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Da Redação

Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato — “A teoria”

Os Estados Unidos estão por trás da Operação Lava-Jato ou isso é só uma teoria da conspiração?

Da Redação
24 de junho de 2026
04:00
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Começamos a série “Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato” conhecendo Natalia Viana, jornalista investigativa há mais de 20 anos, e a pergunta que a atormenta: os Estados Unidos estão por trás da Operação Lava-Jato, ou seria apenas mais uma teoria da conspiração? Ao lado das valentes repórteres Alice Maciel e Amanda Audi, Natalia parte em busca da resposta.

Ouça agora!

Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato

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Episódio 1: A Teoria

Confira abaixo o roteiro do episódio na íntegra

EPISÓDIO 01: A TEORIA 

[Ricardo Terto]
Você está ouvindo uma áudio série, Original Audible. Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como está, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por 3 meses, se você for membro Amazon Prime.

Este Original Audible é baseado em eventos reais de conhecimento público, documentados em livros publicados, autos de processos judiciais, matérias e apurações jornalísticas, entrevistas e pesquisas em documentos públicos. As narrativas podem conter referências a terceiros. Os depoimentos e opiniões são de responsabilidade dos participantes ou especialistas e podem refletir diferentes perspectivas dos eventos.

[Natália Viana]

A série que você vai ouvir agora é uma original Audible e foi produzida pela Agência Pública, a maior agência de jornalismo investigativo do Brasil. Respira fundo e  vamos lá, porque a história é boa.

Efeito sonoro: Notificação de mensagem de aplicativo

[Natália Viana]

Hoje eu começo uma nova investigação, faltando apenas alguns áudios para chegar à resposta de uma pergunta que me atormenta há cinco anos. Para que essas pistas chegassem às minhas mãos foi preciso que um hacker invadisse o celular de um procurador da República; que esse material chegasse a uma equipe de jornalismo investigativo; que uma série de reportagens questionando os métodos da maior operação anticorrupção do país fosse publicada (a operação lava jato), e que eu conseguisse finalmente ter acesso a esses dados. 

Trilha sonora clima de suspense

Eu sou Natalia Viana, jornalista há mais de vinte anos, metade da minha vida. Não qualquer tipo de jornalista: sou uma jornalista investigativa, como aquelas que você vê nos filmes, sabe? Aquelas que desvendam segredos dos bastidores do poder, grandes mistérios e casos de corrupção. Sou também uma das fundadoras da Agência Pública. A maioria das pessoas acha que nossa vida é cheia de aventura, viagens para lugares distantes, encontros com fontes misteriosas. Bom, é assim e também não é. 

A maior parte do trabalho é ficar horas sentada numa cadeira, analisando documentos, revirando tabelas e checando dados. Buscando telefones,  tentando entrevistar pessoas e levando muito não na cara. 

Fim da trilha 

[Natália Viana]

Há cinco anos, publiquei uma série de reportagens a respeito da relação do governo americano, com os criadores da Operação Lava Jato e desde então eu venho catalogando provas e indícios. Por isso, uma pergunta me atormenta há anos, e que eu já ouvi em muitas mesas de bar e fóruns da internet: os Estados Unidos estão por trás da Lava Jato ou isso é só uma teoria da conspiração? 

Sei que encontrar essa resposta requer muito esforço. Por isso, convidei duas grandes jornalistas da Agência Pública para investigar comigo

Efeito sonoro ligação

[Natália Viana]
Alô Alice, tudo bom?

[Alice Maciel]
Tô bem, tô bem. Eu chego domingo, à tarde, umas 5 horas.

[Natália Viana]
Nessa jornada em busca da verdade, você vai acompanhar os bastidores de uma investigação real na série: Confidencial, as digitais do FBI na Lava Jato. 

Episódio 1 – A Teoria

[Natália Viana]

Vamos?
Vamos! Oh my god

[Natália Viana]
Podemos? Já começou?

Risos

[Natália Viana]

Essas risadas que vocês escutam é o que acontece quando a gente se junta. Ao contrário dos jornalistas personagens de filmes, nem sempre somos sérias ou sisudas. Tem que ter senso de humor para fazer esse trabalho.

Já já eu vou apresentar as minhas companheiras de investigação, mas antes vamos dar uma refrescada na memória.

[Áudio material de arquivo]
Iniciada em 2014, a operação teve 79 fases. 174 pessoas foram condenadas pela justiça, entre elas o ex-presidente Lula e o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, além de outros políticos e empresários. Considerada a maior operação de combate à corrupção da história do país, a Lava Jato conseguiu a devolução de 4 bilhões e 300 milhões de reais aos cofres públicos.

[Natália Viana]
Talvez dispense apresentações, mas vale lembrar que a Lava Jato foi superlativa em todos os sentidos e a causa de inúmeras reviravoltas políticas. Você deve recordar de alguns personagens dessa história. Funcionários públicos que foram alçados à categoria de heróis nacionais, como o ex-procurador-chefe em Curitiba, Deltan Dallagnol, eleito deputado federal, mas que teve seu mandato cassado pela justiça eleitoral. Ou o juiz Sérgio Moro, que depois virou ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro. Enquanto gravamos essa série, ele é senador da República, eleito com ampla votação.

Efeito sonoro

[Natália Viana]
Agora sim, de volta ao estúdio da Pública em São Paulo, onde eu estou para fazer uma proposta irrecusável para as minhas colegas.

Risos

[Natália Viana]
Eu quero descobrir se a Lava Jato foi criada pelos americanos.

[Amanda Audi]
Essa é a grande pergunta. Eu quero saber a resposta.

Risos

[Natália Viana]
Mas quem são elas?

[Alice Maciel]

Meu nome é Alice Maciel e o sotaque não mente.

[Natália Viana]
Não mente mesmo. A Alice é mineiríssima e adora investigar casos de corrupção. Saiu de Minas para ser repórter especial da Agência Pública em Brasília.

Agora, Amanda Audi. 

[Amanda Audi]
Sou paulista, do interior, mas já morei em Curitiba, onde cobri a Lava Jato.

[Natália Viana]

Juntas, as duas têm mais prêmios do que eu poderia contar. Além delas, o nosso time inclui também a Stela Diogo, outra mineira e nossa técnica de som. E é com esse time que vamos tentar ir além das convicções e encontrar provas da influência americana na Lava Jato.

Não só se foi criada, até onde foi a influência dos americanos, né? Ou seja, que tipo de influência eles tinham? Vamos descobrir?

[Amanda Audi]
Vamos. Não tem prova, mas tem vários indícios que a gente pode fuçar.

[Natália Viana]
No começo de qualquer investigação existe uma dica. Ela pode vir de uma leitura de jornal, de uma pessoa, de um documento que a gente encontra online ou de documentos vazados. Por isso, os jornalistas precisam estar atentos, treinar os olhos e os ouvidos para serem curiosos e sempre manter o ceticismo quando conversamos ou entrevistamos alguém.

Eu guardo há muito tempo uma pista para reiniciar essa investigação. São documentos confidenciais que preservei sem jamais publicar, esperando uma oportunidade para pesquisar melhor. Eles sugerem que a Lava Jato pode ter uma origem diferente daquela que é contada oficialmente.

São diálogos que estavam no meio de vários terabytes vazados por um hacker para jornalistas. Em um deles, o procurador Deltan Dallagnol explicava para outro procurador, Vladimir Aras, que a origem da Lava Jato era confusa. Já aviso que todos esses diálogos vão aparecer várias vezes ao longo dessa série e vão ser lidos pelo Ricardo Terto, nosso sound designer.

[Leitura Ricardo Terto]

Delta, quando foi instaurado o inquérito Mãe da Lava Jato? Dia, mês e ano?
Olha, essa história é confusa. Tem um IPL lá de 2005 de que eu cuidava sobre Janene, mas foi arquivado em 2008 e em seguida juntada outra notícia crime sobre outro fato, que levou à linha de investigação que envolveu o Chater, e em 2013, Erika teve info de Interligue de que Chater continuava operando e aí foi feita a interceptação.

[Natália Viana]
Essa é uma história de muitos personagens. Por ora, basta saber que Janene era deputado federal pelo PP e teria sido responsável pela organização da distribuição de cargos na Petrobras. 

Efeito sonoro

[Natália Viana] 

Agora guarde-se outro nome. Carlos Habib Chater. Ele foi um dos principais doleiros presos na operação.

Mas o que significa a Interligue? O termo Intel geralmente é usado para se referir à inteligência estrangeira, recebida de serviços secretos como a CIA ou o próprio FBI. Mas será que é isso mesmo que eles estão falando? E será que a chave para entender a interferência americana está na origem da Lava Jato? Para encontrar essas respostas, vamos voltar ali ao ano de 2019. A Lava Jato estava no auge depois de cinco anos de investigação.

Lula estava preso. Sérgio Moro tinha virado ministro da Justiça e, do nada, surgiu uma bomba jornalística. 

[Áudio material de arquivo] 

Nos últimos dias, conversas atribuídas ao então juiz Sérgio Moro e procuradores da Operação Lava Jato dominaram o noticiário político do Brasil. A comunicação teria ocorrido por um aplicativo de troca de mensagens, o Telegram, e foi publicada pelo site da Intercept. Segundo o site, elas mostrariam que o então juiz Sérgio Moro não foi imparcial ao julgar e condenar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Intercept diz que recebeu as mensagens de uma fonte anônima e que checou sua autenticidade. Moro denunciou no dia 4 de junho que foi vítima de um hacker. Deltan Dallagnol denunciou em abril que também teve seu celular hackeado.

[Natália Viana]
Vaza Jato surge quando mensagens do Telegram de Dallagnol foram hackeadas e depois vazadas para o site Intercept Brasil. A Amanda trabalhava lá e foi uma das primeiras pessoas a ter acesso a esse material.

[Amanda Audi] 

Pois é, nessa época, em 2019 eu trabalhava no Intercept e pra gente interno também era um segredo.Assim, quando chegou esse material todo lá, algumas pessoas ficaram sabendo. O meu editor, na época, me ligou e perguntou se eu podia ir na casa dele. A gente morava em Brasília, na época ele era meu vizinho. Então eu só desci de casa, cheguei na casa dele e tava pensando que deveria ser qualquer coisa, tipo, legal, parecia ser legal mas qualquer outra coisa, uma denúncia qualquer, algo assim aí ele pegou, passou um café daqueles que moi e tal fez todo um negócio uma pompa, porque era uma coisa importante, assim e falou: olha, o que eu vou te mostrar agora vai ser provavelmente a maior história das nossas vidas. Eu fiquei arrepiada na hora. Ele abriu o arquivo no computador me mostrou, eu falei: o que é isso? Aí ele: ah, são todas as conversas da Lava Jato da época, bota seu nome aí. Quando eu escrevi Amanda Audi, apareceram as minhas conversas com os procuradores na época. E já fiquei impressionadíssima com isso.

[Natália Viana]
Imagina o seguinte, estavam lá todas as conversas de vários chats e de grupos trocados pelos procuradores de Curitiba, policiais da PF, o juiz Sérgio Moro, mas também mensagens privadas. Como eram muitas conversas, algumas de anos atrás, não era fácil buscar e encontrar as informações que eram de fato de interesse público.

[Amanda Audi] 

Era o quê? Um tera de mensagem. Não lembro qual era o tamanho, era um tamanho absurdo de um monte de mensagem, Era um tamanho absurdo de um monte de mensagem. A gente tinha um computador em Brasília lá que era usado só pra isso, sem acesso à internet, sem nada, assim. E ficava procurando coisas, estruturando a apuração, assim. Porque, como vocês viram logo depois, é muito trabalhoso, né? 

[Natália Viana] 

No meio desse material, como eu disse, tinha de tudo. O trabalho era justamente separar o que que era relevante daquilo que só geraria fofoca.

[Amanda Audi] 

A gente tentava poupar ao máximo as informações, porque naquela época era uma fonte sigilosa, que corria muito perigo. A gente não podia revelar a origem daquilo e tinha que ter muito cuidado com tudo.  Afinal, vamos lembrar que na época o Sérgio Moro era ministro da Justiça, do governo Bolsonaro. Eram informações muito sensíveis e a gente tinha bastante receio de aquilo cair nas mãos erradas, de ter algum tipo de retaliação.

[Natália Viana] 

Assim como uma médica, psicóloga ou advogada não pode revelar segredos de seus pacientes e clientes, uma jornalista tem o dever de proteger o sigilo da sua fonte.

É uma obrigação profissional. Por isso, construir a confiança com uma fonte é uma operação complexa, delicada e que inclui uma enorme dose de ética profissional. Você tem que garantir que vai para a cadeia, mas não revela quem é a sua fonte. Com a Operação Spoofing, que foi deflagrada pela Polícia Federal para investigar justamente o vazamento dos chats, a identidade do hacker foi revelada.

Foi anunciada pela polícia, não pelos jornalistas que preservaram o sigilo. Como você vai acompanhar aqui, a relação com as fontes é fundamental para o nosso trabalho. 

[Alice Maciel]

Mas eu acho que talvez seja nesse lugar mais investigativo mesmo, de ir atrás das fontes, além de documentos, ouvir… a gente ter acesso, por exemplo, a um doleiro.

[Amanda Audi]

É, porque mesmo quando a pessoa fala em off, quando a gente fala em off, quer dizer, a pessoa conversa com a gente, mas ela não quer ser identificada, mas ela falou com a gente. Então, é um tipo de percepção de proximidade com o evento em si, que quem está buscando só na internet, nas redes sociais e tal, nunca vai ter, assim, né?

[Natália Viana]
Nós vamos buscar fontes primárias, pessoas que estiveram diretamente envolvidas na Lava Jato, como investigadores, réus, advogados, que vão contar a sua versão sobre os fatos. Também vamos usar relatos que obtivemos de fontes em off, que ajudam a orientar a nossa investigação.

Trilha sonora

[Natália Viana]
Em junho de 2019, meses depois daquele cafezinho da Amanda com o editor dela, eu estava nos Estados Unidos buscando fontes que pudessem esclarecer como funcionou a parceria da Lava Jato com os americanos quando uma notícia bombástica veio a público. 

[Áudio material de arquivo]
Tadeu Schmidt: Agora à noite, o site Intercept divulgou trechos de mensagens atribuídas a procuradores da Força-Tarefa da Lava Jato em Curitiba e ao então juiz Sérgio Moro, atual ministro da Justiça, extraídas do aplicativo Telegram. Os alvos dessas conversas denunciaram recentemente que tiveram seus celulares hackeados ilegalmente, o que é crime. Poliana Abritta: O Intercept, no entanto, disse que obteve os diálogos antes dessa invasão. Segundo o site, as informações foram obtidas de uma fonte anônima. O site diz que procuradores, entre eles Deltan Dallagnol, trocaram mensagens com Moro sobre alguns assuntos investigados.
Tadeu Schmidt: Segundo o Intercept, Moro orientou ações e cobrou novas operações dos procuradores.

[Natália Viana] 

A Vaza Jato chacoalhou a Operação Lava Jato, que era quase uma unanimidade nacional. Era um domingo, eu me lembro muito bem, porque dois dias antes eu tinha visitado uma fonte, um ex-procurador do governo americano que atuou na investigação.

Trilha sonora

[Natália Viana]
Essa pessoa me recebeu no seu escritório luxuoso, cheio de poltronas de couro e mesas de  madeira maciça, com secretárias bem vestidas e uma escadaria de design arrojado. Mas a conversa não foi nada boa. Assim que engatei nas perguntas, ele se irritou e disse que eu estava fazendo ele perder seu precioso tempo. Levantou-se e foi embora. 

Eu saí de lá arrasada, me sentindo uma péssima jornalista questionando se de fato tinha alguma coisa de suspeita na cooperação entre os investigadores americanos e os brasileiros. Mas aí veio o vazamento e eu sabia que ali deveria ter pelo menos parte das respostas. O Intercept estava fazendo parceria com outros veículos da imprensa, liguei para todo mundo que conhecia no site, pedindo pra entrar no jogo. Finalmente, o editor executivo Leandro De Mori me ligou com aprovação.

Efeito sonoro: avião aterrissando.  

[Natália Viana] 

Assim, em agosto de 2019, a Alice e eu desembarcamos no Rio de Janeiro para olhar os documentos na sede do Intercept, que fica no Rio de Janeiro, pertinho da famosa escadaria Selarón, aquela feita de mosaico, toda colorida. O que não era colorido era o clima na redação, que estava super tenso.

Trilha sonora clima de tensão

[Alice Maciel]

A gente só podia usar o computador deles, tinha todo um esquema de segurança. Não estava conectado à internet. Não estava conectado à internet e tudo que a gente fosse levar, a gente tinha que avisá-los também. Toda informação que a gente ia salvar, gravar, eles davam uma conferida para ver o que a gente estava levando para fazer as matérias.

[Natália Viana] 

De volta a São Paulo, mergulhei nesse material. E junto com a Alice, publicamos uma série de reportagens sobre a participação do FBI na Lava Jato. Sim, o FBI, a Polícia Federal Americana. Mas depois dessa publicação eu tive que deixar o assunto de lado. Veio a pandemia, veio o governo Bolsonaro, era tanta notícia ao mesmo tempo que uma possível interferência estrangeira na Lava Jato acabou ficando restrita às teorias da conspiração. Mas como vocês vão perceber, sou uma pessoa um tiquinho obsessiva. Nunca deixei 100% de lado essa história e havia um motivo para isso. 

Um dos maiores escândalos que provaram esse tipo de influência americana apareceu em 2012, pouco antes do começo da Lava Jato. E eu me lembro muito bem de todos os detalhes porque acompanhei bem de perto.

[Áudio material de arquivo]
Tadeu Schmidt: Uma semana depois de revelar que o governo dos Estados Unidos espionou a presidente Dilma, o Fantástico apresenta outro furo de reportagem.
Renata Ceribelli: Documentos ultra-secretos entregues pelo ex-analista da Agência de Segurança Nacional Americana, Edward Snowden, comprovam. A Petrobras, a maior empresa brasileira, também foi espionada pelo governo americano.

[Natália Viana] 

O Edward Snowden era um analista terceirizado de uma agência de inteligência americana, a NSA, que se expandiu enormemente depois dos atentados às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001.

Inspirado pelo Wikileaks, aquele site fundado pelo australiano Julian Assange, que se especializou em vazar documentos secretos, lembra? O Snowden decidiu ele mesmo vazar milhares de documentos que mostravam que o governo americano espionava seus próprios cidadãos e também governos e empresas de países aliados.

Inclusive a então presidente brasileira Dilma Rousseff e a Petrobras.  Amanda e eu decidimos procurar uma pessoa que conheceu muito bem o impacto desse vazamento, alguém do primeiro escalão do governo na época.

[Entrevista José Eduardo Cardozo]

Natália: A gente vai começar pedindo para você se apresentar, porque a gente guarda o…Todo mundo com os celulares apagados. Tudo certo. Perfeito. É porque tocar no meio… É chato pra dedéu. Então, por favor, se pudesse se apresentar.

Cardozo: José Eduardo Martins Cardozo, sou advogado, professor de direito, exerci várias funções públicas, mas as últimas foram o ministro da Justiça do ano de 2011 2011 a 2016, depois advogado-geral da União por um pouco tempo até o afastamento de Dilma Rousseff da presidência.

[Natália Viana]
Essa entrevista foi realizada na sede da Agência Pública em São Paulo. Cardozo é alguém que não se esqueceu nem um pouco das revelações feitas por Edward Snowden.

[Entrevista José Eduardo Cardozo]
Cardozo: Ali foi uma verdadeira bomba, porque realmente era inacreditável que a presidenta da República do Brasil eu estivesse sendo investigada e a maior empresa brasileira, a Petrobras, também. Eu me recordo que a outra autoridade internacional que estaria sendo investigada, segundo o Snowden, era a Angela Merkel, a chanceler e primeira-ministra da Alemanha. Isso surpreendeu bastante. E quando ele diz investigada, guarde bem, isso significa monitorada pelo governo americano. Isso surpreendeu bastante. 

[Natália Viana] 

E quando ele diz ‘investigada”, guarde bem, isso significa monitorada pelo governo americano.

[Entrevista José Eduardo Cardozo] 

Natalia: Monitorada como? Por quê?
Cardozo: Na verdade, Snowden revela que mensagens, situações de diálogos estavam monitoradas pela NSA, que é uma agência dos Estados Unidos, foi criada depois da Segunda Guerra Mundial e que controla informações no mundo todo. Então, nós estávamos sendo, nós não, perdão, a Dilma estava sendo e a Petrobras estava sendo investigada por alguma situação absolutamente inexplicável pela NSA dos Estados Unidos da América.

[Natália Viana]
Sob a justificativa de defender a segurança nacional, o governo dos Estados Unidos, depois do 11 de setembro, criou uma verdadeira rede de espionagem internacional.
Mas por que espionar a presidente do Brasil e a maior estatal brasileira? O que isso tem a ver com a segurança dos Estados Unidos?

[Entrevista José Eduardo Cardozo]
Cardozo: Na verdade, nós tínhamos feito na época uma opção que desagradava muito petroleiras e certos interesses internacionais na questão do pré-sal. muita pressão sobre isso. Então, a leitura que eu pessoalmente tenho é que essa investigação não tinha, essa investigação ou essa coleta de informações, essa espionagem, chamemos assim, não tinha nada a ver com política. Por quê? O que teria Petrobras ou Dilma relacionado a uma investigação política local ou até mesmo a uma situação de delitos internacionais? Não tem cabimento. Me parece que ali tinha algum tipo de interesse econômico que fazia com que Dilma Rousseff fosse investigada e também fosse a Petrobras investigada. Eu, pessoalmente, se você me perguntar: por que o senhor acha? Eu diria: provavelmente por causa da opção que nós fizemos no pré-sal diante do potencial que aquilo tinha de desenvolvimento, de crescimento da própria Petrobras e de afirmação do Brasil no mundo.

[Áudio material de arquivo]  

Sônia Bridi: O faturamento anual da Petrobras é de mais de 280 bilhões de reais, maior do que a arrecadação de muitos países. E não são poucos os motivos para que espiões queiram acesso ao sistema protegido da empresa. Não há informação sobre a extensão da espionagem e nem se ela conseguiu acessar o conteúdo guardado nos computadores da empresa. O que se sabe é que a Petrobras foi alvo da agência, mas não há pista nos documentos sobre que tipo de informações a NSA buscava. De todo modo, a Petrobras tem conhecimento estratégico associado a negócios que envolvem bilhões de reais.

[Natália Viana] 

Você já deve ter ouvido falar do pré-sal, uma camada a mais de 7 mil metros de profundidade no fundo do oceano que guarda uma reserva imensa de petróleo e levou o Brasil a ser o oitavo maior produtor de petróleo do mundo. Mas para chegar até lá é preciso de tecnologia de ponta, e foi nisso que a Petrobras se especializou, sendo uma das melhores do mundo na exploração de petróleo em águas profundas.
sendo uma das melhores do mundo na exploração de petróleo em águas profundas. Informações sobre essa tecnologia, planos da Petrobras e outros dados sensíveis podem ter sido o alvo dessa espionagem. E, por fim, este outro documento obtido pelo Fantástico mostra quem são os clientes da espionagem que recebem as informações obtidas.

[Áudio material de arquivo]  

Sônia Bridi: E, por fim, este outro documento obtido pelo Fantástico mostra quem são os clientes da espionagem que recebem as informações obtidas: a diplomacia americana, os serviços secretos e a Casa Branca. Ao lado, a prova de que a espionagem não tem como objetivo apenas o esforço contra o terrorismo, na lista estão também informações diplomáticas, políticas e econômicas. 

[Natália Viana]
O petróleo é uma indústria estratégica. Estamos falando de um mercado de cifras bilionárias. A situação era séria e gerou uma crise diplomática. Dilma Rousseff falou pessoalmente com Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos na época.

[Entrevista José Eduardo Cardozo]
Cardozo: E naquela época houve um contato de Dilma Rousseff para Obama.  Eu me lembro que Dilma cancelou uma ida para os Estados Unidos. Ela tinha uma ida programada, ela cancelou por força disso. E aí houve um contato, eu não me lembro quem ligou para quem. Mas houve um contato com o presidente Obama, que disse para Dilma Rousseff que desconhecia qualquer situação, mas se colocava à disposição para diálogos na mesma condição que tinham feito para a Alemanha, porque Angela Merkel também estava sendo investigada. Então, ele propôs a criação de duas comissões. Uma comissão técnica, que seria mandada pelo Brasil aos Estados Unidos para falar com as autoridades técnicas de lá, para entender como aquilo tinha acontecido. E, da mesma forma, uma comissão política. A comissão técnica voltou com pouquíssimos ou baixíssimos níveis de esclarecimento. E a comissão política, eu tive a oportunidade, por designação da presidente, de coordenar e comandar.

[Natália Viana]
José Eduardo Cardozo embarcou para os Estados Unidos para buscar esclarecimento sobre a espionagem internacional. Ele nos contou fatos inéditos sobre essa reunião.

[Entrevista José Eduardo Cardozo]

Cardozo:  Então, lá eu estive, tive uma entrevista com o Attorney General. Natália:

Que seria equivalente ao ministro da Justiça aqui no Brasil. 

Cardozo: E depois estive na Casa Branca também com a comissão, com o então vice-presidente Joe Biden, quando nós nos entrevistamos. Foi uma reunião dura, digamos assim. Foi uma reunião dura. Nós propusemos um acordo bilateral Brasil-Estados Unidos no seguinte sentido, se eles tivessem alguns indícios de ilegalidade e que exigia investigação no Brasil, teria que haver uma solicitação aos órgãos competentes brasileiros. E da mesma forma nós, se tivéssemos alguma situação que deseja ser investigada nos Estados Unidos, nós teríamos que pedir autorização aos órgãos competentes deles. E seria feito um acordo de cooperação, mas com esses balizamentos e regras que seriam necessários para respeito das soberanias nacionais. O então vice-presidente Joe Biden não aceitou essa proposta, dizendo que não poderia aceitá-la. Amanda:Por quê? Cardozo: [07:18] Ele disse que isso fugiria um pouco ao papel que eles desempenham no mundo, sem nos dar nenhuma fundamentação mais expressiva. Natália:Ele não explicou que tipo de papel é esse? Cardozo: Não. Na verdade, ele falou que isso não poderia ser feito porque os Estados Unidos desenvolveram uma partilha no mundo que efetivamente não poderiam se submeter àquele tipo de situações. Natalia: Mas é estranho, né? [Risos] Cardozo: Muito. Natália: Porque já existe um acordo. Ou seja, ou seja, já existe um acordo bilateral que garante que qualquer investigação americana… 

Cardozo: É soberania. Isso é uma questão que decorre da soberania nacional, não é? Eu não posso invadir um país, investigar o presidente da república, investigar as empresas brasileiras, pegar os dados das empresas brasileiras. Amanda: Eu imagino que o senhor argumentou isso com ele. Cardozo: Sim, longamente. E a resposta foi: não. Não aceito fazer o acordo.

[Natália Viana] 

A resposta de Joe Biden, que depois se tornaria presidente dos Estados Unidos, era clara: podemos espionar se houver interesse, e não devemos satisfações ao Brasil. Foi um climão diplomático. Dilma soltou o verbo na Assembleia Geral da ONU, em Nova York.

[Áudio material de arquivo]  

Dilma Rousseff: Quero trazer à consideração das delegações uma questão a qual atribuo a maior relevância e gravidade.  Recentes revelações sobre as atividades de uma rede global de espionagem eletrônica provocaram indignação e repúdio em amplos setores da opinião pública mundial. No Brasil, a situação foi ainda mais grave, pois aparecemos como alvo dessa intrusão. Informações empresariais, muitas vezes de alto valor econômico e mesmo estratégico, estiveram na mira da espionagem e a própria presidência da República do Brasil teve suas comunicações interceptadas. Sem respeito à soberania, não há base para o relacionamento entre as nações. 

[Entrevista José Eduardo Cardozo]

Natália: E aí, quando chega-se num impasse entre líderes de governos diferentes, como é que se conclui uma reunião dessas? Concluir com a negativa e você tem que tomar alguma postura, que seria uma represália, por exemplo, imagina, eu poderia falar para Dilma: vamos declarar guerra aos Estados Unidos da América. Não seria bem o caso.

[Natália Viana]
Bom, declarar guerra contra os Estados Unidos de fato não seria muito prudente. O governo brasileiro recebeu um modesto pedido de desculpas e a vida seguiu.

[Ricardo Terto]
Para conhecer mais histórias surpreendentes e imersivas como esta, acesse o site audible.com.br. Faça sua conta e teste grátis por 30 dias ou por  3 meses se você for membro Amazon Prime.

[Natália Viana] 

Seis meses depois, começava a Operação Lava Jato lá em Curitiba. Uma investigação que, desde o começo, dependia, como você já ouviu, da cooperação internacional. A relação com os procuradores estrangeiros e com o FBI gerou tanta desconfiança que virou até piada.

[Áudio material de arquivo]  

Ah, eu acho estranho, como as pessoas não perceberam ainda que eu sou americano, até por conta do meu sotaque, eu acabei de concluir o curso de português. Se eu voltar um período, fica muito mais claro que eu, na verdade, sou americano. Só fica chateado quando pessoas falam que Moro, Deltan e CIA fizeram o Lava Jato. Na verdade é Moro, Deltan e FBI. Mas tudo bem, vamos desligar essa ligação porque os russos podem estar espionando. 

[Natália Viana] 

Essa voz é do humorista Marcelo Adnet interpretando Sérgio Moro. Algumas teorias da conspiração chegam a afirmar que Moro era um agente da CIA infiltrado. De fato, Moro fez algumas visitas à sede do FBI nos EUA, inclusive, como ministro da Justiça, possui comprovadamente relação de amizade com procuradores americanos e até fez um curso em Harvard. Mas isso não é o suficiente para afirmar que ele é um agente infiltrado do governo americano. Afinal, eu também fiz inúmeras viagens aos EUA e estudei em Harvard. E daí? Não bastam convicções, é preciso ter provas. 

Agora a história sempre ensina. A relação entre o FBI e a PF é antiga e não é a primeira vez que existem denúncias de interferência. Desde a sua fundação, a PF foi aliada de agências americanas, chegando a receber verbas e treinamentos. Durante a Guerra Fria, o foco do governo norte-americano era o combate ao comunismo. Aqui no Brasil, em plena  ditadura, a Polícia Federal era responsável, por exemplo, pela censura. Quase todos os jornais tinham que levar suas edições à sede da PF para serem cortados. Literalmente, porque eram impressos. Depois da redemocratização e da Constituição de 1988, a parceria com os EUA mudou um pouco. Mas seguiu sendo nebulosa, com denúncias de abuso de poder e influência indevida. No início dos anos 2000, um jornalista investigativo conseguiu provar como a PF era cooptada pelos americano. Esse conjunto de reportagens saiu na revista CartaCapital e foi uma bomba que explodiu durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Depois de algumas tentativas, consegui falar com ele.

Chegamos ao apartamento do Bob Fernandes, em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo.

[Entrevista Bob Fernandes] 

Bob: Essa apuração começou em 1998, a primeira capa é em 1999, março, oficialmente, e a última, se eu não me engano, é em 2004, depois você checa. Então foram seis ou sete anos atrás disso. Natália: Essa investigação foi tão fundamental que foi parar até nas mãos da Dilma, anos depois, quando ela foi vítima da espionagem revelada pelo Edward Snowden. Quando teve o caso Snowden, quando ele denunciou que o avião da Dilma era espionado, a Dilma espionada, a Petrobras, etc, etc, me liga uma pessoa dizendo: “Ô Bob, a chefa”, que ia ter um encontro do Obama com a Dilma, “vai ter aquele encontro, a chefa está pedindo se você tem aquele material que a gente não tem”, porque eu não sei, porque eu não estava mais na Carta Capital. Eu falei: pô, mas a Helena Chagas me conhece. Ela falou: não, mas não é a Helena Chagas, é a presidente da república que está pedindo. E de fato eu sei que ela recebeu, porque depois uma outra pessoa falou, ah, eu recebi, ela deu para alguns poucos próximos. Então, você vê o nível de informação e de desinformação. Natália: De desinformação do posto mais alto do Executivo brasileiro. Cardozo: Não estou falando, a presidência da república não é obrigada a saber, óbvio, mas eu estou dizendo, mas o serviço de informação, pô, né? Se aquilo ali jamais foi desmentido, se aquilo foi tudo dito, ninguém prestou atenção, ninguém deu a menor bola.

[Natália Viana]
No fim dos anos 90, o Brasil abriu um processo de licitação para implementar um sistema de vigilância na Amazônia. No páreo estava uma empresa norte-americana e uma empresa francesa. No meio disso, apareceram umas fitas da PF em que foi descoberto um esquema de espionagem favorecendo a empresa americana na licitação.

[Entrevista Bob Fernandes] 

Bob: E só que nessa fitalhada que me leva a essa matéria, que leva à queda do xelote, ali surgem conversas de novo, a CIA, ali é que eu começo a puxar o fio. E aí o que você vai chegar? Vai chegar uma atuação conjunta e às claras, embora, aspas, supostamente inexistente, da CIA dentro do Brasil.

[Natália Viana]  

O Bob começou essa investigação focado no caso das fitas e do grampo do presidente. Mas quanto mais ele investigava, mais pessoas de dentro da PF mencionavam uma ação conjunta com a CIA. 

[Entrevista Bob Fernandes] 

Bob: A CIA, que agia ilegalmente, num regime chamado de informações compartilhadas. E por que era grave? Porque, primeiro, os 20 primeiros carros da Polícia Federal, que depois foram Centro de Dados Operacionais, depois SOIP, Serviço de Operações de Inteligência, se não me engano, vieram da CIA do Paraguai. Tijolo por tijolo, o que depois virou a sede da área mais sensível da Polícia Federal, foi feita a partir de um memorando onde a CIA doou 500 mil dólares para a construção desse centro. E qualquer pessoa, qualquer policial, delegado ou agente que fosse trabalhar nesse treco, nessa sessão, que acho que hoje é antiterrorismo, não sei como é que funciona hoje, estou falando, qualquer pessoa tinha que se submeter a teste de detector de mentiras nos hotéis em Langley, Washington.

[Natália Viana]
Assim,  os policiais brasileiros ficavam numa relação de subserviência a uma agência de inteligência de um país estrangeiro. Pausa aqui. Gente, isso não é uma teoria da conspiração. Isso são fatos. Fatos sérios, se pensarmos que têm operações da PF que podem gerar instabilidade política dentro do país, prejudicar interesses nacionais e ajudar interesses estrangeiros.

Existe uma verdade básica na vida, manda quem paga a conta. É óbvio que essa ajuda financeira tinha o seu preço. Todos os dados sigilosos das operações da PF se tornaram acessíveis aos americanos. 

[Entrevista Bob Fernandes]
Natália:  Mas assim, ou seja, havia atuação conjunta e cooptação, etc. Bob:  Você imagina, petróleo, petroquímica, todos os assuntos de interesse, cara. Você está com a Polícia Federal, o sistema de escuta de inteligência trabalhando. E os caras tendo acesso a tudo. Natália: inclusive, a todos os nossos segredos econômicos, da Petrobras, da Eletrobras? Bob: Tudo.

[Natália Viana]
Nos anos 90, o foco de interesse americano já não era mais combater o comunismo, mas a guerra ao narcotráfico. O Brasil era, e ainda é, um território de escoamento de droga colombiana. Então, essa era a justificativa para ampliar a ação das agências de inteligência no nosso território.

Uma das agências mais atuantes por aqui era a DEA (Drugs Enforcement Agency), a agência antidrogas norte-americana. Mas em 1999 o FBI instalava seu primeiro escritório oficial na embaixada em Brasília e já chegava com tudo.

[Entrevista Bob Fernandes] 

Bob: Quando vem esse escritório, como eu já tinha feito três ou quatro capas falando de CIA, uma com o espião da DEA, O que acontece ali?Um cara chamado Jack Ferraro, o chefe da CIA, sugeriu que o FBI, o cara que estava aqui oficialmente, deveria “influenciar esse”, segue-se um palavrão, jornalista. Natalia: Você. Bob: Eu. 

[Natália Viana]
O Bob já estava no radar do governo americano e o Carlos Costa, chefe do FBI no Brasil, que estava chegando por aqui, foi aconselhado pelo chefe da CIA a “influenciá-lo”, ou seja, tentar uma aproximação com o jornalista. Bob: O cara me procura, porque ele ficou curioso. 

E nós tivemos um jantar de duas horas e meia no Antiquários. Aquela conversa, papapá, papapá. Natália: Lá em Brasília, né? Bob: Aqui, em São Paulo. Ele vem pra cá. o caso não foi uma tentativa de cooptação pelo contrário ele tinha lido tudo do ramo, obviamente perguntou tudo que tinha que perguntar pra quem queria perguntar antes de chegar a conversar comigo então foi um jantar, digamos social, óbvio que ele quis investigar pessoalmente, saber quem é e eu, e foi aquela conversa de cerca-lourenço: bebemos, bebemos, bebemos, falamos de tudo, mas nem ele falou do essencial nem eu falei do essencial. E ficou no meu radar eu sempre monitorando ele já se apresentando como chefe do FBI porque ele já tinha escritório teve palestra, teve coisa que eu vi eu fiquei marcando fiquei de olho naquilo tudo. Quando ele está para deixar o Brasil, deixar o Brasil, não, deixar o FBI no entrevero que ele teve. Porque quando teve,  isso eu nem conto na matéria. Quando teve o 11 de setembro, por escrito, o FBI pediu que ele, aspas, monitorasse sheiks árabes mesquitas e líderes árabes no Brasil, tal, tal, tal. E conta ele, eu digo conta ele porque a minha experiência conversando com essa gente, tem um pedaço que é verdade, que você tem como checar, e tem pedaços que são inchecáveis.

[Natália Viana] 

Segundo Carlos Costa, ele decidiu deixar a chefia do FBI, porque não cumpriu a ordem de monitorar a comunidade árabe brasileira depois do 11 de setembro. Guarda essa informação porque ela vai ser importante ao longo da nossa investigação. Mas se ele recebeu essa ordem, por que não cumpriu?

[Entrevista Bob Fernandes] 

Bob: Porque é ilegal. Porque seria uma coisa ilegal.Eles investigaram na tríplice fronteira a existência de terroristas do mundo árabe, etc. etc, etc. Ele falou, Bob, a gente não encontrou nada. Naquela época,  isso era há uns 20 anos, 30 anos. 

[Natália Viana] 

Bob manteve sua fonte por perto durante meses enquanto escrevia a reportagem e segue em contato com ele até hoje.  Antes de terminar essa entrevista, eu não podia deixar de perguntar: Você vê uma ligação disso com o que aconteceu na Lava Jato? 

[Entrevista Bob Fernandes] 

Bob: ? O quê? Ah, mas é elementar, gente. Onde é que tem encrenca no mundo? Irã, Iraque, Síria, Venezuela. O que é que tem nesses lugares? outros lugares. Petróleo. Onde tem petróleo tem pepino. Você acha que a Lava Jato foi plantada pelos americanos ou foi criada? Tem os americanos por trás da Lava Jato? Eu não posso dizer que foi criada. Agora, é solar. Solar. Dá para ver da lua o interesse norte-americano na Lava Jato. É evidente. Natalia: Você acha que a Lava Jato foi plantada pelos americanos ou foi criada? Tem os americanos por trás da Lava Jato? Bob: Eu não posso dizer que foi criada. Agora, é solar. Solar. Dá para ver da lua o interesse norte-americano na Lava Jato. É evidente.

Efeito sonoro

[Natália Viana] 

Conversar com outro jornalista que investigou a mesma relação há um quarto de século me fez ver que estamos, na verdade, desvendando um longo processo histórico. A origem dessas relações vem lá de trás, talvez antes mesmo de eu ou você termos nascido. Mas para entender melhor o que acontecia naquela época, fomos em busca de outra fonte, alguém dentro da PF. E foi assim que a Alice chegou ao nome do ex-delegado da Polícia Federal, José Roberto Benedito.  A Alice agendou um cafezinho com José Roberto na Asa Norte, em Brasília, sem saber se ele toparia participar da nossa série.

A cafeteria é voltada para uma grande área verde, bem arborizada, com a maioria das mesas ao ar livre. O dia estava quente, mas a tão aguardada chuva após a seca histórica em Brasília dava seus primeiros sinais. 

[Entrevista José Roberto Benedito] 

Benedito: Para que você entenda a história, porque vocês vão falar da Lava Jato. Isso foi lá atrás, lá….  

[Natália Viana] 

No fim dos anos 1990 e começo dos 2000, quando as matérias do Bob Fernandes caiam como uma bomba e a realidade da cooptação americana vinha à tona, José Benedito era uma das vozes mais ativas nas denúncias. Na época ele era recém aposentado, após muitos anos trabalhando na área de inteligência da PF

[Entrevista José Roberto Benedito] 

José Roberto: Porque essa área de inteligência foi assim, o meu rumo dentro da polícia e a minha desgraça. E foi nessa época que estourou isso aí, eu estava na Interpol. Porque eles trabalhavam junto com a Interpol nossa, era o famoso CDO, a sigla. A gente começou a ver tudo o que acontecia, eles levavam agentes para lá, treinavam, faziam. E as coisas começaram a ficar complicadas. Alice: Quando o senhor começa a perceber como era essa influência dos americanos? José Roberto: Não, eu comecei a perceber o contato de todos. Isso era comum. Você conversava com japonês, com americano, com inglês, com canadense. Com russo, você conversava com todo mundo e tal.  Só que ali pela década de 80, final de 80. Alice: Conversava, peraí, só voltando, conversava como troca de informação? José Roberto: Troca de figurinha.. Alice: Troca de informação? José Roberto: É, troca de informação. Troca de informação, porque o crime é internacional, não? Então tinha essa conversação. A droga que passa aqui vai para os Estados Unidos, vai para a Europa. Então sempre houve esse contato. 

[Natália Viana] 

Já ouvimos que o contato entre polícias de diferentes países, envolvendo troca de de “intel’’ ou informações de inteligência, é corriqueiro, acontece o tempo todo. Mas quando é que essa relação deixa de ser colaboração e passa a ser cooptação?

[Entrevista José Roberto Benedito] 

José Roberto: A partir de 1980, celebrou-se um convênioentre os Estados Unidos e o Brasil para que eles tivessem uma agência aqui dentro do Brasil. Até aí, tudo bem. Como o fato é público, saiu na revista, eu e um colega, a gente começou a se incomodar com isso. Eles tinham muita liberdade de ação, esse era o problema. Eles chegavam, entravam, pegavam o carro, faziam a operação, não davam satisfação para ninguém. E eu, muito ingênuo, achei que a nossa soberania estava sendo violada. E a gente começou a peitar, não deixava, não vai não, pra quê? Por isso que eu sempre fui contra no departamento trabalhar com dinheiro alheio. Eu tinha ojeriza disso. Ah, mas nós não temos dinheiro. Então, não trabalhamos.. 

[Natália Viana]  

O que o José Roberto diz já aparecia nas reportagens do Bob Fernandes: o FBI pagava diretamente para policiais federais realizarem operações, principalmente no combate ao narcotráfico. O dinheiro caía direto na conta deles. A situação era de penúria, ok, mas  José Roberto e outros colegas começaram a questionar a liberdade com que os americanos atuavam no Brasil. Não existia nenhum mecanismo de controle. 

[Entrevista José Roberto Benedito] 

Alice: Pagava os policiais também em treinamento? José Roberto: Olha, isso aí é foi até objeto de um inquérito policial, isso. Por que eles levavam os agentes para fazer treinamento. Pagavam diárias, pagavam passagens… isso em tese, era ilegal. E outra, você começa a perder o controle, porque eles começam a se aproximar dos outros e, de repente, eles estão trabalhando com os outros e não está bom a mensagem. Depois que você faz isso nos Estados Unidos, você entra lá e vai trabalhar dentro de uma agência deles? De jeito nenhum.

[Natália Viana]  

Para José Roberto, o ápice dessa relação parecia ser mesmo o tal detector de mentiras 

[Entrevista José Roberto Benedito] 

José Roberto: Os nossos funcionários só podiam trabalhar na área deles se passassem pelo polígrafo. Puta, isso me insultou, né? Foi isso que deu o rolo todo. Porque aí eu cheguei para o diretor-geral, na época era o Zelote. Falei, boa, a gente podia ir lá e fazer o teste. Vamos ver o que tem esse teste. Aí eles falaram: pô, você tem coragem? Falei, tenho, eu vou fazer o teste. Alice: Como foi? Você fez como era? José Roberto: Ridículo. Alice: O que era? José Roberto: Se eu tinha alguém na minha família que traficava, não é para isso que eles aplicam esse teste. Alice: Era pra que? José Roberto:  Eu, na minha opinião, era para ver o grau de docilidade de quem estava sendo avaliado.

Trilha sonora

[Natália Viana]  

Depois das denúncias dos próprios delegados e da repercussão das reportagens da Carta Capital, muita coisa mudou. A PF passou por uma grande reestruturação sob a gestão do delegado Paulo Lacerda. Vinte anos depois, a Polícia Federal não é a mesma, o Ministério Público não é o mesmo.

Mas a dúvida sobre até onde vai a influência americana segue acesa. 

[Entrevista José Eduardo Cardozo]

Cardozo: A minha pergunta é, será que houve alguma troca de informações entre os órgãos de inteligência dos Estados Unidos que orientasse por razões político-estratégico-econômicas as ações da Lava Jato? Essa é a minha dúvida. Eu gostaria de não morrer sem antes saber disso.

[Natália Viana]  

Eu também não vou morrer sem saber essa verdade. Aliás, não quero nem terminar essa série sem descobrir a resposta.

Comecei esse episódio, dizendo que estava a alguns áudios de distância de solucionar minha dúvida, lembra? 

Não é só esse diálogo e a intrigante expressão “intelig” que eu guardei durante anos. Tem outro, uma conversa entre a Erika Marena, delegada responsável pelo caso em Curitiba, e o Dallagnol, em 2016, na qual o próprio Dallagnol pergunta para a Erika qual seria a origem da Lava Jato.

Ela responde em quatro áudios que podem ser a chave. Se esses arquivos revelam que a Lava Jato começou a partir de uma informação de inteligência estrangeira, existem duas maneiras de checar. Ou o Deltan Dallagnol e a Erika Mariana confirmam, ou encontramos os tais áudios. Por motivos óbvios, o segundo caminho é o mais viável. 

[Conversa entre Natália Viana, Alice Maciel e Amanda Audi]
Natália: Se de fato o primeiro grampo que levou a Lava Jato veio com parte de inteligência passada pelos americanos, eu acho que isso é bem relevante.

Alice: Sim, a primeira coisa é entender então como que começou. 

[Natália Viana]
Vale dizer que tentamos entrevistar todos os envolvidos nessa história, incluindo a Erika Marena, o Deltan Dallagnol e o ex-juiz Sérgio Moro. Nenhum deles quis se posicionar. Então, para saber como começou a Lava Jato, eu preciso dos áudios.

Eles não estavam no material que tive acesso lá em 2019, na redação do Intercept. Mas o hacker tinha muito mais. Tudo o que ele hackeou foi apreendido na operação spoofing da PF e esses novos arquivos podem conter outros segredos sobre a Lava Jato. Mas claro, não é tão fácil conseguir acesso a esse material. Nós precisamos de uma fonte disposta a compartilhar com a gente. 

[Sons de discagem e chamada telefônica] 

[Natália Viana]

Depois de algumas tentativas.. 

[Alice Maciel] Consegui os documentos da operação Spoofing. A fonte pediu sigilo total. Estou falando baixinho também, porque eu ainda estou na rua. Mas, a primeira vitória. 

Efeito sonoro

[Natália Viana]

Confidencial: as digitais do FBI na Lava Jato é um original Audible produzido pela Agência Pública de jornalismo investigativo. Esta série foi concebida e dirigida por mim, Natalia Viana, e escrita pela Jackeline Scarpelli. A investigação jornalística foi conduzida por mim, com ajuda das repórteres Alice Maciel e Amanda Audi. Sofia Amaral fez a produção executiva, e Mariana Sorrentino a assistência de produção executiva. Pesquisa por Luisa Santana e checagem por Erico Melo. Ricardo Terto fez a edição e design, e Ana Sucha foi responsável pela montagem. Pedro Vituri é o autor da trilha sonora original. Demais trilhas por Audio Network.  Coloração: Claudia Jardim. Som direto, logagem e organização de material por Stela Diogo. Som direto adicional por Andres Ochoa, Apollo Maneschi, Daniel Hernandez, Gil Neves e Mike Fitzgerald. A Mika Lins fez a preparação vocal e direção de voz desta apresentadora. Esta narração foi gravada no Estúdio Trampolim, em São Paulo. As mensagens da Vaza Jato foram lidas por Ricardo Terto.  Consultoria Jurídica por Patrick Mariano Gomes e Giane Ambrósio Alvares. Seguros por Prospecto Seguros. Financeiro por Roberta Carteiro. A identidade visual foi criada por Matheus Pigozzi. A equipe de divulgação é formada por Marina Dias, Lorena Morgana, Renata Cons, Leticia Gouveia, Ethieny Karen, Ester Nascimento, Edgar Chulve  e Vanice Cristine. 

Time de Conteúdo Audible Brasil:
Diretor de Conteúdo Original Audible: Leo Neumann        
Coordenação criativa: Juliana ‘’Denden’’ Arcanjo
Produção: Fernando Schaer                                    
Assistente de Produção: Alyson Borges                                                         
Líder de conteúdo LATAM: Paulo Lemgruber
Diretora-geral Brasil: Adriana Alcântara
Líder de Produção Audible Studios: Mike Charzuk
Líder Global de conteúdo: Rachel Ghiazza
Neste episódio foram usados áudios do acervo Conteúdo Globo, Band Imagem e Acervo EBC/Canal Gov.
Copyright 2025 por Audible, Inc.
Copyright da gravação de som 2025 por Audible, Inc.

[Ricardo Terto]
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