Agência de Jornalismo Investigativo

Comparação de dois rankings com índice de homicídios por 100 mil habitantes mostra que afirmação de Fernando Haddad (PT) está correta

5 de outubro de 2018
18:30
Este texto foi publicado há mais de 4 anos.
José Cruz/Agência Brasil
O candidato à Presidência Fernando Haddad (PT), em evento da Unecs: comparação sobre desigualdade e violência está correta
O candidato à Presidência Fernando Haddad (PT), em evento da Unecs: comparação sobre desigualdade e violência está correta

“Há países tão desiguais como o nosso que não têm uma violência tão grande.” – Fernando Haddad, candidato à Presidência pelo PT, em entrevista à revista Carta Capital.

VerdadeiroEm entrevista à revista Carta Capital, o candidato a presidente Fernando Haddad (PT) disse que existem países tão desiguais quanto o Brasil que não registram tanta violência. O Truco – projeto de checagem da Agência Pública – analisou dois rankings de desigualdade e fez o cruzamento com o número de homicídios por 100 mil habitantes nesses países. Os dados mostram que a frase de Haddad é verdadeira.

A assessoria de imprensa do candidato não enviou a fonte da informação. Há diversos indicadores para avaliar a desigualdade econômica em cada país. Um dos mais utilizados é o coeficiente Gini, uma medida de desigualdade desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini em 1912. O coeficiente é um número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à completa igualdade, ou seja, a uma situação onde toda a população recebe o mesmo salário, e 1 corresponde à completa desigualdade, onde uma pessoa recebe todo o rendimento e as demais nada recebem. Criado a partir do coeficiente, o índice de Gini é expresso em uma escala de 0 a 100.

Segundo o Banco Mundial, a desigualdade expressa pelo índice de Gini está caindo no Brasil. Entre 2011 e 2015, o índice foi de 52,9 para 51,3. Ainda não há dados posteriores a 2015 no site do Banco Mundial. No entanto, essa base de dados conta com números de anos diferentes para cada país. Apesar disso, o Banco Mundial considera os dados comparáveis e reúne todas as estatísticas na mesma página em seu site. Um ranking com o índice de Gini de 158 nações posiciona o Brasil em 10º lugar entre os países mais desiguais do mundo.

O Brasil está em 9º lugar no mais recente ranking mundial de homicídios intencionais a cada 100 mil habitantes. São 31,3 ocorrências a cada 100 mil moradores. O dado, relativo ao ano de 2016, é do relatório Estatísticas Globais de Saúde, divulgado em maio de 2018 pela Organização das Nações Unidas (ONU). O índice de violência brasileiro é inferior apenas ao de Honduras, Venezuela, El Salvador, Colômbia, Trinidad e Tobago, Jamaica, Lesoto e África do Sul, nessa ordem.

Comparando as duas bases de dados, é possível encontrar nove países mais desiguais que o Brasil. Em sete deles, a violência é inferior à registrada aqui. Apenas na África do Sul e em Lesoto, mais desiguais que o Brasil segundo esse ranking, a violência registrada por meio da taxa de homicídios a cada 100 mil habitantes é superior à brasileira. Os outros sete países mais desiguais registram menos homicídios a cada 100 mil habitantes do que o Brasil.

Além dos países que são mais desiguais que o Brasil há outros seis países que têm índice de Gini no mesmo patamar do brasileiro, entre 50 pontos e 52 pontos no ranking: Suazilândia, Colômbia, Panamá, Guiné-Bissau, Ruanda e Honduras. Desses cinco países, somente dois têm índices de homicídios piores que os do Brasil: Colômbia, com 43,1 mortes por homicídio a cada 100 mil habitantes, e Honduras, com 55,5 a cada 100 mil. Os outros três países têm taxas muito menores: Suazilândia registra 20 mortes a cada 100 mil habitantes, Panamá tem 20,5, Ruanda, 5,5, e Guiné-Bissau, 9,2.

Publicada em dezembro de 2017, a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, coordenada pelo economista francês Thomas Piketty, também analisa a desigualdade social em diferentes países, mas utilizando um método diferente do índice de Gini. O relatório avalia quais países têm maior concentração de renda nas parcelas mais ricas de sua população. De acordo com o estudo, em 2015, último ano analisado, o líder em uma das categorias era o Brasil. Aqui, o 1% mais rico detinha 27,8% da renda do país naquele ano, índice mais alto dentre todos os países pesquisados. O segundo colocado é a Turquia, com 21,5% da renda concentrada no 1% mais rico da população. Os dados estão disponíveis no banco de dados World Inequality Database (WID), que monitora a evolução da concentração de renda no mundo nos últimos anos. No entanto, a análise da renda concentrada no 1% mais rico não é a única possível.

No recorte que compara os 10% mais ricos em relação ao resto da população, o Brasil não está em primeiro lugar. O país fica atrás da África do Sul, onde o grupo mais rico concentra 65% da renda nacional. O Brasil, com 55,6%, também fica ligeiramente atrás de alguns países do Oriente Médio, como o Líbano, com 57,1%, e dos Emirados Árabes Unidos, com 56% de concentração de renda nos 10% mais ricos.

Tanto Turquia quanto Líbano e Emirados Árabes registram índices de homicídios a cada 100 mil habitantes muito inferiores ao do Brasil segundo o relatório Estatísticas Globais de Saúde, da ONU. A África do Sul, no entanto, tem taxa pior que a brasileira.

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