, acidentes e adoecimento. Empresas alegam cumprir lei trabalhista e normas de segurança

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

|

Mostra no Centro MariAntonia (USP), em São Paulo, expõe o trabalho de peritos na identificação dos mortos na ditadura

“Onde tem malária, tem garimpo”: cinta larga aguardam decisão do STF sobre mineração

|

Julgamento nesta quinta-feira, 13, pode abrir caminho para mineração em terras indígenas entre Rondônia e Mato Grosso