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Pode parecer exagero, mas com tantas voltas que deu a comunicação no século 21, as redações ainda compartilham características da época do meu bisavô, jornalista empregado no Estadão no início do século 20. A mais marcante é a predominância de homens brancos, não apenas nos cargos de comando, mas também no conteúdo: 84% dos jornalistas com textos assinados nos três principais jornais brasileiros são brancos e 59,6% homens de acordo com um estudo realizado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
A pesquisa analisou 4.331 matérias e colunas dos jornais O Globo, Folha de S. Paulo e Estadão, cruzando os dados de raça, gênero e heteroidentificação (método de identificação de uma pessoa através da percepção de outra) de seus autores. É o material mais detalhado que temos sobre o tema, mas já faz três anos que foi publicada e imagina-se que houve um avanço nas redações nesse período, decorrente da mobilização cada vez mais forte de negros e mulheres na sociedade – que apareceram em maior número nas faixas etárias mais jovens entre os autores pesquisados.
Mas a evolução pode não ser tão grande já que caminhava a passos de tartaruga, como constataram os pesquisadores: “Qualquer movimento que esteja sendo feito [em prol da inclusão racial] ainda está muito tímido. Se não houver uma movimentação mais incisiva de mudança, a tendência é que essa desigualdade se prolongue no tempo”, disse Poema Portela, uma das responsáveis pelo estudo, feito a partir de uma “provocação” da Rede de Jornalistas Pretos pela Diversidade.
Embora a ênfase do estudo esteja na inclusão, chamo atenção aqui para o impacto do elitismo cultural, machista e racista no próprio jornalismo, e portanto, na sociedade, que transparece nas notícias. Exemplos óbvios: um jornalista negro, que veio da periferia, aborda a violência policial como faz a maioria da imprensa, sempre pronta a criminalizar a vítima? Ou uma chefe de família mulher, que utiliza os sistemas públicos de educação e saúde, escreveria da mesma maneira sobre economia e políticas públicas? O conceito de Brasil de um jornalista sudestino é o mesmo de um pernambucano ou um paraense?
Nossa experiência nesses 15 anos de Pública revela a transformação no jornalismo trazida pela presença cada vez maior não apenas de mulheres – que fundaram a Agência Pública quando o feminismo ainda era visto com desdém pelas redações – mas de pessoas de origens sociais e regionais diversas e, principalmente nos últimos cinco anos, de negros, indígenas e outros grupos subrepresentados na imprensa ainda dominada por homens cis.
Pautas como obstáculos ao aborto legal, violência obstétrica, violências sexuais contra mulheres e crianças por empresários, professores, religiosos, políticos, racismo na Justiça (e não apenas na polícia), direitos e cultura indígena e quilombola, conflitos por terra, falta de representação política de jovens, negros, mulheres, abriram espaço para questões fundamentais em um país que quer aprofundar a democracia, reduzir a desigualdade, e precisa de novas ideias para enfrentar tempos difíceis.
O elitismo nas redações vem de longe, como atesta essa bisneta de jornalista, que vem de gerações escolarizadas e se integrou quase naturalmente ao mercado de trabalho. Para mudar o jornalismo, cada vez mais desafiado pelo poder das big techs, pela desinformação, pela extrema direita, é preciso investir em talentos que trazem experiências pessoais, culturais, e políticas bem mais ricas e em maior conexão com a sociedade real do que a bagagem costumeira dos profissionais de classe média com cursos de línguas e pós-graduação no currículo e contatos desenvolvidos nas faculdades de elite.
Nesta segunda-feira, estamos lançando o primeiro programa de trainees da Agência Pública, em parceria com a Fundação Itaú e com a Imaginable Futures, e com a colaboração de cerca de 80 profissionais notáveis que abraçaram a missão de atuar como professores e mentores de um curso voltado exclusivamente para jornalistas negros, indígenas ou trans – os grupos que enfrentam maior resistência do mercado de trabalho.
Também foram oferecidas condições materiais para que os jovens profissionais possam se dedicar ao curso e ao período de imersão na Pública em diversas áreas, como exige uma formação completa para atuar na profissão nesse novo ecossistema da comunicação – das reportagens à comunicação nas redes, do empreendedorismo ao audiovisual.
Os novos trainees foram selecionados por edital, testes e entrevistas de formatos bem diferentes dos que costumam ser adotados em programas similares de empresas jornalísticas. Para além das habilidades específicas, foram valorizadas a experiência de vida, a visão da profissão como serviço para a sociedade, a paixão e o compromisso com a renovação do jornalismo.
Não por acaso, a Aula Magna na abertura do curso, no dia 10 de agosto, será ministrada por uma jornalista que quebrou o mito da objetividade jornalística ao confrontá-lo com a subjetividade implícita e política oculta nas redações – brancas e masculinas, como sabemos. Falo de Fabiana Moraes, autora do livro “A Pauta é uma Arma de Combate”, mulher negra e pernambucana, acadêmica e jornalista na ativa, que traz uma reflexão corajosa e profunda para mudar o jornalismo por dentro.
Antes, uma mesa redonda com o tema “jornalismo como serviço público” traz para o debate quatro feras da profissão com trajetórias que fogem ao estereótipo: as jornalistas negras Cecília Oliveira e Aline Midlej, a jornalista indígena Helena Corezomaé e a jornalista Sanara Santos, uma das primeiras mulheres trans a liderar uma organização jornalística no país como diretora do Laboratório Énois e cofundadora da Transmídia.
O evento, que será realizado no Itaú Cultural a partir das 9h30 da manhã do próximo dia 10, é aberto ao público – e os nossos queridos leitores podem se inscrever até a noite de domingo neste link. Teremos um grande prazer em compartilhar essa experiência com vocês, que é a realização de um sonho e, esperamos, de novos sonhos para muitas pessoas.
Aprendemos com a experiência da Agência Pública que, mesmo um pequeno empreendimento, se for estratégico, inovador e conduzido com paixão e transparência, pode mudar a comunicação pública, um dos pilares da democracia. Que não se diga mais sobre o jornalismo, o que foi dito sobre as leis, as salsichas e, mais recentemente, sobre a própria imprensa: não queira saber como elas são feitas.
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