Buscar
Agência de jornalismo investigativo
Checagem

Serraglio e demarcações de terras indígenas. Blefe!

“O que mais se censura na proposta é que a criação de reservas indígenas se tornaria praticamente irrealizável porque os projetos viriam do Executivo e, aqui no Congresso, não seriam encaminhados”, afirmou Osmar Serraglio (PMDB-PR), na terça-feira (27)

Checagem
29 de outubro de 2015
18:32
Este artigo tem mais de 10 anos
Não deixe a Publica sumir
Nos adicione como fonte preferencial no Google.
blefe m laranja

A principal crítica à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/2000, cujo substitutivo foi aprovado na terça-feira (27) por uma Comissão Especial da Câmara, não é uma possível demora do Congresso em votar os futuros pedidos de criação de reservas, como afirmou o deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR). O maior problema apontado por juristas, ativistas e movimentos sociais é transferir para o Congresso a decisão sobre na demarcação de terras indígenas e áreas quilombolas, defendida pelo projeto. A Constituição determina que isso seja feito pela União.

O entendimento de juristas é que a demarcação de terras indígenas é um procedimento administrativo. Trata-se de confirmar o direito dos povos indígenas a uma área, ou seja, um direito pré-existente. Por isso, são feitos estudos para definir se o pedido de demarcação se justifica ou não. Se for confirmado, a demarcação é feita. “O que se pretende com a PEC é fazer com que o Legislativo participe do processo administrativo de demarcação. É um absurdo total. A própria Constituição enumera as atribuições do Legislativo e não tem nada parecido com isso”, afirmou o jurista Dalmo Dallari, em entrevista ao Instituto Socioambiental (ISA), em 2013, antes de participar de uma audiência na Câmara. “A PEC é flagrantemente inconstitucional.”

O deputado federal Osmar Serraglio (PMDB-PR), autor do substitutivo da PEC 215
Osmar Serraglio (PMDB-PR), autor do substitutivo da PEC 215. Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

A inconstitucionalidade da proposta também foi destacada pelo jurista Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai). “A Constituição não deu direito à demarcação. Deu direito à terra. A demarcação é só o jeito de dizer qual é a terra. Quando se coloca todo o direito sobre a demarcação, se retira o direito à terra, porque aí o direito à terra só irá existir se houver demarcação. É isso que está escrito na PEC: que não há mais direitos originários sobre a terra. Aí, muda a Constituição na essência do direito colocado”, disse, durante a mesma audiência na Câmara.

Na quarta-feira (28), a Fundação Nacional do Índio (Funai) divulgou uma nota em que se posiciona contra a PEC 215. Para o órgão, a proposta representa uma grave ameaça não apenas aos direitos indígenas, mas a toda a sociedade. “A PEC 215/00 propõe a transferência de responsabilidades sobre a demarcação de terras indígenas do Poder Executivo para o Legislativo, desrespeitando a Constituição de 1988, cujos direitos ali expressos representam uma conquista de todo povo brasileiro”, diz um trecho do documento. “Na prática, essa transferência significa que a definição sobre as terras onde os indígenas poderão exercer seu direito à permanência física e cultural está sujeita às maiorias políticas de ocasião. Sabemos que hoje esta maioria representa interesses pessoais e financeiros e atua para que não seja demarcada nenhuma terra indígena, como foi dito explicitamente por parlamentares membros da Comissão Especial, que ontem aprovou a PEC 215/00.”

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) preparou uma cartilha em que explica o que é a PEC 215 e indica quais são os problemas do projeto. O documento, disponível para download, mostra as modificações que a proposta pretende fazer na Constituição. No artigo 49, a demarcação de terras indígenas é inserida como uma das competências exclusivas do Congresso Nacional. Já no parágrafo 4º do artigo 231 é inserida a expressão “após a respectiva demarcação aprovada ou ratificada pelo Congresso Nacional”. No mesmo artigo é incluído ainda o parágrafo 8º, com o seguinte texto: “§ 8º Os critérios e procedimentos de demarcação das Áreas Indígenas deverão ser regulamentados por lei”. Com isso, uma futura lei deverá definir novos procedimentos para a demarcação, diferentes dos atuais ­– o que poderá dificultar ainda mais o processo, uma vez que a norma também será aprovada pelo Congresso.

A aprovação da PEC 215/2000 é defendida pela bancada ruralista. Vários dos parlamentares participantes da Comissão Especial da Câmara são ligados ao agronegócio e, por isso, contrários às demarcações de terras indígenas. Uma conversa interceptada por uma escuta da Polícia Federal apontou que um advogado ligado à Confederação Nacional da Agricultura (CNA) receberia R$ 30 mil para escrever o relatório da PEC – trabalho que deveria ser feito pelo deputado Osmar Serraglio. O caso está sendo investigado pelo Ministério Público Federal. De acordo com um estudo feito pelo ISA, a aprovação da proposta pode paralisar 228 processos de demarcação.

Não é todo mundo que chega até aqui não! Você faz parte do grupo mais fiel da Pública, que costuma vir com a gente até a última palavra do texto. Mas sabia que menos de 1% de nossos leitores apoiam nosso trabalho financeiramente? Estes são Aliados da Pública, que são muito bem recompensados pela ajuda que eles dão. São descontos em livros, streaming de graça, participação nas nossas newsletters e contato direto com a redação em troca de um apoio que custa menos de R$ 1 por dia.

Clica aqui pra saber mais!

Truco

Este texto foi produzido pelo Truco, o projeto de fact-checking da Agência Pública. Entenda a nossa metodologia de checagem e conheça os selos de classificação adotados em https://apublica.org/truco. Sugestões, críticas e observações sobre esta checagem podem ser enviadas para o e-mail truco@apublica.org e por WhatsApp ou Telegram: (11) 99816-3949. Acompanhe também no Twitter e no Facebook. Desde o dia 30 de julho de 2018, os selos “Distorcido” e “Contraditório” deixaram de ser usados no Truco. Além disso, adotamos um novo selo, “Subestimado”. Saiba mais sobre a mudança.

Leia de graça, retribua com uma doação

Na Pública, somos livres para investigar e denunciar o que outros não ousam, porque não somos bancados por anunciantes ou acionistas ricos.

É por isso que seu apoio é essencial. Com ele, podemos continuar enfrentando poderosos e defendendo os direitos humanos. Escolha como contribuir e seja parte dessa mudança.

Junte-se agora a essa luta!

Newsletter

Saiba de tudo que investigamos

Assinar
Fique por dentro

Receba conteúdos exclusivos da Pública de graça no seu email.

Assinar

Artigos mais recentes

Presidente dos Estados Unidos Donald Trump durante abertura da assembleia geral da ONU em Nova York em 2025

Escudo das Américas: iniciativa de Trump e de 14 países inclui cartel que não existe

|

O Cartel de Los Soles foi inventado pelo Departamento de Justiça de Trump, que depois voltou atrás

Empresa ligada ao Muralha Paulista é apontada como risco para dados sensíveis em Goiás

|

Órgãos de controle de São Paulo e Goiás questionaram contratos da Paladium para videomonitoramento nas ruas

Lula x Trump: presidentes defendem posições opostas em discursos na ONU

|

Líderes discordam sobre diplomacia, regulação da IA, soberania e guerras
Inauguração da ‘sala Google’ em Teresina, Piauí

“Usem muito Gemini”: Educação vira porta de entrada das Big Techs no Piauí

|

Com investimento de mais de R$ 90 mi, governo de Rafael Fonteles (PT) acelera dependência do ensino às multinacionais

O clã dos Cury

|

Apesar de Augusto Cury se dizer novo na política, o 3º colocado nas pesquisas vem de uma família há décadas no poder
Homem usando camiseta preta com estampa de uma caveira e os dizeres “Delegado Caveira Deputado Federal”, fazendo gestos com as mãos diante de um veículo

Segurança pública é foco de apenas 1 em cada 4 propostas da Bancada da Bala

|

Apesar de seus motes de campanha, deputados abordaram combate a violência em menos de um quarto de suas 2428 proposições
Lucas Kallas, da Cedro Participações

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

|

Então governador autorizou uso minerário em fevereiro para expansão da Cedro; empresa alega que rito foi legal

Com pai, marido e irmão presos, Natália Vorcaro Zettel segue à frente de 54 empresas

|

Irmã de Daniel Vorcaro é alvo de representação no MPF por suspeita de lavagem de dinheiro

Recordar é votar: 13 investigados pela CPI da Covid disputam eleições neste ano

|

Apontados pelos senadores por diversos crimes durante a pandemia concorrem a cargos – de deputado estadual a presidente

Pessoas negras são alvo da maioria dos gastos com prisões em 25 estados e DF, diz estudo

|

Para advogada do Justa dado demonstra seletividade penal e políticas estaduais com lógica punitivista
Brasília (DF), 07/05/2025 - Reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara para votar requerimento que pede a suspensão de ação penal contra o deputado Ramagem.Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Esposa de Ramagem usa verba de campanha para ex-assessora e irmã de Allan dos Santos

|

Candidata a deputada federal exilada nos EUA repassou R$80 mil a empresa de ex-assessora de Ramagem em agosto

Policiais candidatos fazem autopromoção no YouTube e podem lucrar com violência e machismo

|

Estudo estima monetização de 15 influenciadores; agente eleito não pode se apresentar como policial, diz governo de SP